Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Rogério e seu ônibus
24-Março-2008, 1:27
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Rogério não está bem. Rogério não está feliz. Rogério pensa que a vida seria mais simples. Que tudo se ajeitaria no final.

Mas que final é esse?, indaga Rogério. Seus pensamentos divagam a ponto dele mesmo se esquecer onde está - no ponto de ônibus, em uma cidade que não a dele, esperando não sabe o quê, ao lado de uma senhora de feições tão comuns que parece conhecida. As coisas meio que acontecem com Rogério. Ele nem bem sabe por quê.

Ainda sim ele se põe a pensar nos últimos acontecimentos. No que o levou a esse ponto de ônibus obscuro, no meio do nada. Ele olha para o poste ao lado do ponto, com sua luz incadescente apagando e ligando, randomicamente, e pensa que sua vida está muito próxima disso. Seu amor fugaz, eterno e sublime, sua decepção, profunda e sombria, sua felicidade, repleta de magia, sua deprimencia, completa e tardia.

Os brilhar da luz do poste se extingue. Rogério e a velha se encontram num breu sufocante, temeroso. Rogério olha para os olhos, tão sofridos, calmos e pacatos da senhora e oferece o que lhe sobrou de compaixão.

‘Se a senhora quiser, podemos andar até o ponto seguinte, onde dá pra ver que tem luz. Ali, ó, no final da rua.’ Os olhos de Rogério não conseguem se firmar nos olhos da senhora. Ela apresenta tamanha tranquilidade que desestabiliza Rogério. Sem ter mais o que fazer, ele se volta para o final da rua, onde ainda vislumbra-se alguma luz.

Sombras e barulhos seguem a escuridão. No final da rua, a uns quinhentos metros, vê-se um cachorro, caminhando vagarosamente pelo ponto de ônibus iluminado, cheirando seu assento e rodeando seu sinal. O cão parece olhar para Rogério, e com um uivo de partir a alma de qualquer um se despede, caminhando para o outro lado da rua, dobrando a esquina quase imperceptível e sumindo de sua visão.

Rogério vira-se para a senhora para lhe convidar a ir ao ponto mas ela não mais está lá. Ao invés do corpo gasto e enrugado da pobre senhora está um livro, com marcação definida. O livro é de capa azul, sem nome, e parece velho. Antigo. Sabio.

Ao abri-lo Rogério sente uma brisa atingir seu rosto. Mal é possível enzergar qualquer coisa, mas seus olhos já se acostumaram com a penumbra e, se ele conseguir se concentrar e olhar fixamente as palavras do livro é possível ler algumas passagens. Poucos parágrafos estão na língua que Rogério escuta desde criança. Nunca quis aprender outra, por achar que nunca precisaria saber. Ele vasculha as folhas, vagarosamente, tentando de alguma forma compreender alguma coisa escrita.

Maldita penumbra, pensa ele. Mal consigo enxergar as letras maiúsculas, quiçá as pequenas. No outro ponto há luz. Levo esse livro até lá.

As primeiras pedras portuguesas, caprichosamente colocadas na calçada do ponto, se desmancham quando Rogério nelas pisa e caem num buraco de extrema profundidade. Rogério pula para trás, para o cimento do ponto de ônibus, e por pouco não se vê caindo no buraco agora deixado na calçada pelo seu passo.

‘Preciso ficar aqui’, diz ele. Ninguém aparenta escutar, mas mesmo assim Rogério insiste. ‘Desculpa, viu? Eu só quero ir pra casa!’. O cachorro reaparece da esquina, olha para Rogério, se desloca calmamente até o encontro do ralo da rua com a calçada e se joga nele, desaparecendo como a chuva de verão que assola a cidade.

Rogério olha para a rua a sua frente. Seu cimento escuro e frio. Os olhos de gato da rua parecem o acompanhar. Seu brilho escondido pela falta de iluminação os tornam ainda mais ofuscantes.

De longe aparece um barulho. Um ruído, quase imperceptível. Rogério logo ouve o som do motor. É um ônibus. Chegara a sua saída. O livro ainda se encontra na mão de Rogério. Sua capa áspera roça contra as mãos delicadas do escritor.

