Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Mil Casmurros
29-Novembro-2008, 12:26
Arquivado em: Literaturalidades

Fiquei fascinado pelo projeto Mil Casmurros de leitura do ‘Dom Casmurro’ feito pela Globo. São mil trechos curtos dessa obra que ainda preciso voltar a ler para realmente gostar, pois só tenho lembranças da chatura que foi lê-la para a aula da Sônia.

O sensacional Idelba lê um trecho. O guei mais lindo do mundo lê o décimo-terceiro sem, pasmem!, crédito! O Rodrigo do Jacaré Banguela outro. Acho que vi o Ina fazer outro. Vi sim… e logo antes da Ana Maria Braga. E do Romário!!

No final, espero ver muitos amigos lendo e curtindo essa idéia tão genial. Já ando vem que tem muita gente legal que leu um trecho. E muita gente desconhecida, o que dá um prazer incrível ver lendo os trechos. De moleques a senhoras, todos participando de um projeto de cultura na internet inovador.

Meu trecho é o 132. Adorei lê-lo. Espero que vocês gostem.

(obs: eu não sei porque, mas não consigo ver se funciona o embed to vídeo… por isso deixei o link acima)



Um apelo
27-Novembro-2008, 4:20
Arquivado em: Diatribes, Politicalidades

 

Moradores de Itajaí, Tiago Berlim e Ricardo Aoki fazem o apelo e eu, humildemente, de tão longe, mas com o coração partido por ver meu país se tornar um de primeiro mundo, com desastres naturais que assolam e destróem, deixo aqui meu pedido:

Doações podem ser feitas nas seguintes contas do Fundo Estadual da Defesa Civil, CNPJ 04.426.883/0001-57:

Banco do Brasil – Agência 3582-3, Conta Corrente 80.000-7
Besc – Agência 068-0, Conta Corrente 80.000-0.
Bradesco – Agência 0348-4, Conta Corrente 160.000-1

O número de mortos ultrapassa 100 em todo estado. São mais de 60 mil desabrigados.

Por favor, ajudem.



A Melhor Banda Desconhecida do Mundo (III)
26-Novembro-2008, 3:56
Arquivado em: Música

Calexico é, aparentemente, uma banda de imenso reconhecimento megasuperindie aqui nos EUA. Só os descobri porque a revista TimeOut! que li no Starbucks antes de entrar pra peça improvisada de Shakespeare. Acabou que o show deles com o The Acorn era a uma quadra do teatro. Acabei indo por curiosidade e fiquei estupefato com a maravilha que é o som deles.

Eles têm inúmeros álbuns, que irei escutar cuidadosamente, escolhendo as melhores músicas para baixar no iTunes. Sim, virei um romântico desenfreado, e só quero ter no meu computador músicas que posso comprar. Para aquelas que não estão à venda ou não consigo achar em lugar algum a não ser na internet, não posso fazer nada. Estarão a tocar no meu lindo iPod em toda sua glória pirata.

Inicialmente chamada de Spoke, lançou seu primeiro álbum, auto-entitulado, em 1996. Seu segundo álbum, ’The Black Light’, que é algo de sensacional desde o primeiro minuto, foi lançado em 1998 e até o Wall Street Journal o considerou um dos melhores do ano. Eles conseguem uma fusão sensacional de música estritamente mexicana com as influências country-rock do Sudoeste Americano. O resultado é uma incrível míriade de estilos, fluente e bonito, sofrido mas alegre em muitos momentos, com os metais sensacionais da música mexicana, agonizando suas notas em momentos sublimes de puro êxtase musical.

 

O ‘Feast of Wire’, de 2003, é o que mais gostei depois do ‘The Black Wire’. Foi também o primeito grande sucesso ‘comercial’ dos caras, tendo aparecido nas paradas Billboard’s Heatseekers e Independent Album Chart. Gravado o vídeo de ‘Quattro (World Drifts In)’, foi o single do álbum, apesar de não ser, nem de longe, a melhor música. Como normalmente acontece. ‘Güero Canelo’, que é sensacional, esteve merecidamente na trilha no filme ‘Colateral’ do Jamie Foxx e Tom Cruise.

