Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


As aventuras do mini viking – Capítulo 7: Fiquei careca de saber
29-Setembro-2005, 1:11
Arquivado em: As aventuras do mini viking

Morávamos no Portal do Morumbi, maravilhoso condomínio de nove prédios, quatro quadras de tênis, duas polivalentes, três piscinas, sauna, clube e um campo. Ah, e dois pequenos bosques. Um com uma cachoeira.

Bom, cá estava eu, pequeno viking de oito anos, indo pra casa do clube quando cai um temporal daqueles. Ainda bem que estava voltando da natação, então só iria me molhar mais um pouco. Como chovia naquela hora. Tempestades em São Paulo, por alguma razão, parecem ser maiores do que as daqui do Rio.

Pois bem, já estabelecemos o fato que chovia canivetes. Estava saindo do clube. Ouvi um barulho. Um miado desesperado.

Naquela época não tínhamos bichos em casa. Trauma do meu pai. Imagina ter que cuidar de cães, gatos, galinhas, marrecos e um chimpanzé – sim, um chimpanzé – sozinho na sua infância. Teria trauma também.

Sigo o miado para achar, escondido entre duas latas de lixo, completamente ensopado, um lindo gatinho. Atordoado e assustado, miava incessantemente enquanto cataratas de água caíam sobre seu corpo trêmulo. Olhou então pra mim com uma expressão de total desespero, total clemencia.

Não aguentei. O peguei em meus braços, cobri seu corpo com meu roupão da natação e corri pra casa. Lá, arranjei uma caixa de Maguary (meu pai trabalhava na reestruturação da Fleischmann Royal, subsidiária da Souza Cruz, para em breve a ser vendida pra a Nabisco), forrei seus cantos com um cobertor de lã e o coloquei, agora seco, na caixa debaixo de uma lâmpada, para mantê-lo quente.

A chuva fazia um barulho ensurdecedor. Minha mãe me ajudara a fazer a caminha dele, mas em todos os momentos me alertou para o fato de termos a ausência do meu pai em casa. Ele chegava do trabalho em breve, e eu com certeza escutaria muito. Mesmo assim não poderia deixar o Garfield (ele era laranja com traços pretos) na chuva, pedindo ajuda.

Meu pai chegou. Surtou. Exigiu que o bicho fosse embora assim que terminasse a chuva. Disse que não se pegava gatos assim da rua, que eles trazíam doenças.

Mas entendeu o que fiz e disse que tivera sido bonzinho com o bicho. Fiquei surpreso e feliz. Não queria ficar com o Garfield – só tirá-lo da chuva.

Fiquei com o bichinho lá no quarto, debaixo da lâmpada, a noite toda. Não parava de chover torrencialmente. O deixei ao lado da minha cama, e fiz carinho nele enquanto dormia. Adormeci com a minha mão na caixa.

Acordei e fazia sol. Prontamente, antes mesmo de me preparar pra ir pro colégio, levei o Garfield de volta pro lugar onde o achei. Não antes sem dar-lhe uma boa refeição. Não se pode ficar sem o café da manhã, minha mãe sempre dizia.

Voltei pra casa, tomei meu banho, meu café e fui pro colégio. Tudo correu como o esperado. À noite, fui tomar meu outro banho do dia e escovar meus dentes.

Meu cabelo coçava. Achava que tinha piolho. Coçava muito.

Chamei minha mãe quando parte do meu cabelo apareceu entre meus dedos. Quando mais coçava, mais cabelo aparecia. Minha mãe chegou no banheiro e deu um chilique natural. Estava perdendo cabelo!

Fui direto ao dermatologista no Albert Einstein. Coletaram isso, analisaram aquilo. Veio o diagnóstico.

“Você esteve em contato com algum animal recentemente?”, perguntou o dermatologista.

“Sim, ontem trouxe um gatinho da chuva.” Resondi com a voz já esperando o inevitável ‘I told you so’ do meu pai.