As luzes potentes do ônibus dobram a esquina. Ele passa pelo ponto iluminado no final da rua mas mesmo assim nehuma sombra é vista. Somente as luzes, se movimentando no pavimento negro.

Rogério faz sinal. Ergue seus braços e desafia as luzes a parar. Vê naqueles dois focos brilhantes a esperança de sair da escuridão. De encontrar seu caminho. De chegar ao seu destino final.

As luzes se aproximam. Parecem acelerar. Se tornam ainda mais claras. Um zumbido toma conta dos ouvidos de Rogério. Ele põe as mãos para proteger os ouvidos. Seu livro cai no cimento do ponto. As luzes estão tão perto que é impossível manter os olhos abertos.

Elas estão a metros dele. Gigantes, perfeitas, medonhas. Rogério suspira seu último suspiro. Se curva diante do som e da luz. Se entrega, em posição fetal, ao inevitável.

A ausência de som e luz é eterna.



Red
29-Setembro-2006, 11:38
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Ela era ruiva. Sardinhas e tudo. Amiga dele. Todas sempre são.

Lugar barulhento, meio fora do que ele estava acostumado. Tudo bem, pensou ele. Todo lugar novo é um lugar a se conhecer.

A música vagarosamente se alojou em seus ouvidos. Jamais achava que estaria lá, naquele lugar. Lugar lindo, diga-se. Mas de pessoas diferentes. Um povo ainda estranho.

Tinha ido pra lá com amigos da faculdade. Encontrou pessoas do trabalho e pessoas amigas de colégio. Estava muito contente, rodeados de loucos que ele tanto gostava.

Nunca tinha nem pensado nela, a ruiva, dessa maneira. Era sua amiga e nada mais. Mas nesse dia viu as coisas um pouco diferente.

A maioria dos amigos de colégio tinham saído. Ficaram os do trabalho e da faculdade. E a ruiva resolveu ficar. Beleza, pensou ele. Muito legal.

Perdia a linha dançando frenéticamente ao som de Mamonas Assassinas, o grande Sidney Magal, dentre outros, com seus amigos de faculdade. Samba era lá embaixo. Os anos 80 bombavam aqui - e ele se divertia como nunca. Talvez esse tivera sido um dos dias mais divertidos de toda a sua vida.

Ele olhou pra ela. Não sabia se ela ainda namorava. Imaginava que não. Não custava tentar.

A resposta foi um estranho não. Não parecia sim, nem não. Mesmo assim, ele não pensou duas vezes e fez o que queria. Deu certo.

Semanas depois, tudo foi meio pros ares. ‘Você é muito carpe diem’, disse ela.

Mesmo assim ele teve sua ruiva. Chupa, Doni. Chupa, Ina.



Amiga, pra que te quero
27-Setembro-2006, 2:39
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Há muito tempo ele não a via. Tinha viajado, perdido noção do tempo, mas mesmo assim ainda a tinha na cabeça. Resolveu ligar um belo dia para ela.

Enquanto no outro lado da linha o telefone tocava, ele pensava no que diria a ela. Faziam meses que não se falavam. Realmente não havia razão para ele ligar assim, de repente, sem motivo. Mesmo assim ele deixava o telefone tocar.

Atendeu uma voz estranha. ‘Alô? Quem fala? Ah, ela não está. Acabei de me mudar pra cá. É, estou divindo esse apê com ela agora. Vim de Macaé, onde meu pai trabalha… qual o seu nome mesmo? Tá, deixo recado que você ligou pra ela. Tenho que ir pra PUC agora. Beijos!’

Bem, valeu a tentativa, pensou ele. Se essa menina realmente deixar recado, e ela não ligar, quer dizer que não valia a pena mesmo. Só me resta esperar.

No dia seguinte, uma sexta-feira, toca o telefone. É ela, que diz ter uma festa em seu apartamento marcada com o pessoal da faculdade. Convida ele para ir também. Ele prontamente aceita o pedido.

Em momento algum é discutido o tempo que se passou para que os dois voltassem a se falar. Estranho tudo isso, pensou ele. Mas, se vou para uma festa na casa dela, tudo está tranquilo.