O mais novo álbum é o ‘Carried to Dust’, com muita gente pseudoindiefamosa, como o Sam Beam do Iron & Wine, Douglas McCombs do Tortoise and Pieta Brown. Mais uma vez, recebeu excelentes críticas, e merece ser ouvido depois de ‘The Black Wire’ e ‘Feast of Wire’. Não saberia dizer qual álbum é o melhor desses dois, e é bem capaz do ‘Carried’ tomar o lugar de um deles com o tempo.

Só sei que o Calexico me parece um Roger Clyne and the Peacemakers mais sério e bem desenvolvido. Senti muita falta do Roger Clyne e dos saudoso The Refreshments, com sua música de imensa influência do Sudoeste Americano e da música mexicana, mas com toques mais jocosos e joviais. Calexico é a música mexicana em todo seu esplendor sofrido e doído. Do jeito que a melhor música do mundo é e deveria sempre ser.

Bem-vindo ao meu mundo de Sigur Rós, Los Hermanos, A Fine Frenzy e The Dear Hunter. Qualidade com sofrimento. Simplesmente demais.



Clichê americano
25-Novembro-2008, 12:20
Arquivado em: Diatribes, Estrada

Sexta-feira passada eu tive a sorte de achar dois lugares absolutamente sensacionais em Chicago – exatamente o que mais queria fazer na cidade. Primeiro foi a descoberta, muito de última hora, de uma trupe de teatro de improvisação chamada ‘The Improvised Shakespeare Company’, que nada mais é que um bando de malucos que, durante quase duas horas, encenam um épico shakespeariano baseado em uma frase jogada pela platéia no começo do espetáculo. Minha resenha do espetáculo virá nos próximos dias.

Depois teve show, a duas quadras, do Calexico – banda do Arizona simplesmente fantástica, com uma grande influência mexicana e um som do caráleo. Será minha próxima Melhor Bandas Desconhecida do Mundo.

Mas o bojo do post de hoje foi algo que já tinha reparado um pouco durante meu fim de semana em Chicago, mas naquela noite tornou-se muito claro devido a um incidente no metrô na volta pro hostel. O negro americano, pelo menos a grande maioria que vi aqui, representa com uma fidelidade que dá medo o clichê urbano tão batido que estamos tão acostumados a ver em filmes, séries e descrições preconceituosas.

Sempre em grupos de três, quatro, andam com aqueles roupas extremamente chamativas e de tamanhos gigantescos, bonés sempre no topo da cabeça, com aba reta, por cima de um gorro de material elástico. São espalhafatoso, berrando com todo mundo que passa, se afirmando em cima de toda e qualquer pessoa, seja ela quem for. Primeiro notei isso no meu primeiro dia no metrô. Inicialmente achei que era uma babaquice do cara que era muito maior do que eu e podia impor sua presença por ser maior. Passou por mim, esbarrou de leve em minha mochila enquanto me ajeitava na plataforma e disse ‘cuidado, ‘cracker’ (termo pejorativo pra brancos aqui nos EUA), que você quase esbarrou em mim!’. Depois lembrei que tinha colocado três dólares no bolso direito, troco de umas compras básicas na lojinha ao lado do hostel, e que tinha sido roubado.

Fora isso, por qualquer lugar que andasse eu via esses grupos de quatro andando com cara de poucos amigos, rindo somente entre si e sempre às custas de alguma pessoa vizinha. Entrei no trem logo após ir ao show do Calexico. Entrei com um número grande de pessoas, dentre elas meninas brancas, alguns negros, dois asiáticos e hispanicos. O retrato perfeito da sociedade americana moderna. Tudo ia bem, todos conversavam, namoravam, dormiam, ouviam música. Duas estações depois, com um barulho que se escutava de longe, entraram cinco, todos vestidos rigorosamente iguais – casacos grandes, pretos, com gorros e/ou bonés, tênis espalhafatosos e calças moleton com logos grandes do fabricante.