“Esse gatinho te deu um sadofiasdofih, que é uma irritação da pele. Por isso você perdeu cabelo nessa área. Você deve ter coçado o cabelo ali depois de brincar com ele.”

Minha mãe olhou pros lados, eu olhei pros lados. Iríamos escutar muito, mas muito quando chegássemos em casa. Saímos com uma receita de remédios e pomadas.

Meu pai falou demais. Merecemos cada palavra. Fiquei careca por algumas semanas.

Nunca mais mexo com gatos de rua.



Novo Caetano
28-Setembro-2005, 6:52
Arquivado em: Música

 

“A sigla MPB é fetichista, quer perpetuar uma música que teve o seu auge no passado. Tentam nos transformar em novos Chicos e Caetanos. Acho isso estranho e engraçado ao mesmo tempo, não faz muito sentido para mim”, diz Rodrigo Amarante à TV Uol (link aqui).

Bom, se eles não tentassem tanto fazer um álbum beirando a bossa nova, e se o Amarante masmo não tivesse composto ‘Paquetá’, um bolero digno de Orquestra Imperialrgh, não fariam essa comparação.



João, Maria e Tia Dulce
28-Setembro-2005, 2:57
Arquivado em: Politicalidades

Até que ponto, em épocas avançadas, esclarecidas, ainda temos que nos preocupar com questões como o aborto? O Nós na Rede de hoje é sobre esse tema.

O aborto no Brasil tem muito a ver com as raizes católicas ainda encravadas na sociedade comtemporânea que deveria ter passado a considerar isso algo tão banal quanto usar células-tronco de fetos para salvar vidas. Venho portanto, ironicamente, dividir uma história que está neste momento acontecendo em Fortaleza. Nomes fictícios, claro.

João é um cara meio perdido. Ainda não terminou a faculdade de direito mesmo tendo 27 anos. Já pipocou em universidades em Porto Alegre e Fortaleza, seguindo o trabalho dos pais. Ultimamente tem namorado uma bela menina.

Maria é meio chatinha, um pouco marrenta, mas até gosta do João. Estão juntos há quatro meses. Se gostam, né, e fazem amor gostoso sempre que possível.

João não é muito de usar proteção. Maria nem gosta de tomar pílula porque seus hormânios entram em parafuso. João diz que não se come bala com embalagem.

Tia Dulce, mãe de João, descobriu semana passada que Maria está grávida de João. A decepção tomou conta de sua pessoa. João tem 27, não faz nada da vida, e agora vai ser pai. Vai ser pai.

João já disse logo que conversou com Maria e quer o aborto. Tia Dulce disse que jamais deixará isso acontecer - vai contra todos os seus princípios católicos. Não consegue imaginar jogar uma alma, uma vida assim fora desse jeito.

Fato interessante é que ninguém da família do João gosta da Maria. Ninguém acha ela boa o sufuciente para o filhinho. É muito chatinha, insossa, murrinha. Tia Dulce pelo menos não pensa em casamento. É uma católica moderna aparentemente.

O Brasil é a Tia Dulce. Acham errado abortar crianças indesejadas. Ninguém quer a porra do feto crescendo na barriga da Maria. Existem milhares de pequenos ovos indesejados no Brasil afora. Pra que enfiar num mundo cada vez pior crianças que não são desejadas, ou crianças que não tem como serem criadas?

Ovos são ovos, fetos são fetos. O ser humano só é um ser humano quando ele pode ser amado e criado como tal. Deixá-lo jogado num orfanato ou criá-lo sem carinho e com rancor não é botar um ser humano no mundo.

Está mais do que na hora do Brasil tomar vergonha na cara e não deixar com que a religião mais uma vez impeça a evolução da sociedade.

(publicado no extinto Nós na Rede)



Ladronácios e ladravazes
27-Setembro-2005, 6:58
Arquivado em: Esportividades

Olha, muito já foi discutido sobre o escâdalo da arbitragem do campeonato brasilieiro. O Edílson já disse que manipulou jogos no campeonato paulista, brasileiro e na Libertadores. Minhas considerações:

- Se for pra anular os jogos, e realmente cassar isso até o fim, visto que outros árbitros supostamente estão envolvidos, o negócio é cancelar tudo e começar de novo, colocando forçadamente o calendário nacional junto com o europeu, algo que é muito bom por si só.