A festa tivera sido marcada às sete e meia da noite, para todos poderem ir direto do trabalho. Ele fez questão de aparecer um pouco tarde, para não chegar lá com quase ninguém na casa. Afinal, não sabia ele qual seria o ambiente entre os dois.

Chegando prontamente atrasado em sua casa, um apartamento em Botafogo, a ponto de receber uma ligação dela para confirmar sua ida, ele adentra o ambiente repleto de pessoas que não conhecia. Na festa tinha de tudo, de sujeitos engravatados, com colarinho esgarçado e suado, a pseudos, com suas sandálias portuguesas e bolsas de hemp atravessadas no peito. Finalmente ela vem o receber, sorridente e amigável.

Conversa vai, conversa vem. Ele se sente mais confortável ao lado dela depois de alguns minutos. Pensa até em reatar conversas perdidas no tempo, a fim de conquistá-la mais uma vez. Percebe que tem uma mulher, morena com luzes mais claras, um pouco mais baixa que ele, de olhos castanhos penetrantes e corpo um pouco mais cheio que o normal – simplesmente perfeito em todos os sentidos.

Começa a se sentir desconfortável com os olhares dela, cada vez mais longos e insinuantes. Vê que ela, ao conversar com pessoas em seu pequeno grupo de cinco pessoas, fala sem tirar seus olhos dele – a porto de ser chamada atenção e de tirar risos dos cinco, que automaticamente olharam pra ele para ver o que é que ela tanto olhava.

Ela, com quem ainda conversava, repara, finalmente, nos olhares penetrantes da morena. Pergunta se ele a conheçe. Ele diz que não.
‘Essa é a nova moradora daqui. Chegou há três meses de Macaé.’ disse ela, sem aparentar desconforto. ‘Ela é meio louca, fica sempre fora de casa até tarde, mas é gente boa. É no mínimo divertido dividir esse apê com ela.’

Ele pensou logo em mostrar indiferença. ‘Ah, foi essa quem atendeu o telefone. O que ela faz aqui? Quando liguei antes e ela disse que estava de saída pra PUC…’

‘Faz psicologia… ou é sociologia? Vou chamá-la pra conversar conoso. Aposto que ela que te conhecer. Não pára de olhar pra cá.’ E lá foi ela, atrás da morena. Ele ficou lá, sem saber muito o que fazer. Agora não sabia se os olhares eram de curiosidade ou de interesse.

Loucas não demonstram seus sentimentos muito bem. Deve ser isso, pensou ele.

A morena chegou, toda sorridente, para cumprimentá-lo. ‘Olá. Então você é o do telefone. Não ligaria a voz à pessoa de jeito nenhum!’ Aproveita para dar-lhe um abraço também. ‘Amigos da minha amiga são meus amigos! E conheço muito sobre você já.’ Ele sua. ‘Já tivemos altas conversas regadas a vinho aqui!’ Ele procura uma saída, mas vê nenhuma.

Ela interrompe a amiga. ‘Pára com isso, vai. Não é verdade que falamos de você sempre. Mas houve umas noites, no começo, quando ela chegou, que você apareceu nas conversas. Coisas passadas.’ Ela toca no braço dele, num movimento de consolo. Ele só olha pra morena, olhos cintilantes, e descobre fácilmente o que é que as duas conversavam. Aquele olhar não enganaria ninguém. Ou ela era realmente completamente louca.

‘Por falar em vinho, eu quero.’ diz ele, com vontade de virar uma garrada de gran reserva de cabernet sauvigno que vira na mesa ao lado da entrada da cozinha.

‘Pode deixar que eu pego.’ diz ela, indo buscar uma taça na cozinha. Ela tinha um apartamento lindíssimo – pequeno, confortável e muito bem decorado.

A morena quebra o silêncio instaurado pela saída dela. ‘Sabe, escutei coisas bem legais sobre você. Ela ficou uma noite sem parar de falar em ti por horas.’

‘É mesmo? Espero que tenha sido só coisa boa.’ Ele realmente não entende essa morena. Não pode ser tão óbvio assim. Ninguém é tão cara-de-pau.

‘Ah, foi só coisa boa.’ Ela ri um jocoso riso, jogando cabelo para o lado, claramente flertando com ele. Na frente dela! Jesus!