Entraram tacando zorra, expulsando um casal de indianos do seu lugar, e começaram o ‘bullying’ – termo que está ficando famoso no Brasil e que conheço desde minha época de Nova Zelândia. Ficaram o tempo todo exarcerbando sua posição de ‘negro do subúrbio’, criticando todos, rigorosamente TODOS os que estavam no vagão por não serem iguais a eles. Um rapaz à minha frente, negro, com iPod no ouvido, amigo do grupo multi-étnico que descrevi, foi esculhachado porque ouvia sua música com calma e tranqüilidade. Chamaram-o de traidor, roqueiro de merda, que não entende o que é ser negro.

Chegaram a sugerir estuprar a menina branca, com cara de menininha, dizendo que adorariam transformar o leite dela em achocolatado. Isso tudo rindo, apontando, gritando, chegando perto de realmente atacar fisicamente as pessoas. O que no começo foi tratado como arruaça pelas pessoas do vagão, em minutos estavam todos num estado de tensão muito grande, enquanto os caras lá ficavam, sem parar, a apontar e gritar na cara dos outros. Entrava um garoto barbudo e gritavam ‘go home, lumberjack!’ (volta pra casa, madeireiro), viam uma asiática e diziam ‘where’s my kung pao chicken, bitch?!’ (cadê minha comida chinesa, piranha). 

Vi os mesmos empurrando um outro negro, mais gordo e com meias rosas e uma echarpe bege, chamando-o de ‘(aquela palavra com n) faggot’ (algo como crioulo viado), a ponto do cara sair na estação seguinte, junto comigo, e esperar o próximo trem passar para ele conseguir seguir viagem. Deu pra ver na cara do coitado a vergonha que sentiu por ser tão clamorosamente atacado. Falei com ele, disse pra não se preocupar com os babacas, e ele me disse algo que talvez nunca mais esqueça: ‘we even have a black president now. But it’s never enough. Blacks have to stand up to everyone, even black folk like me. Since I’m gay, they’ll find a way to hurt you for not being like them. It’s never going to end.’ (temos até um presidente negro agora. Mas nunca será o suficiente. Negros precisam peitar todos, até negros como eu. Já que sou gay, vão achar uma maneira de machucar quem não é igual a eles. Nunca vai acabar.)

E fico imaginando se, de fato, em algum momento haverá uma chance nesse país de pouca divisão entre as raças. Chega a ser caricato a maneira como os negros se diferenciam – as roupas sempre iguais, o andar sempre igual, a atitude de bandido. Muito estranho.



Chicago
21-Novembro-2008, 1:50
Arquivado em: Estrada

Demorei quatro horas a mais pra chegar aqui. A TAM, linda companhia aérea do meu coração, atrasou o vôo do Rio em quase duas horas e perdi a porra da conexão. Ainda sim, consegui pegar o vôo de meia-noite para Washington e de lá seguir para Chicago. Foi uma correria incrível, onde não parei sequer para esperar vôos nas conexões – foi um atrás do outro.

Estou montando um diário em vídeo para todos verem minhas peripécias em terras americanas. Tomara que saiba usar essa joça de iMovie (comprei um Macbook Pro!) para poder fazer algo entretente para todos. Por enquanto, não tenho nem fotos pra mostrar. Não tirei nenhuma.

Cheguei aqui e começou a nevar, bastante, ASSIM QUE SAÍ DO METRÔ. Sorte que o hostel é ao lado da estação. Ainda sim, fazia um frio da porra. 30F ao meio-dia. 

Senti aquele frio cortante, que gosto bastante, e minhas mãos começaram a sentir aquela dorzinha sensacional do vento gelado. Coloquei minhas coisas no quarto e de lá parti direto pra cidade. No vídeo tem umas coisas bem legais. Aguardem.

