Tropa de Elite. Bom, vamos lá.

O melhor filme que já vi em língua portuguesa. Disso não tenho a mais remota dúvida. O que mais me espantou nesse filme foi justamente o que mais é discutido por aí - a ‘realidade’ dele.
Em ‘Cidade de Deus’ vi os primeiros sinais de bandidos ‘como bandidos’. A primeira vez, pelo menos pra mim, que vi um retrato fiel, de novo pelo meu ponto de vista, do que é o bandido no Brasil - suas aspirações, suas falhas, suas virtudes, seus problemas e suas escolhas. Principalmente suas escolhas. Fora uma parcela bem remota da bandidagem, é fato afirmar que esse ‘caminho’ é uma escolha. Uma escolha muitas vezes fácil, visto que as oportunidades oferecidas são tão remotas e difíceis que ser bandido faz certo sentido. Mas não deixa de ser uma escolha.
Agora ‘Tropa’ esculachou geral. Esplodiu tudo na cara do expectador. Mostrou a face merda e suja da organização policial. Expeliu seus podres, seus corruptos, sua corruptibilidade, as mazélas de um sistema há tempos inapto e gritantemente carente de reforma e reestruturação.
…O nível de paz é proporcional entre a munição dos bandidos e a corruptibilidade da polícia…
A verdade colocada em xeque é a mais pura e putrefata demonstração do que vivemos diariamente nessa cidade. Estou longe de vivenciar isso, felizmente, mas é exatamente o que todos nós vemos e sabemos. Não é absurdo, por mais que seja. Não é horripilante, por mais que seja. Não é hediondo, por mais que seja. É o que é porque é verdade.
O retrato caricato e tenebroso da juventude classe-alta carioca é assustadoramente perfeito. Senti um certo asco de como estavam sendo retratados os jovens, e quando reparei naquilo, e vi a angústia que aquilo me causava, vi o quanto realmente é fiel à realidade. Não me encaixo no meio, na verdade fujo demais desse povo, mas eles fazem parte do ‘meu mundo’, e saber que eles existem ao meu redor dá alergia, úlcera, vergonha, revolta.
O estigma do policial corrupto é rechaçado. E a verdade do policial corrupto é mostrada. As discussões a seguir têm de servir pra tratarmos os corruptos com mais veemência e justiça e louvarmos, em altos brados, aqueles que lutam bravamente contra as injustiças do sistema, a precária condição de trabalho, o dever a ser cumprido apesar dos problemas e do perigo e seguem seu trabalho de cabeça erguida, sem serem sugados para a ilegalidade que assola a instituição em que juraram fazer parte.
Esse filme é longe de ser fascista. Longe. Também está longe de incentivar a tortura, justificá-la ou apresentá-la como solução. Está longe de dizer que certos atos incompreensíveis são compreensíveis. Demonstra o temor e o terror de ser do Bope, de ter de passar por aquilo, de ser aquilo, e tudo, tudo mesmo, que assola a vida de quem escolhe o caminho dessa tropa de elite.
O Nascimento, em momento algum, é um anti-herói. Ele é um capitão do Bope, entupido de problemas, com síndrome do pânico, problemas em casa, no trabalho, consigo mesmo. Não é para ser visto como um herói ou vilão. Ele é simplesmente um capitão do Bope, e essa é a história dele e do momento em que ele tem de achar um substituto pelo bem do seu casamento e da sua saúde.
As cenas de treinamento são brilhantes. As atuações são brilhantes. Wagner Moura merece o Oscar gigante que fica em frete ao Kodak Theater, junto com o do de melhor ator. Padilha merece um prêmio por demonstrar de maneira tão precisa e incrível o que todos nós conhecemos e admitimos, mas nosso cinema sempre fez questão de, de alguma maneira, tangenciar - seja por endeusar bandidos, falar mal de ações policiais, mostrar a sociedade de maneira irreal e muitas vezes romântica demais.
Bandido é bandido. Com todos os problemas sociais involvidos, com todas as escolhas feitas, com todas as virtudes e falhas. Policial corrupto é policial corrupto, e merece ser tratado como bandido. Policial honesto merece louvor, deveria ter uma condição de trabalho melhor, melhor treinamento, melhor proteção contra a corrupção latente que domina nosso mundo - em todas as áreas, todas as classes, todas as profissões.
Tropa de Elite já é um clássico. Já é o mais falado filme de todos os tempos do Brasil. Já é o filme mais visto que todos os tempos nesse país.
Quero muito que todos possam ver, e rever, e rever, da maneira que for. Não vi o filme pirata. Fiz questão de não ver. Mas sei que muita gente sem acesso à cinemas pode ver. Fico contente só por isso. Quem pode ver no cinema, veja. A experiência de ver um filme com imagem ruim e som absurdamente horrível no Media Player deve ser terrível. Sei que ainda vou ver esse filme algumas vezes no cinema. Ele merece.
Pela primeira vez em minha vida fiquei boquiaberto com um filme nacional. Esse filme é realmente inesquecível. Quem diz não gostar do filme ou é pseudointelectualóide que faz questão de renegar a realidade ou é simplesmente estúpido. Só pode ser estúpido por não gostar de um filme tão bom.