Cadê meu vinho?, pensa ele. Isso está ficando absurdo.

‘Ela está namorando agora, sabia?’ solta ela, olhando diretamente nos olhos dele.

‘Sério? Não tinha idéia. Com quem?’

‘Lembra um amigo dela, da faculdade, com quem saía sempre? Aquele que namorava uma loirinha, baixinha e meio chata?’

Ele ri. ‘Não lembro muito bem não, mas não faz diferença eu lembrar ou não dele.’

‘Pois então, ele pegou a loirinha se pegando com outro correu pros braços dessa aqui para enxugar as lágrimas. Se entenderam como nunca e estão juntos há dois meses.’

‘Pô, que legal pra ela. Imagino que esteja feliz.’ Ele queria saber aonde estava indo essa conversa. Bem, já entendia, mais ou menos, mas não tinha certeza absoluta a ponto de tentar algo concreto.

‘Está sim. É tão bonito vê-los juntos. Ficam muito bem.’ Ela enrolou então o cabelo na mão esquerda, jogando os cabelos um pouco cacheados pelo ombro até os seios. Lindos seios. Tinha uma camisa verde, sem manga, e parte do sutiã preto ficava à mostra através do decote.

E o vinho que não chega, pensou ele.

Ela finalmente aparece com o vinho. E de mãos dadas com seu namorado. Cabelo preto, mais de um e noventa, magro. Feio como um javali atropelado.

‘Eis seu vinho. Só sobrou o de rótulo branco.’ Justamente o gran reseva. Êba, suspirou ele.

Vinho com propriedades na medida certa. Vernús, gran sereva da vinícula Santa Helena, do Chile. Nota mental: estocar esse vinho em casa quando comprar uma adega daqueles que se vê na Ambient Air.

Como a adega ainda não veio, o vinho continua na memória.

‘Você já conhece?’ ela o demonstra pra ele. Apertam as mãos, amigávelmente, e a conversa continua em amenidades, sempre com piadinhas dele, e risos, alguns claramente por educação, de todos.

Ninguém estava tomando o vinho, então ele fez questão de terminar a garrafa toda, para seu deleite. Ao término da garrafa, a festa já estava chegando ao seu fim. Algumas pessoas já estavam semi-acordadas nos sofás, prestes a cairem no sono, enquanto outras já se dirigiam à dona da festa para agradecer a hospitalidade e irem para suas respectivas casas.

Ela vira pra ele, o interrompendo enquanto contava uma das coisas engraçadas de uma viagem à Europa. ‘Desculpa te interromper. Vou ter que me despedir de todos agora. Fiquem aí conversando. Não quero que vá agora. Chegou muito tarde, então vai ser o último a sair! Não o vejo há tempos, e ainda temos muito a conversar.’ Ela saiu com seu namorado em direção à porta.

Os dois que sobraram ficaram conversando amigavelmente. Entraram em assuntos como política, sociologia (era esse o curso dela, não psicologia), até esportes. Ela gostava muito de vôlei, vindo de Macaé era o esporte que conseguia acompanhar sempre. A cidade tem, ou tinha, não sei, uma equipe forte de vôlei. Ela até tinha participado de algumas seletivas para a equipe júnior do time, mas nas peneiras finais tinha sido desclassificava por ser baixa demais e não jogar bem de líbero.

Em certo momento da conversa, durante uma risada linda e natural, ela o segura no antebraço, talvez para acentuar a risada, talvez não. Ele não tinha certeza. A certeza que teve é que não havia hora melhor de dar o bote, visto que após a risada, ainda com um rosto sorridente e alegre, eles trocaram os olhares mais intencionais da noite.

Ele a beijou com vontade. A morena em momento algum mostrou-se surpresa. O dominou por completo, agarrando-lhe e o levando para a parede da sala. Pouco importante de haviam pessoas ainda na casa, que com total certeza estaríam olhando os dois agora. O que importava era o momento. E que momento.

Depois do fogo inicial, vendo a atenção de todos focada diretamente neles, deram uma segurada na onda e ficaram entre carícias e beijos carinhosos no sofá até que todos os convidados saíssem e só os quatro, agora dois casais, estivessem no apartamento.