O que não previ (burro, imbecil, idiota), é que se estava abaixo de zero ao meio-dia, a tendência era piorar né… à noite fez quase -10C, uns 15F, e eu lá, de calça jeans, allstar de meia leve e uma jaqueta da Ellus de chuva, sem muita proteção. Acabei pipocando de loja em loja da Michigan Ave. para poder fugir do frio. Um alento foi ver que tinha muita gente desprotegida como eu na rua. Não me achei tão estúpido.



Dudu
19-Novembro-2008, 9:15
Arquivado em: Diatribes

Chegou ontem a notícia do racismo que o cantor Dudu Nobre e sua família sofreram num vôo da American Airlines. Pra mim não foi tão somente o racismo sofrido, que já é um absurdo por si só, mas a maneira como tudo ocorreu. O absurdo de tudo o que aconteceu.

Estavam todos num avião, presos num tubo de metal a milhares de metros do chão, sem ter pra onde ir, e sofreram abusos inimagináveis. Os xingamentos, as atitudes dos comissários são coisas que me deram ânsia de tão GROTESCO que foram os atos jogados na pobre família.

Isso na semana em que o meu querido Alex Castro vem debatendo o racismo descarado que existe nesse país, no comportamento de cada um, na maneira como lidamos com nossas castas sociais. Fiquei completamente estupefato com a maneira como tudo ocorreu, e como ainda somos capazes de atitudes de vergonhosa falta de moral e caráter.

Sou branco e bem de vida. Nunca posso me julgar capaz de entender o que é que se passa na cabeça de uma pessoa que sofre de atitudes racistas. Tenho muito cuidado para policiar meus movimentos, desde que me dou por gente, para não cometer erros e gafes pois sou, invariavelmente, fruto da sociedade racista na qual estou inserido.

Não tive colegas negros na faculdade. Sempre estranhei e me incomodei com isso. Entraram dois na turma depois da minha, e gostava muito de um, e muito pouco do outro – esse último, pretencioso, orgulhoso e, francamente, muito anti-social pro meu gosto.

Entendo pouco qual é meu raciocíno com relação a questão racial. Não me lembro ter tido, em qualquer momento na minha vida, uma cabeça que relativizava atitudes e movimentos alheios baseado na quantidade de melalina na epiderme de cada um. Tive pais que jamais questionaram a cor de ninguém, e aprendi a falta de importância que isso tem no nosso dia-a-dia e na maneira como lidamos com todos ao nosso redor.

Fui ensinado a ser cordial, educado e respeito com todos. Não deixo de tratar meus pais de senhor e senhora. Não deixo de pedir direções na rua a qualquer pessoa sem tratá-los de senhor e senhora, quando mais velhos, ou de ‘amigo’ quando aplicável.

Acho a cor negra de pele incrivelmente bonita. Aquela pele negra azul petróleo lindíssima, que me dá uma inveja incrível de não ter. Como também acho asiáticos interessantíssimos. Lembro vividamente de uma amiga de pais indianos na Inglaterra que era, pra mim, disparada uma das pessoas mais lindas que já vi em toda a vida. Sempre enxerguei as diferenças físicas de cada pessoa como um quê a mais para me interessar por ela, nunca me distanciar ou fazer julgamentos precipitados sobre a mesma.

Não consigo passar numa rua e mudar de calçada porque tem alguém de certo tom de pele vindo na minha direção. Me dá nojo só de pensar que isso passe pela cabeça de tanta gente. Só fui assaltado uma vez, e roubado outra única vez. Em ambas a quantidade de melanina no organismo dos meliantes era menor que a minha.

Todas as minha empregadas eram de maior coeficiente de melanina que eu. Sempre tive claro na minha cabeça o respeito por todas elas, pelas ordens e hierarquia que todas exerciam sobre mim – sempre serviram mais de babá do que efetivamente de empregadas. Me decepcionei muito com duas delas, pelas atitudes levianas e pelos furtos. Foi como se um membro da família me traísse. Na verdade, foi exatamente um membro da família me traindo.