- Se mais árbitros possivelmente estão envolvidos, a solução é mudar tudo, começando pela CBF e o Ricardo Teixeira. Tá, eu sei que é utópico isso, but we can all dream.

- Por falar nele, o Ricardo bem que podia se demitir baseado nessas denúncias, né?

- Armando Marques, fiodaputa de primeira ordem, ainda não se pronunciou. Desgraçado. Bobear ganhava junto.

- Esse mesmo Edílson é aquele que está sendo acusado de xingar o Tevez e o Mascherano, do Corinthians, de ‘gringos de merda’. Será que foi pra desestabilizar um time que ele queria que perdesse?

- Acho que o Botafogo 1 x 0 Vasco tem que ser anulado. O Vasco 2 x 1 Figueirense não. :)

Enquanto futebol, a nível de técnico, o que é necessário nesse país para um técnico conseguir manter seu cargo??

18 vitórias, cinco empates e seis derrotas em 29 jogos. Números de time campeão. Mesmo assim Bittencourt vira auxiliar de ninguém menos que Antonio Lopes. Brincadeira.



As aventuras do mini viking - Capítulo 6: Dia chuvoso
21-Setembro-2005, 1:10
Arquivado em: As aventuras do mini viking

Dia chuvoso. Não tinha sido um dia legal. Havia um clima esquisito no ar. A casa estava silenciosa demais.

Acordei cedo, como sempre fazia quando era garoto, e percebi esse ambiente estranho. Não conseguia entender porque, mas algo didn’t fit. Caminhei para o banheiro, escovei meus dentinhos ainda de leite, fiz o que tinha que fazer e fui pra sala ver desenhos.

Nunca o Show da Xuxa. Aprendi minha lição.

Meu irmão ainda dormia. Devia ser um sábado. Afinal, não haviam as cobranças necessárias do dia-a-dia de crianças-preguiçosas-que-precisam-acordar-e-tomar-banho-e-café-
para-ir-ao-colégio.

Olhava pela janela de casa as gotas de chuva escorrendo pela janela. Pensava na minha vida até aquele ponto. Todos os amores, as decepções de uma vida repleta de acontecimentos. Poucos anos que passaram tão rápido, mas deixaram tantas lindas lembranças.

Enquanto ponderava o significado da vida, passava Topo Giggio na televisão. Como gostava daquele desenho. Chorava incessantemente vendo aquele ratinho solitário, tristonho na sua caminha. Pensava em todos os mendigos que via na rua, todas as pessoas necessitadas que não conseguia ajudar. Minha mãe sempre ficava preocupada comigo quando saíamos. Bastava eu ver um mendigo doente na rua pra abrir o berreiro.

Finalmente a casa ganha barulhos. A Dadá tinha saido do quarto. Estava na cozinha preparando algo. Cheirava maravilhosamente bem.

Minha avó depois apareceu. Estranho ela vir num sábado, visto que domingo era a macacada toda da família se infurnando na casa dela pra comer bolinhos, pães de queijo e afins entre sessões de sonecas. Mas não podia dizer que estava triste em vê-la. Só estranhei.

Ela estava toda carinhosa, me botando pra pensar em tudo. Perguntou-me meu dia, minha semana, como estava o colégio, a natação, o judô. Passei um tempão explicando tudo. E o cheiro da cozinha dominava o apartamento. Em breve acabaria o interrogatório e começaria a tão esperada comilança.

Depois de comer até explodir, fui pro meu quarto de brinquedos (sim, eu tinha um quarto que só tinha brinquedos… quem nunca teve, meus pêsames… é sensacional ter um quarto assim). Fiquei lá um tempo, entre meus Legos, meus lápis e o Castelo de Greyskull, inventando histórias, criando prédios, desenhando. Reinventando o mundo.