Ficaram de papo até seis, sete da manhã do sábado. Riram, brincaram, terminaram o resto das bebidas da casa. Ele ainda achou outra garrafa de Vernús, e fez questão de terminá-la sem parcimônia.

O quarto da morena era meio zoneado. Tinham roupas limpas na cadeira, roupas sujas embaixo da mesma. Sua cama, para alegria geral da nação, era de casal. Tiveram uma noite – manhã, na verdade – perfeita. Se descobriram e se entenderam muito bem. Ao meio-dia ele estava se despedindo da morena e do casal, que estava preparando um macarrão na cozinha. Ele não estava com fome.

Preferiu andar até sua casa. Deixou seu carro ao lado do apartamento. Domingo voltou para buscá-lo. E se encontrou mais uma vez com sua morena.

Passaram-se dois meses. Ela terminou a faculdade, foi para Washington morar na casa de familiares (ou amigos de família, ele nunca lembra) e tentar fazer mestrado em ciências políticas. Hoje se falam raramente, sempre por email.



Stood up, down, left and right
30-Março-2006, 11:33
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Pedro e Fernanda. Trabalhavam juntos. Se olhavam como quem não quer nada, assim que passavam um pelo outro nas baias do escritório.

Pedro quis sair com ela. A chamou, e foi prontamente respondido. Há um bom tempinho se viam com certa frequência fora do escritório. Havia uma química no ar.

Pedro já saíra com ela cinco vezes. Se achou no dever de propor algo mais bonito, mais cavalheiro. Dar o golpe final no relacionamento que se desenvolvera nas últimas semanas.

Pedro ligou para o Zazá Bistrô. Marcou reserva. Queria que essa noite fosse a espcial. A noite que definiria tudo.

Pedro ligou para Fernanda. Combinou o encontro. Esperava ansiosmente a dia de ir pegá-la, de poder prover o jantar romântico e especial que tanto planejou e investiu.

Pedro, no tão esperado dia, se preparou e ligou para Fernanda. Queria poder pegá-la em casa, tratá-la como um completo cavalheiro. Fernanda, depois de diversos toque, atendeu.

‘Fernanda? Pedro’, disse ele, ‘estou ligando para confirmar a hora que posso passar aí para te buscar.’

‘Ah, oi Pedro…’ A voz de Fernanda parecia distante, perdida.

‘Então, a reserva do Zazá é às nove. Passo aí que horas? Oito e meia tá bom?’

‘Sabe o que é Pedro. É que hoje tem micareta. Desculpa, mas não vou no jantar. Tá?’

Pedro suspirou… e riu.



Gritantes diferenças
24-Outubro-2005, 2:15
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Apesar das gritantes diferenças de personalidade, bastou uma troca de olhar. Ele, sempre comedido em ambientes como esse e ela, sempre efusivamente alegre e dançante. A música era uma dessas de praxe. Um hip-hop qualquer que sempre toca nesses lugares. Ele odiava a música com todo fervor. Ela dançava sem parar, cantando a música que sabia de cor e salteado.

Ele se divertia entre amigos. Era aniversário de um deles. Mesa cheia, mais ou menos dez pessoas batendo papo, discutindo política, música, projetos pessoais, futebol. Ela dançava com três amigas da faculdade. Acabara com seu último namorado fazia dois meses. Se sentia pronta para voltar a frequentar lugares como esse.

Enquanto ele discutia a importância de se embalsamar marxistas para servirem de exposição em museus por todo o mundo (na verdade, era sobre o novo meio-campo do Vasco… horroroso como todos os outros que lá jogavam), ele olha para ela em seu vestido verde, desses das pseudo-hippies da Lapa. Sua pele era banquinha. Seus pés perfeitamente descobertos numa sandália aberta. Ele tentava vê-los melhor. Ela pulava demais, não dava.

Voltando do banheiro ele a encontra no bar. Passa por ela, troca mais um olhar e pára ao seu lado. Pede uma água. Ela olha para ele, esperando que pedisse algo mais ‘tradicional’. Ele vira pra ela e diz: “Não bebo”, tentando disfarçar o bafo de Red Bull com whisky que tomara antes de ir fazer número um, “o que você pediu?” A bebida dela era um vermelho com azul misturado que ele nunca vira antes. Ela lhe diz o nome do drink. Algo estranho. Pouco importava. O fato de estar olhando em seus olhos era o suficiente.