Em casa nunca tivemos ordens de divisão do espaço da casa para empregadas. Nunca tivemos horários a serem seguidos por elas. Tinham liberdade (que coisa horrível de descrever, como se fosse uma benção dada pela minha família) para tudo. Ainda sim entendo o que é ter uma empregada 24/7 em casa. Por isso mesmo sempre houve uma grande preocupação do meu progenitor de seguir fielmente a CLT, com folgas, INSS e todo e qualquer outro benefício garantido por lei às ‘assistentes de casa’.

Tenho problema em falar ‘empregada’. Falo sempre ‘a menina que trabalha na casa dos meus pais’. Por mais que seja algo realmente bobo, pois sempre somos empregados de alguém seja lá em que for que trabalhemos, mas a conotação negativa que essa palavra tem pra mim me faz sempre partir pro politicamente correto – algo que tenho ojeriza de fazer. Não sou de floreios, nem se ficar cheio de dedos quando falo sobre qualquer coisa, mas isso me deixa um tanto desconfortável. O mesmo acontece quando quero descrever alguém que não conheço o nome para outra pessoa.

Me pego sempre dizendo algo como ‘aquele altão, de blusa vermelha’ sem sequer pensar no que estou dizendo ao invés do clássico ‘tá vendo aquele negão? Então…’. Acho abominável alguém ser descrito tão somente pela melanina em sua pele. Quando descrevemos alguém desprovido de muita melanina, é sempre um ‘tá vendo aquele menino de cabelo pro lado? Aquele ali, ao lado da menina de mochila rosa. Então…’. Por quê caráleos não é tão fácil descrever todos assim?!

Faço isso sem reparar, mas me pego a pensar depois que, sim, me acho uma pessoa do cacete por não passar pela minha cabeça esse tipo de pensamento. Por eu ser alheio aos maneirismos tão fudidamente escrotos dos brasileiros que se julgam tão abertos e liberais. Por eu nunca ter questionado a opção sexual alheia. Por achar todo mundo bonito, cada um da sua maneira. Por eu ter raiva dos que juldo ruins e adorar os que julgo bons, sem passar pela questão da pele de cada um.

Fico dando voltas em cima do mesmo tema quando me deparo com situações como essa do Dudu e família. Realmente me espanta ainda sermos capazes de passar por uma pessoa e fazer gestos, barulhos, agredir verbalmente e fisicamente tão somente pela quantidade de uma proteína na pele alheia. É de uma falta de bom senso e visão que, pra mim, não resta nada a não ser temer.

Temer que nunca seremos capazes de evoluir. Temer que ainda há quem diga, estufando o peito, que o Brasil é um país lindo, multicultural, onde todo mundo tem ‘um pé na África’ e, por isso, não há racismo. Temer que jamais conseguiremos simplesmente deixar de falar de raça, e somente tratar dos problemas de igualar as divisões sócio-econômicas grotescas que existem nesse país.

Sem pensar em raça. A melanina é um componente tão ínfimo do corpo humano. Por que não entendemos isso?



Que venha 2009
17-Novembro-2008, 11:14
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Porque 2008 foi uma merda.



Shingo
14-Novembro-2008, 1:54
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Existia um japonês na minha turma de colégio na Inglaterra chamado Shingo Masuda. Uma figura como poucos que conheci. Espevetado, ia contra toda e qualquer idéia de comportamento ‘natural’ de japonês – xingava, era rude, brincalhão, não respeitava ordem nenhuma nem era um garoto movido a regras e tradições.

Vivia dizendo que nunca fora tão feliz quanto quando morava no Quênia. Que não havia país melhor no mundo. A diversidade, o clima, a natureza e a liberdade do país africano, dizia ele, o deixavam morrendo de saudade da savana.

Tentei ter uma banda com o Shingo. Acho que ele queria tocar bateria. Mas sua hiperatividade, junto com uma total falta de coordenação, tornaram nossa empreitada uma tarefa impossível. Ainda sim quis muito que ele participasse dos ensaios, e ele ficava lá, enchendo a paciência e sendo engraçado, enquanto, aos 14 anos de idade, tentávamos ser rockstars.