Mais à tarde reparo na ausência dos meus pais. Eles saíam de vez em quando. Todos os pais precisam disso. Mas engraçado era que não esperava que eles tivessem saído aquele dia.

Dadá disse que eles tinham ido pro hospital. Mamãe não estava se sentindo bem. Naquele momento, tentei entender tudo. Era um pouco complicado, mas tentei do mesmo jeito.
Então mamãe tinha se sentido mal, e papai a levou pro hospital. De manhã. Já estava chegando a noite…

Recebemos uma ligação do papai. Estavam a caminho de casa. Vovó foi pra casa. Dadá sentou conosco pra dizer para não chorarmos. Que tudo estaria bem.

Esperei ansioso a chegada dos dois. Quando chegaram, choramos juntos, abraçados, na sala de estar. Minha mãe perdera nosso caçula.



Dei mole
19-Setembro-2005, 3:01
Arquivado em: Contos

Dou mole. Não penso. Muitas vezes páro. Esqueço muita coisa. Deixo o tempo passar. Não dou a devida importância que certas coisas merecem. Brigo comigo mesmo para fazer algo que sei que será benéfico para mim, mas é mais difícil do que quero aceitar. Permito que o descaso e a preguiça prevaleçam em alguns momentos. Lembro de eventos que poderíam ter tido um final diferente, tivesse eu tido um pouco mais de perseverança. Hiatos que não precisariam existir. Lacunas preenchidas. Espaços em aberto fechados. Há alguns meses estava eu no ônibus, e troquei olhares com uma linda menina sentada no banco oposto ao meu. Ficamos nessa troca de olhares por alguns instantes. Não sei se ela percebeu o que queria, mas eu pelo menos pensei que sim. Ainda sim mantinha minhas dúvidas. Essas incessantes dúvidas que nos prendem em nossos lugares. Meu ponto se aproximava e eu ali, sentado, pensando no que fazer. Como abordaria uma pessoa num ônibus? Sempre achei isso o ó. Mas visto que não tinha escolha, era isso que tinha que fazer. Meu ponto chegou. Desci para vê-la me acompanhando com seus lindos olhos castanhos. Mandei um sorriso. Sorriso devolvido. E o ônibus partiu. Dei mole.



Eu
16-Setembro-2005, 1:04
Arquivado em: Perfil

Eu. Simples e complicado. Extrovertido. Bom de papo e (quase) sempre sorridente. Verdadeiro. Me abro de verdade com quem considero amigo meu. Medroso. Meu coração está trancado a sete chaves (agora seis). Tenho medo de amar porque amo plenamente. Carinhoso. Não há nada melhor que o toque humano. Tranquilo. Nada me estressa a não ser injustiça. Pacífico. Acham que existe um briguento nesse bobão aqui. Bobo. Brincar e sacanear amigos é meu playground. Ator. Sempre atuo, dia após dia, em todas as áreas da minha vida. Inglês. Minha pátria é lá e aqui. Confuso. Não sei o que será de mim daqui a um mês, quiçá um ano. Viking. Sou um nórdico luso-alemão. Confiante. Acredito muito em mim. Safo. Senso singular de direção e de capacidade de atravessar ruas. Convencido. Me amo demais e me acho lindo. Egocêntrico. Rafa não está sozinho. Imperfeito. Falhas infinitas. Leitor. Leio fervosoramente para não me achar desprovido de cultura. Ouvinte. Amo ser confidant de todos ao meu redor. Amo dar conselhos, tentar passar a pouca sabedoria que tenho. Crente. Creio que sempre sei mais do que realmente sei. Rico. Rico de amigos, de amores, de canções. Músico. Sempre à procura do acorde perfeito. Cantor. Minha felicidade é usar minha voz. Velho e novo. Sou Vovó e Bruno ao mesmo tempo. Megahertz. Paixão munida de trabalho, esforço e competência. A resposta para todos os meus sonhos. Alexandra. Dona de uma das sete chaves. Tranco-me menos. Sou mais completo.