Perguntou então qual era o gosto do drink. Ela ofereceu a taça para ele. Mais uma vez, ela reiterou que não bebia. Ela então indaga: “Mas como você quer saber qual é o gosto se não quer beber o drink?” Ela então repara no olhar maroto dele e sorri. Os dois se beijam, despretenciosamente mas apaixonadamente. Trocam carícias ao som de um funk antigo tocando no segundo andar. Ela tenta rebolar ao som que escuta. Ele fica ali, ainda admirando seus cabelos cacheados.

Ele olha pra baixo. Procura as sandálias abertas. Aqui dá pra ver melhor. Repara no cuidado que ela teve com os pés. Não tinha outro jeito a não ser gostar ainda mais dela.

A noite passa, e eles ali, no cantinho, se curtindo ao som das mais variadas músicas. É simplesmente imcompreensível para ele ouvir todos os estilos musicais presentes no mundo compilados em quatro horas no mesmo lugar. Esse é o Rio. Ninguém tem gosto musical. Todos gostam de tudo porque todos gostam de tudo. Falta de personalidade é foda.

Ela descobre um pouco mais sobre ele. Ela conta um pouco mais sobre si. Falam de música, de interesses pessoais, de projetos de vida. Ela termina faculdade de jornalismo em dois anos. Ele não vê nela uma jornalista. Nem ela. Mais um retrato da Geração Diploma.

As amigas estão de saída. Os amigos dele já saíram faz tempo. Ele oferece carona. Ela diz que está de carro e as amigas dependem dela. Trocam telefones e prometem se falar.

Quinta-feira da semana seguinte tentam um encontro de verdade. Vão ver um filme num cinema Estação. Ela precisa acordar cedo no dia seguinte, então o filme é cedo. Ele tem futebol com os amigos, e visto que ela não pode ficar até mais tarde ambos se despedem e ela segue para casa.

Sábado ela o convida para sair para outra boate. Ele tem barzinho com os amigos. Pondera a situação e escolhe, com um certo grau de dúvida, claro, ficar no barzinho. Ouvir música insuportável por cinco horas não é entretenimento para ele. A convida para ir pro barzinho conversar. Ela tem uma prima do Sul que quer conhecer a boate. Combinam de se encontrar na semana seguinte.

Escolhem quarta-feira. Um restaurante japonês em Ipanema. Já é o terceiro encontro (verdadeiramente, é o segundo) entre eles. Ele pergunta como foi a boate. Ela diz não ter gostado muito, mas o que importou foi a diversão da prima. Passam a noite entre sashimis se conhecendo ainda mais. Cada vez se entendem melhor. A diferença de opinião de ambos, porém, é grande. Dá pra ver que não há nada em comum a não ser o prazer do beijo e comida japonesa. Ela até admite não ter gostado muito do filme no Estação. Ela na verdade não gosta muito de cinema.

Ele prontamente pergunta se ela gosta de axé. A resposta, esperada, é sim. Muito. Não perde uma micareta com as amigas. Ele a diz que não suporta axé. Muda então de assunto para não perder o interesse.

Ele a leva em casa, no Leblon, e ela o convida para escutar um cd de axé que tem em casa. Diz que ele vai amar se escutar esse. “Os outros são uma porcaria mesmo”, diz ela, com um sorriso contido. Não há como recusar um convite tão promissor.

Ela mora com o irmão num apartamento de dois quartos deixado pelos pais, agora aposentados, que moram no litoral paulista, onde a mãe dela tem parentes. O apartamento é muito bem cuidado, espaçoso e aconchegante, impressionantemente desprovido de barulho apesar da localização.

Encontram uma química incrível no quarto, ao som de axé. Ele ri enquanto tudo se desenrola. Quer mais um Cole Porter, um Miles Davis, um clichezíssimo Barry White. Axé é brincadeira. Chiclete com Banana ao vivo é ainda mais ridículo. Tenta esquecer os barunhos de ‘chiiiiiiclé-tê, obá, obá’ do som dela. Ele vê que ela se diverte. Cada vez mais adora o sorriso dela. É um daqueles marotos, bobinhos, apaixonantes.