Lembro muito bem da mansão onde ele morava. Seu pai era geólogo, e tinha, pra mim, o computador mais sensacional que já tinha visto. Ele fazia análises de terreno, imagino eu que de algum lugar perto da Inglaterra, e ficávamos lá, estáticos, esperando minutos até que aparecesse uma tela com gráficos de última geração do solo bretão. O pai dele era um cara austero, mas extremamente simpático e que fazia, lembro bem, um chocolate quente sensacional. A mãe dele quase nunca aparecia, e a irmã era muito pequena para que fizessemos algo que não jogar almofadas nela quando ela aparecia, curiosa, na sala onde estávamos todos a assistir um filme antes de irmos dormir em nossos respectivos sacos de dormir. Tinha um roxo que até hoje uso.

Ela era um dos meus grandes amigos. Quando se foi, junto com a família, de volta pro Japão, prometemos trocar emails (a maior novidade!) e nunca nos distanciarmos. Em questão de seis meses ninguém mais sabia do que tinha acontecido com o Shingo.

A não ser a quantia incrível de onze pedras no rim que ele descobriu, aos 15. Comia tudo com sal demais. Deu no que deu. E seu cabelo, quando chegara no Japão, estava azul. Pessoas, e os professores, do novo colégio, tradicionalíssimo da cidade em que estava, diziam que ele estava com o demônio. Ele ainda fazia questão de ficar ouvindo música nas aulas e levar suas baquetas (dizia ele que estava tocando até direito naquela época) para batucar na sua carteira.

Nunca vou me esquecer da frase que ele me ensinou a falar e escrever em japonês: bokuno chinco wa sabitemas. Meu pinto está enferrujado.

Achei essa foto de um Shingo Masuda no Google. A única que tinha.

shingo

Pelo visto quem enferrujou o pinto foi ele.



Sabe?
11-Novembro-2008, 1:45
Arquivado em: Diatribes, Perfil

Sabe aquela sensação de virar o estômago de tanta excitação? Sabe aquele friozinho que corre a espinha, de baixo até a nuca, que deixa a gente maluco? Sabe aquela gostosa dor no peito que você não sabe daonde veio, mas adora quando a recebe?

Sabe aquele olhar cintilante, maravilhoso, que te olha de volta exatamente da maneira que você mais deseja? Sabe aquelas mãos, de tamanho e jeito perfeito, com aquele esmalte na cor exata, esperando encontrar a sua? Sabe aquele pézinho, perfeito em cada ínfimo detalhe?

Sabe aquele momento ideal, de total entrega sem que nenhum dos dois demontre, de fato, estar totalmente entregue? Sabe aquela expressão corporal de total relutância em aceitar que aquele instante é o mais perfeito do Multiverso para que haja uma aproximação entre vocês dois? Sabe aquela idéia inicial, rechassada de imediato porque você é um medroso, mas que aos poucos vai tomando conta da sua cabeça até que você não consegue mais pensar em outra coisa?

Sabe aquele terrível e inacreditável momento no qual dois pares de lábios se encontram, numa maravilhosa harmonia? Sabe quando não há como não fechar os olhos de tanto deleite e gozo por um momento tão sublime? Sabe aquele sorrizinho que acompanha a primeira troca de olhar quando os lábios se distanciam, nem que para respirar por um mísero segundo, mas dá pra ver que a outra parte está lá, extasiada como você, feliz como poucas por poder disfrutar daquele entrelaçar de corpos, de mãos e cabelo, de cintura e pernas, que não consegue ser mais perfeito?

Pois é, queria muito sentir tudo isso.



Um novo mundo
5-Novembro-2008, 7:33
Arquivado em: Politicalidades

Piso dia 19 em terras americanas. Piso dia 19 em Chicago – of all places. Num país novo. Renovado. Bonito como jamais imaginei.

