Arquivado em: As aventuras do mini viking

Mini viking volta triunfante. Quer dizer, nem tanto. Poucas histórias da minha infância contam com triunfos. Mas pelo menos servem para entreter. Eu acho.
Voltamos ao sítio na Posse. Eu tinha um sítio na estrada da Possêee… e estávamos num belo inverno, cercados de familiares, num clima jovial e prazeiroso da época de São João.
Nunca entendi bem a Festa de São João. Nem bem o porque de sua existência. Só sei que adorava dançar quadrilha, colocar placas de flanela nas minhas calças antigas e pintar bigode e costeleta com o lápis de olho da minha mãe. Engraçado que ser o noivo nunca me interessou muito. Devia gostar de ser o amante. Tem que tê, tem que tê, tem que tê um amante…
Estávamos lá, serelepes e jubilantes, brincando de São João. Na necessidade incessante de piromania dos meus tios, aqueles rojões escrotos comprados em Caxias no Fogão (aquele com símbolo do Flamengo na lateral) estavam presentes. Com toda sua força, qualidade e espantosa variedade de explosões, meus tios os colocaram, lado a lado, para a apresentação final. Le Grand Finale. It’s the end of the world as we know it…
E lá fui eu, pequetitico que só, assistir ao expetáculo. Ávido por um camarote especial, me posicionei estrategicamente atrás do meu tio Sérgio. Tio Sérgio, por sua vez, apontou com gosto o rojão a ser lançado.
Cinco… quatro… três… dois… um… PFFFT!
Nada de um céu coberto por fagulhas mágicas de som e luz. Nada da maravilha tecnológica de pirotecnia caxiense. Nada de ninguém ver porra nenhuma acontecer. A não ser eu.
Atrás do meu tio, atrás do rojão, vi a joça explodir ao contrário e uma nuvem de pólvora e fumaça me atingir em cheio. O mundo escureceu. Comecei a entender ali, aos quatro, os ensaios sobre a cegueira. Porque só aos quatro mesmo pra gostar da joça do livro do Saramago.
Pisquei. Olhei pra cima. Terror no rosto do meu tio. Horror no rosto do meu outro tio. Pavor no rosto do meu pai. O mundo rodou mais lentamente. Todos os movimentos eram em câmera lenta.
Virei para a esquerda. Em tons baixo-barítonos (aqueles tons muito mais graves e escrotos que aparecem nas vozes das pessoas em filmes quando tudo está mais devagar) minha avó gritava ‘voooocêsss quuuueeeeimaaaraaam ooo rooostooo dooo meeeu neeeetoooo!!’. Pandemônio se instaurou e Murphy riu.
Me encontrava completamente estático nesse momento. Não entendia nada. Mal sabia que estava, de fato, com o rosto completamente tomado pela pólvora e dejetos pretos. Um perfeito Tião Macalé nórdico.
Vi minha avó quase desmaiar. Vi minha mãe berrar. Vi meus tios e meus pais se desesperarem. Envolto no caos comecei a chorar. Um choro nervoso, sem sentido. Um choro de ver todos nervosos.
Lá veio a toalha molhada. Um banho que tomei de água fria em pleno inverno na Posse. Porra, podiam ter esquentado a água pelo menos. Nunca pensam no meu bem-estar. Malditos. Pensei que fossem me enfiar na piscina. Ainda bem que estava coberta.
Com a minha avó ressuscitada, minha mãe mais calma, meu rosto limpo e todos mais alegres, voltamos às celebrações de São João. Muita música ridícula, muita quadrilha fora do tempo - com direito à tunel onde todos se esbarram e destróem a idéia da brincadeira. Minha roupa ainda estava um pouco suja. Não me importei.
Tinhamos rojões pra acender.






