
Fico pensando até que ponto é possível uma pessoa se emocionar com alguns acordes tocados, algumas notas cantadas. Me vejo sempre fechando os olhos, balançando a cabeça e às vezes o corpo e, no geral, me divertindo demais com o som que adentra meus ouvidos e reverbera no meu corpo. Não esperava o que estava para vir hoje, na Apoteose.
Fui na vontade de poder ver tocado um álbum que tanto me fascina, que tanto me faz fechar os olhos e balançar a cabeça, muitas vezes tocando no ar a bateria na ponte antes do refrão ou fingindo saber copiar o solo do Gilmour com perfeição.
Cheguei na hora, como todo bom brasileiro, e perdi os primeiros acordes à caminho do palco. Fazia um calor insuportável. Tanta gente com um só sonho, uma só vontade - escutar ao vivo o ‘Dark side of the Moon’.
O show foi de uma produção surreal. Nem um estouro no gerador causou maiores problemas. Quatro telões, sendo que o principal era de uma nitidez sensacional. Um show inigualável de luz e som surround graças à quatro carvalhões que seguravam speakers gigantes acima das arquibancadas.
Todas as músicas tocadas com perfeição, trabalhadas com mãos talentosíssimas, fazendo jus ao álbum que mudou e ainda muda a vida de muita gente. ‘Wish you were here’, ‘Time’, ‘Money’… simplesmente mágicas.
Eles saem do palco. Voltam, prontos para o bis que todos esperavam. Roger apresenta o Coral da Ufrj e ‘Another brick in the wall’ é tocada, para delírio dos mais de trinta mil presentes. Um mar de gente de todas as idades, todos os backgrounds possíveis ali, cantando, mãos no alto, voz ficando cada vez mais rouca a cada segundo que passava.
Deixaram o melhor para o final.
Sempre tive esse sonho, mas sabia que seria difícil ele ser vivido. ‘Comfortably Numb’ é, pra mim, um marco como poucos em minha vida. O solo de Gilmour, a melodia da música, são algo que transcendem a realidade e atravessam meu corpo, me tranformando, por alguns minutos, em um ser etéreo, suscetível a cada onda sonora que é trazida a mim pelas mãos e vozes sublimes da banda.
Eis que vejo que meu sonho se tornara realidade. O primeiro acorde é tocado. A primeira palavra proferida. Não me encontro mais presente na Apoteose. Estou livre, solto, longe do mundo, inteiramente perdido em meus pensamentos.
Sinto uma torrente de emoções tomando conta de mim. Não mais seguro meus sentimentos e começo a chorar. Nunca antes me senti dessa maneira. Meu sonho se mostrava real e eu ali, vendo ele se apresentando tão perfeitamente na minha frente, cedi e me deixei chorar mesmo.
Música é realmente algo especial. Roger Waters trouxe meu sonho para o Rio. Só posso agradecer por uma experiência que jamais, jamais esquecerei.