Piso num país que acabou de eleger Barack Obama. Um país dividido, hipócrita, manipulador, que encontrou nas suas vastas minorias e no eleitorado jovem a mensagem de esperança por dias melhores. Vi, de madruga, um país tomar as ruas para celebrar o otimismo, declamar aos berros sua nova visão de política e a felicidade por poder contar, mais uma vez, com um líder que trará algum nível de estabilidade e ordem ao mundo e aos Estados Unidos.

“If there is anyone out there who still doubts that America is a place where all things are possible; who still wonders if the dream of our founders is alive in our time; who still questions the power of our democracy, tonight is your answer.”

Uma audácia esperança capitaneada por um único homem. Um negro (negro sim!), de pai queniano, mulçumano, nascido no Havaí e de nome árabe. Um visionário. Um ídolo.

“It’s the answer spoken by young and old, rich and poor, Democrat and Republican, black, white, Latino, Asian, Native American, gay, straight, disabled and not disabled — Americans who sent a message to the world that we have never been a collection of Red States and Blue States: we are, and always will be, the United States of America.”

A História nunca será a mesma. Um país que escolheu colocar nas mãos desse lindo homem a chance de, mais uma vez, ter orgulho de si mesmo. Estufar o peito e carregar as frases de seus fundadores. Uma proposta de esperança, liberdade e busca da felicidade.

“It’s the answer that led those who have been told for so long by so many to be cynical, and fearful, and doubtful of what we can achieve to put their hands on the arc of history and bend it once more toward the hope of a better day.”

Ontem, às 4h da manhã, presenciei o que pra mim foi um dos momentos mais sensacionais dos últimos tempos. Tive a sensação de assistir o mundo mudar. Olhos cheios de lágrimas, sorrisos em todos os rostos.

“As Lincoln said to a nation far more divided than ours, “We are not enemies, but friends…though passion may have strained it must not break our bonds of affection.” And to those Americans whose support I have yet to earn — I may not have won your vote, but I hear your voices, I need your help, and I will be your President too.

And to all those watching tonight from beyond our shores, from parliaments and palaces to those who are huddled around radios in the forgotten corners of our world — our stories are singular, but our destiny is shared, and a new dawn of American leadership is at hand. To those who would tear this world down — we will defeat you. To those who seek peace and security — we support you. And to all those who have wondered if America’s beacon still burns as bright –tonight we proved once more that the true strength of our nation comes not from our the might of our arms or the scale of our wealth, but from the enduring power of our ideals: democracy, liberty, opportunity, and unyielding hope.

For that is the true genius of America — that America can change. Our union can be perfected. And what we have already achieved gives us hope for what we can and must achieve tomorrow.”

Uma imagem se formou em minha mente. Era uma imagem de confiança em dias melhores. De uma escolha por uma vida melhor, sem tanto medo, sem tanta preocupação. Uma vida mais amigável, mais tranqüila, mais gratificante.

“This is our moment. This is our time ­ to put our people back to work and open doors of opportunity for our kids; to restore prosperity and promote the cause of peace; to reclaim the American dream and reaffirm that fundamental truth ­ that out of many, we are one; that while we breathe, we hope, and where we are met with cynicism, and doubt, and those who tell us that we cant, we will respond with that timeless creed that sums up the spirit of a people: Yes we Can.”

Sim, se pode. Obrigado, Barack Obama, por me fazer acreditar no futuro do meu mundo. Chorei lágrimas de felicidade e esperança junto com o seu povo. Aguardo ansiosamente a chance de poder acompanhar você mudando o mundo para melhor.

Sim, se pode. Estarei em Chicago dia 19 deste mês, de camisa com o Obama na frente, rindo, olhando para os olhos de cada um e imaginando um americano mais contente, mais feliz e leve. Terei a chance de acompanhar de perto a mundança no ar que se respira naquele país.

Sim, se pode. Acreditar em um mundo melhor. Esperar por políticos visionários e revolucionários. Imaginar um mundo menos tenso e mais agregador.

Contigo, Obama, podemos tudo.