As aventuras do mini viking: Capítulo 5 – Castelo de Greyskull
14-Setembro-2005, 1:09
Arquivado em: As aventuras do mini viking

Meu pai, como bem expliquei na aventura passada, é uma cara batalhador. Nunca deixou de lutar a vida toda pra nos ajudar. Enquanto se transformava em diretor geral da América Latina de um conglomerado multinacional, lecionava em faculdades, aqui e em Petrópolis, fazia mestrado, doutorado e trabalhava, nessa época, na Souza Cruz. Um louco.

Era muito jovem. Quatro, cinco anos. Morávamos ainda no Grajaú, no apartamento 101 do edifício Tatiana, número 29 da Rua Engenheiro Richard. Meu pai viajou para a Inglaterra: tinha um curso da Souza Cruz (lá British American Tobacco). Achávamos que em breve ele voltaria. Que seria mais um daqueles dias em que ele volta pra casa quando estávamos dormindo e saía para o trabalho quando ainda não tínhamos acordado.

Papai não voltava. Soubemos depois que esse tal de ‘curso’ era algo duradouro. Três meses! Inacreditável! Como respiraríamos sem nosso pai por três meses? Como seria possível não conseguir sentar no seu colo dizer “from the bottom of my heart”!?

Ficávamos atentos, olhando para a porta e para o telefone, à procura de som ou da imagem do nosso pai. Ele diz hoje que tinha medo que esqueceríamos dele. Bobo. Um herói, um deus na terra não se esquece assim. Não importa o quão jovem és.

Entre os telefonemas e as esperas intermináveis, vivíamos nossa vida de pintar com as mãos, correr atrás de nós mesmos no parquinho, no play ou no colégio. Eramos ocupados o bastante para não irmos a loucura com a falta dele. Vira e mexe ganhávamos um boa noite dele. Era tudo para nós.

Quando estávamos aguardando a volta do nosso deus em um mês, um mísero grupo de trinta dias, minha mãe vem com a bomba: “Lindinhos, vou lá me encontrar com seu pai. Vamos passar um tempo sem vocês nos enchendo o saco, gastando nosso precioso tempo. Vamos lembrar de como era bom quando não tínhamos vocês por perto – como éramos mais felizes. Volto junto com seu pai, em um mês, para esse inferno na terra que vocês criam para nós todos os dias”. Vocês podem imaginar como tudo isso soou em minha pobre cabeçinha juvenil. Entrei em parafusos.

Já não bastava metade da sua vida ir embora assim, de bobeira, por causa de algo estranho e estúpido chamado ‘curso’ que não vale nada pra você. Agora vem sua outra metade dizer que vai embora também. Esse mísero grupo de trinta dias agora parecia uma eternidade de dor e sofrimento! Como eles tinham a coragem de fazer isso conosco? COMIGO?

Minha mãe foi, e minha avó foi morar lá em casa junto com a Dadá, nossa babá/secretária que até hoje, mesmo depois de morarmos por anos e anos em Sampa e no exterior, está aqui em casa de novo. Vovó nos dava (quase) tudo o que pedíamos. “Até que esse mês pode ser melhor que esperava… é só conseguir realmente tudo o que quero da vovs”, pensava.

Um belo dia recebemos uma ligação. “Estamos voltando crianças!”, disse ele, do outro lado do telefone, com aquele lag estranho mas típico da telefonia de outrora, “Saímos daqui de Londres em meia-hora! Estamos chegando em breve! Estejam acordados!”.

“Hmpf, claro, agora ele quer que fiquemos acordados, suuuper felizes para recebê-los. Egoístas.”, pensava. “Meu pai vai querer que pulemos em seu pescoço também. Aposto que está barbudo.”

Acabamos dormindo mesmo. O vôo era longo, mas o fuso permitia que eles chegassem mais cedo. Não entendi direito quando minha avó tentou desenhar um diagrama do avião, dos fusos e tudo mais. Fui dormir.

