
Apesar das gritantes diferenças de personalidade, bastou uma troca de olhar. Ele, sempre comedido em ambientes como esse e ela, sempre efusivamente alegre e dançante. A música era uma dessas de praxe. Um hip-hop qualquer que sempre toca nesses lugares. Ele odiava a música com todo fervor. Ela dançava sem parar, cantando a música que sabia de cor e salteado.
Ele se divertia entre amigos. Era aniversário de um deles. Mesa cheia, mais ou menos dez pessoas batendo papo, discutindo política, música, projetos pessoais, futebol. Ela dançava com três amigas da faculdade. Acabara com seu último namorado fazia dois meses. Se sentia pronta para voltar a frequentar lugares como esse.
Enquanto ele discutia a importância de se embalsamar marxistas para servirem de exposição em museus por todo o mundo (na verdade, era sobre o novo meio-campo do Vasco… horroroso como todos os outros que lá jogavam), ele olha para ela em seu vestido verde, desses das pseudo-hippies da Lapa. Sua pele era banquinha. Seus pés perfeitamente descobertos numa sandália aberta. Ele tentava vê-los melhor. Ela pulava demais, não dava.
Voltando do banheiro ele a encontra no bar. Passa por ela, troca mais um olhar e pára ao seu lado. Pede uma água. Ela olha para ele, esperando que pedisse algo mais ‘tradicional’. Ele vira pra ela e diz: “Não bebo”, tentando disfarçar o bafo de Red Bull com whisky que tomara antes de ir fazer número um, “o que você pediu?” A bebida dela era um vermelho com azul misturado que ele nunca vira antes. Ela lhe diz o nome do drink. Algo estranho. Pouco importava. O fato de estar olhando em seus olhos era o suficiente.
Perguntou então qual era o gosto do drink. Ela ofereceu a taça para ele. Mais uma vez, ela reiterou que não bebia. Ela então indaga: “Mas como você quer saber qual é o gosto se não quer beber o drink?” Ela então repara no olhar maroto dele e sorri. Os dois se beijam, despretenciosamente mas apaixonadamente. Trocam carícias ao som de um funk antigo tocando no segundo andar. Ela tenta rebolar ao som que escuta. Ele fica ali, ainda admirando seus cabelos cacheados.
Ele olha pra baixo. Procura as sandálias abertas. Aqui dá pra ver melhor. Repara no cuidado que ela teve com os pés. Não tinha outro jeito a não ser gostar ainda mais dela.
A noite passa, e eles ali, no cantinho, se curtindo ao som das mais variadas músicas. É simplesmente imcompreensível para ele ouvir todos os estilos musicais presentes no mundo compilados em quatro horas no mesmo lugar. Esse é o Rio. Ninguém tem gosto musical. Todos gostam de tudo porque todos gostam de tudo. Falta de personalidade é foda.
Ela descobre um pouco mais sobre ele. Ela conta um pouco mais sobre si. Falam de música, de interesses pessoais, de projetos de vida. Ela termina faculdade de jornalismo em dois anos. Ele não vê nela uma jornalista. Nem ela. Mais um retrato da Geração Diploma.
As amigas estão de saída. Os amigos dele já saíram faz tempo. Ele oferece carona. Ela diz que está de carro e as amigas dependem dela. Trocam telefones e prometem se falar.
Quinta-feira da semana seguinte tentam um encontro de verdade. Vão ver um filme num cinema Estação. Ela precisa acordar cedo no dia seguinte, então o filme é cedo. Ele tem futebol com os amigos, e visto que ela não pode ficar até mais tarde ambos se despedem e ela segue para casa.
Sábado ela o convida para sair para outra boate. Ele tem barzinho com os amigos. Pondera a situação e escolhe, com um certo grau de dúvida, claro, ficar no barzinho. Ouvir música insuportável por cinco horas não é entretenimento para ele. A convida para ir pro barzinho conversar. Ela tem uma prima do Sul que quer conhecer a boate. Combinam de se encontrar na semana seguinte.
Escolhem quarta-feira. Um restaurante japonês em Ipanema. Já é o terceiro encontro (verdadeiramente, é o segundo) entre eles. Ele pergunta como foi a boate. Ela diz não ter gostado muito, mas o que importou foi a diversão da prima. Passam a noite entre sashimis se conhecendo ainda mais. Cada vez se entendem melhor. A diferença de opinião de ambos, porém, é grande. Dá pra ver que não há nada em comum a não ser o prazer do beijo e comida japonesa. Ela até admite não ter gostado muito do filme no Estação. Ela na verdade não gosta muito de cinema.
