Arquivado em: Diatribes

Chegou ontem a notícia do racismo que o cantor Dudu Nobre e sua família sofreram num vôo da American Airlines. Pra mim não foi tão somente o racismo sofrido, que já é um absurdo por si só, mas a maneira como tudo ocorreu. O absurdo de tudo o que aconteceu.
Estavam todos num avião, presos num tubo de metal a milhares de metros do chão, sem ter pra onde ir, e sofreram abusos inimagináveis. Os xingamentos, as atitudes dos comissários são coisas que me deram ânsia de tão GROTESCO que foram os atos jogados na pobre família.
Isso na semana em que o meu querido Alex Castro vem debatendo o racismo descarado que existe nesse país, no comportamento de cada um, na maneira como lidamos com nossas castas sociais. Fiquei completamente estupefato com a maneira como tudo ocorreu, e como ainda somos capazes de atitudes de vergonhosa falta de moral e caráter.
Sou branco e bem de vida. Nunca posso me julgar capaz de entender o que é que se passa na cabeça de uma pessoa que sofre de atitudes racistas. Tenho muito cuidado para policiar meus movimentos, desde que me dou por gente, para não cometer erros e gafes pois sou, invariavelmente, fruto da sociedade racista na qual estou inserido.
Não tive colegas negros na faculdade. Sempre estranhei e me incomodei com isso. Entraram dois na turma depois da minha, e gostava muito de um, e muito pouco do outro – esse último, pretencioso, orgulhoso e, francamente, muito anti-social pro meu gosto.
Entendo pouco qual é meu raciocíno com relação a questão racial. Não me lembro ter tido, em qualquer momento na minha vida, uma cabeça que relativizava atitudes e movimentos alheios baseado na quantidade de melalina na epiderme de cada um. Tive pais que jamais questionaram a cor de ninguém, e aprendi a falta de importância que isso tem no nosso dia-a-dia e na maneira como lidamos com todos ao nosso redor.
Fui ensinado a ser cordial, educado e respeito com todos. Não deixo de tratar meus pais de senhor e senhora. Não deixo de pedir direções na rua a qualquer pessoa sem tratá-los de senhor e senhora, quando mais velhos, ou de ‘amigo’ quando aplicável.
Acho a cor negra de pele incrivelmente bonita. Aquela pele negra azul petróleo lindíssima, que me dá uma inveja incrível de não ter. Como também acho asiáticos interessantíssimos. Lembro vividamente de uma amiga de pais indianos na Inglaterra que era, pra mim, disparada uma das pessoas mais lindas que já vi em toda a vida. Sempre enxerguei as diferenças físicas de cada pessoa como um quê a mais para me interessar por ela, nunca me distanciar ou fazer julgamentos precipitados sobre a mesma.
Não consigo passar numa rua e mudar de calçada porque tem alguém de certo tom de pele vindo na minha direção. Me dá nojo só de pensar que isso passe pela cabeça de tanta gente. Só fui assaltado uma vez, e roubado outra única vez. Em ambas a quantidade de melanina no organismo dos meliantes era menor que a minha.
Todas as minha empregadas eram de maior coeficiente de melanina que eu. Sempre tive claro na minha cabeça o respeito por todas elas, pelas ordens e hierarquia que todas exerciam sobre mim – sempre serviram mais de babá do que efetivamente de empregadas. Me decepcionei muito com duas delas, pelas atitudes levianas e pelos furtos. Foi como se um membro da família me traísse. Na verdade, foi exatamente um membro da família me traindo.
Em casa nunca tivemos ordens de divisão do espaço da casa para empregadas. Nunca tivemos horários a serem seguidos por elas. Tinham liberdade (que coisa horrível de descrever, como se fosse uma benção dada pela minha família) para tudo. Ainda sim entendo o que é ter uma empregada 24/7 em casa. Por isso mesmo sempre houve uma grande preocupação do meu progenitor de seguir fielmente a CLT, com folgas, INSS e todo e qualquer outro benefício garantido por lei às ‘assistentes de casa’.
Tenho problema em falar ‘empregada’. Falo sempre ‘a menina que trabalha na casa dos meus pais’. Por mais que seja algo realmente bobo, pois sempre somos empregados de alguém seja lá em que for que trabalhemos, mas a conotação negativa que essa palavra tem pra mim me faz sempre partir pro politicamente correto – algo que tenho ojeriza de fazer. Não sou de floreios, nem se ficar cheio de dedos quando falo sobre qualquer coisa, mas isso me deixa um tanto desconfortável. O mesmo acontece quando quero descrever alguém que não conheço o nome para outra pessoa.
Me pego sempre dizendo algo como ‘aquele altão, de blusa vermelha’ sem sequer pensar no que estou dizendo ao invés do clássico ‘tá vendo aquele negão? Então…’. Acho abominável alguém ser descrito tão somente pela melanina em sua pele. Quando descrevemos alguém desprovido de muita melanina, é sempre um ‘tá vendo aquele menino de cabelo pro lado? Aquele ali, ao lado da menina de mochila rosa. Então…’. Por quê caráleos não é tão fácil descrever todos assim?!
Faço isso sem reparar, mas me pego a pensar depois que, sim, me acho uma pessoa do cacete por não passar pela minha cabeça esse tipo de pensamento. Por eu ser alheio aos maneirismos tão fudidamente escrotos dos brasileiros que se julgam tão abertos e liberais. Por eu nunca ter questionado a opção sexual alheia. Por achar todo mundo bonito, cada um da sua maneira. Por eu ter raiva dos que juldo ruins e adorar os que julgo bons, sem passar pela questão da pele de cada um.
Fico dando voltas em cima do mesmo tema quando me deparo com situações como essa do Dudu e família. Realmente me espanta ainda sermos capazes de passar por uma pessoa e fazer gestos, barulhos, agredir verbalmente e fisicamente tão somente pela quantidade de uma proteína na pele alheia. É de uma falta de bom senso e visão que, pra mim, não resta nada a não ser temer.
Temer que nunca seremos capazes de evoluir. Temer que ainda há quem diga, estufando o peito, que o Brasil é um país lindo, multicultural, onde todo mundo tem ‘um pé na África’ e, por isso, não há racismo. Temer que jamais conseguiremos simplesmente deixar de falar de raça, e somente tratar dos problemas de igualar as divisões sócio-econômicas grotescas que existem nesse país.
Sem pensar em raça. A melanina é um componente tão ínfimo do corpo humano. Por que não entendemos isso?
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Palmas!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Comentário por Sérgio 26-Maio-2009 @ 5:15Li até o fim!