Acordei um pouco antes da hora deles chegaram. Fui tomar banho, ficar bem cheiroso. Afinal, havia tanto tempo que queria deixar uma boa impressão. Senão bobear ele voltava pra lá com medo da gente.

Toca a campainha. Escuto os barulhos de mala, coisas mil. Ouço as vozes da minha mãe – sempre as mais altas de qualquer recinto. Não ouço as dele. Só falta ele ter preferido ficar lá!

Minha mãe entra, sorridente e entupida de coisas. Cada membro seu segurava umas quinze bolsas – isso sem contar que a Dadá estava tentando manter o equilíbrio segurando doze malas. Nos viu e correu para o abraço.

A felicidade de ver seus pais depois de tanto tempo é algo avassalador. Lá estava ela de novo, linda, sorridente, correndo em nossa direção para um abraço carinhoso. Como é possível evitar algo assim?

A segurei com toda minha força. A entupi de beijos. Trinta dias é muito tempo.

Ouço a voz dele. Mais barulho de coisas. Ele fala com a minha avó, fala com a Dadá. Pergunta como estivemos. Estamos aqui oras! Pergunta pra gente!

Corri pra cozinha para abraçá-lo. No meio de bolsas e malas mil, pulei pra cima dele e não queria nunca mais soltar. Não estava barbudo. Estava igualzinho. Parecia que nunca tivera viajado. Decepção.

Após incontáveis beijos e abraçõs, nos reunimos na sala de televisão.Nos sentaram no chão. Vieram com trocentas bolsas e uma gigantesca mala.

Começaram a nos mostrar o que compraram, para eles e para nós. Muitas roupas, escarfes, casacos. Nada que queria. Tanta coisa inútil que estava ficando entediado. Depois de todo o nosso guarda-roupa atualizado, veio o que não esperava

Meu pai me traz um castelo enorme. Lembrava dele: era o Castelo de Greyskull! Onde He-man e Pacato e Mentor lutavam contra o Esqueleto e a Malígna! Tinha também uma prima dele, com uma música insuportável cantada pela Xuxa… não me lembrava o nome.
Vislumbrei aquele monstruoso brinquedo. Era quase do meu tamanho! Cheio de janelas, torres, portões. Perfeito! Ele fechado já era tudo o que poderia querer!

“Abre o castelo filho”, disse meu pai. “Aqui pelo lado”. Me mostrou uns dois ou três pinos que existiam no lado do castelo e me mostrou que ele abria para mostrar seu interior! Uau, não só era perfeito para brincar por fora, mas dava pra brincar por dentro! Quanta tecnologia!

Lá estava eu, minúsculo viking, abrindo o monumental Castelo de Greyskull que se encontrava perante a minha pequena pessoa. Assim que ouço o último clique dos pinos, meu pai abriu com força o castelo. Mal podia esperar para ver se tinha calabouços, escadas, passagens se-cre-tas!

O castelo se abre. Eu, sempre curioso, quis logo ver o que ele tinha de maravilhoso por dentor. Fui soterrado.

Quando abri o castelo, a turma inteira do He-Man, e possívelmente da She-ra, dos Comandos em Ação, Ursinhos Gumy, qualquer outro desenho que tinha uma linha de bonecos caiu em cima de mim. Eram centenas, milhares de bonecos. Fiquei envolto até a cintura de brinquedos. Vi na expressão do meu pai o que meu rosto dizia: completo torpor.

Se meu pai tivesse viajado mais uns três meses acho que ganhava a Harrods inteira.



As aventuras do mini viking – Capítulo 4: Minha frase predileta
9-Setembro-2005, 1:08
Arquivado em: As aventuras do mini viking

Meu pai é um caso à parte. Batalhou por toda sua vida para prover à família a melhor vida possível. Nunca titubeou, nunca parou pra pensar. Simplesmente fez. E muito.