Ele prontamente pergunta se ela gosta de axé. A resposta, esperada, é sim. Muito. Não perde uma micareta com as amigas. Ele a diz que não suporta axé. Muda então de assunto para não perder o interesse.
Ele a leva em casa, no Leblon, e ela o convida para escutar um cd de axé que tem em casa. Diz que ele vai amar se escutar esse. “Os outros são uma porcaria mesmo”, diz ela, com um sorriso contido. Não há como recusar um convite tão promissor.
Ela mora com o irmão num apartamento de dois quartos deixado pelos pais, agora aposentados, que moram no litoral paulista, onde a mãe dela tem parentes. O apartamento é muito bem cuidado, espaçoso e aconchegante, impressionantemente desprovido de barulho apesar da localização.
Encontram uma química incrível no quarto, ao som de axé. Ele ri enquanto tudo se desenrola. Quer mais um Cole Porter, um Miles Davis, um clichezíssimo Barry White. Axé é brincadeira. Chiclete com Banana ao vivo é ainda mais ridículo. Tenta esquecer os barunhos de ‘chiiiiiiclé-tê, obá, obá’ do som dela. Ele vê que ela se diverte. Cada vez mais adora o sorriso dela. É um daqueles marotos, bobinhos, apaixonantes.
Já são duas da manhã. Ele finalmente consegue, depois de muita tentativa, a única coisa que achara de bom nos álbums dela: o botão de ligar do som. Ficam no silêncio um tempo até cairem no sono. Acordam assustados às seis da manhã. Pelo menos nenhum dos dois se atrasou para o trabalho e para a faculdade.
Continuaram a se ver por um tempo. Se encontram, em média, duas vezes por semanas. Sempre se encontram sozinhos, a dois. Ele não gosta de boates. Ela não gosta de não ir a boates. Ele tenta, incessantemente, levar uns dvds pra casa dela. De ‘Conde de Monte Cristo’ a ‘Procurando Nemo’, são os desenhos que mais agradam. Ele nem pensa em levar um ‘Apocalipse Now’.
As diferenças que o atraíram no início já estão fazendo diferença. Ele começa a ponderar se quer apresentá-la a seus amigos. Quer saber se ela vale a pena. A resposta vem num momento oportuno: show do Chiclete com Banana, esgotado há sei lá quanto tempo, que ela já tinha comprado ingresso e ia com as amigas de qualquer jeito. Uma das amigas tinha torcido o joelho jogando tênis, então tinha um ingresso sobrando. Ela ofereceu, provavelmente achando que seria impossível ele recusar. Pois ele não só recusou como quis conversar com ela.
Cinco semanas depois de tudo começar, se encontraram pela última vez no mesmo restaurante japonês do segundo encontro. Era tudo escondido demais pro gosto dele, e não havia como continuar com alguém de gostos tão distintos. Chega um ponto que você procura algo a mais. Não havia um álbum sequer no quarto dela que ele gostasse. Tá, ele comprou ‘Bloco do Eu Sozinho’ pra ela. Ela escutou uma vez, com ele. Depois foi parar atrás de todos os álbums de axé e hip-hop que ela tinha.
Ela não entendia como ele não via graça em dançar a noite toda ao som de 50 Cent, Ja Rule, Latino, Babado Novo ou o Chiclete. Ele não entendia como ela não conseguia ficar sem isso. Tudo bem que não deram tempo para que os gostos se adaptassem, mas honestamente nenhum dos dois parecia querer realmente tentar. Deixaram tudo como estava, e prometeram permanecer amigos.
Até hoje ele ainda a encontra de vez em quando. A última vez tem três meses. A encontrou num pub com algumas amigas. Um pub. Dançavam ao som de U2 e Counting Crows. Não sabiam as letras, mas era um avanço. Ele perguntou o que ela fazia fora de uma boate. Quinta-feira não era dia de boate, disse ela, e a sua amiga de faculdade não gostava de boates. Ela era loira, alta, e muito, muito bonita. A tentação foi muita. Mas não dava pra ele dar em cima de uma amiga dela. Não assim, na frente dela.
Talvez outro dia, pensou ele.