Office boy aos 15, diretor geral da América Latina de um conglomerado internacional de empresas aos 50. Nesse meio termo, incontáveis noites de deprivação de sono por causa do trabalho, de aulas aqui no Rio e em Petrópolis, eu e meu irmão.

Incontáveis decepções nossas devido às suas altas expectativas de todos nós o moldaram, nos moldaram. Está na hora dele parar com isso tudo e se aposentar. Mas workaholic que é nunca vai conseguir.

Tinha poucos anos de idade. Não me lembro o quanto. Morávamos no Grajáu, bairro da zona norte aqui do Rio. Sempre amei o bairro: as ruas arborizadas, a calma, a praça. Agora está muito mais perigoso que há 20 anos. O Rio inteiro está.

Morávamos na Engenheiro Richard, no Edifício Tatiana. Quem quiser passar lá e dar uma olhada é o prédio com ajuleijos azuis na fachada. Quantas lembranças daquele prédio (mais histórias do mini viking, com certeza)…

Meu pai sempre foi um cara culto. Aprendeu inglês sozinho, chegou a lecionar. Gostava de incentivar a língua estrangeira para nós desde criança. Pouco sabia ele que sua competência e gana nos levaria à Nova Zelândia e Inglaterra.

Chegava sempre tarde, quase na hora de dormirmos. Nunca me importava com isso. Vê-lo chegar era o ponto alto do meu dia. De terno, sempre com olhar de cansado, ele nunca hesitava em nos tratar com o resto de energia que lhe sobrava. E nós, crianças que éramos, nunca deixamos de aproveitar essa energia ao máximo.

Gostava muito de conversar com meu pai no seu colo. Fui, e continuo sendo, uma pessoa muito afetiva. Adoro tocar as pessoas, abraçá-las, beijá-las.

Meu pai tinha uma conversinha em inglês que nos ensinou desde muito pequenos. Por isso não me lembro ao certo quantos anos tinha na época. Sei que ele adorava a conversinha. Eu sei que amava.

Sempre quando ele começava, sentia um prazer indescritível. Era nossa conversinha. Ninguém mais a tinha. Era o elo, secreto, intímo, único, que mantinha com meu pai, meu herói.

Ele me colocava no colo e perguntava: “Do you love me?”, já com sorriso imensurável no rosto.

Respondia, com o melhor inglês que uma criança brasileira muito bem instruída conseguia: “Yes.”

O sorriso já não cabia mais no seu rosto. “How much son?”

Eu, já esperando o beijo e abraço que viriam depois, soltava com toda minha alegria: “From the bottom of my heart!”

Love you paps. From the bottom of my heart.



Independência ou morte
7-Setembro-2005, 2:50
Arquivado em: Politicalidades

Independência ou morte.

Independência de que? Do que hoje, nós brasileiros, lutamos contra? O que queremos para nós? O que defendemos?

Que ética é essa que desejamos defender se não há ética em qualquer faceta desse país? Que páis é esse que não consegue, em momento algum, lampejos de decência, de democracia, de honestidade?

Vivemos um tempo turbulento nesse país. Parece essa é melhor, portanto a mais utilizada, frase hoje para se descrever o momento político do país. Discodo e muito disso tudo.

Sempre vivemos tempos turbulentos. A história democrática desse país é uma prova que nunca tivemos governo decente aqui. Nunca realmente passamos mais do que um ano sem que uma grande merda estourasse na cara de todos. Sem que uma crise, interna ou externa, uma tortura, um golpe, uma mudança de moeda mexesse com tudo e todos. Nunca tivemos paz.

O que descrever da independência desse país quando sempre estamos presos à falcatruas, mensalões, CPIs inúteis, conselhos de ética inespressivos, cassações expurgadas, Severinos, ACMs, Lulas, Collors, Dirceus, Bispos, Valérios, Cunhas, Delúbios?

Quando é que estaremos livres de uma política corrupta, suja, vil? Entre a independência ou a morte, escolhemos a morte.

Descanse em paz Brasil.

(publicado no extinto Nós na Rede)