Já são duas da manhã. Ele finalmente consegue, depois de muita tentativa, a única coisa que achara de bom nos álbums dela: o botão de ligar do som. Ficam no silêncio um tempo até cairem no sono. Acordam assustados às seis da manhã. Pelo menos nenhum dos dois se atrasou para o trabalho e para a faculdade.

Continuaram a se ver por um tempo. Se encontram, em média, duas vezes por semanas. Sempre se encontram sozinhos, a dois. Ele não gosta de boates. Ela não gosta de não ir a boates. Ele tenta, incessantemente, levar uns dvds pra casa dela. De ‘Conde de Monte Cristo’ a ‘Procurando Nemo’, são os desenhos que mais agradam. Ele nem pensa em levar um ‘Apocalipse Now’.

As diferenças que o atraíram no início já estão fazendo diferença. Ele começa a ponderar se quer apresentá-la a seus amigos. Quer saber se ela vale a pena. A resposta vem num momento oportuno: show do Chiclete com Banana, esgotado há sei lá quanto tempo, que ela já tinha comprado ingresso e ia com as amigas de qualquer jeito. Uma das amigas tinha torcido o joelho jogando tênis, então tinha um ingresso sobrando. Ela ofereceu, provavelmente achando que seria impossível ele recusar. Pois ele não só recusou como quis conversar com ela.

Cinco semanas depois de tudo começar, se encontraram pela última vez no mesmo restaurante japonês do segundo encontro. Era tudo escondido demais pro gosto dele, e não havia como continuar com alguém de gostos tão distintos. Chega um ponto que você procura algo a mais. Não havia um álbum sequer no quarto dela que ele gostasse. Tá, ele comprou ‘Bloco do Eu Sozinho’ pra ela. Ela escutou uma vez, com ele. Depois foi parar atrás de todos os álbums de axé e hip-hop que ela tinha.

Ela não entendia como ele não via graça em dançar a noite toda ao som de 50 Cent, Ja Rule, Latino, Babado Novo ou o Chiclete. Ele não entendia como ela não conseguia ficar sem isso. Tudo bem que não deram tempo para que os gostos se adaptassem, mas honestamente nenhum dos dois parecia querer realmente tentar. Deixaram tudo como estava, e prometeram permanecer amigos.

Até hoje ele ainda a encontra de vez em quando. A última vez tem três meses. A encontrou num pub com algumas amigas. Um pub. Dançavam ao som de U2 e Counting Crows. Não sabiam as letras, mas era um avanço. Ele perguntou o que ela fazia fora de uma boate. Quinta-feira não era dia de boate, disse ela, e a sua amiga de faculdade não gostava de boates. Ela era loira, alta, e muito, muito bonita. A tentação foi muita. Mas não dava pra ele dar em cima de uma amiga dela. Não assim, na frente dela.

Talvez outro dia, pensou ele.



A morte anunciada de Biajoni
21-Outubro-2005, 2:09
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Estava na hora de vermos o fim de uma lenda viva da blogosfera. Biajoni is no more. Done with. Bereft of breath. Long gone.

Cortou o cabelo. Resolveu colocar um terno. Tentou virar gente grande.

Entrou na academia. Foi trabalhar os glúteos com Laércio ao som de Queen. Gostou demais da idéia que assumiu o bigode.

Foi nessa hora que tudo deu errado.

Bia, munido de um espírito avassalador, tornou-se o mariachi de Limeira. Empezó a hablar español. Não queria mais saber de nada a não ser tocar serenatas para as lindas morenas da pequena cidade paulista. Surtou. Não falava com mais ninguém, ficou recluso ao seu telhado, compondo músicas belíssimas sobre sexo anal e exaltando sérgio efe, seu grande amigo que tem nome espanhol.

Lembro de uma conversa que tive com ele há pouco tempo. “E ae Bia, como andam as coisas?”, indaguei eu, naquelas típicas tentativas de quebrar o gelo pelo MSN. “Muy malo amigo”, retrucou ele, “no sé lo que hacer. Tengo muchos problemas. Me olvido de todo. No quiero más hablar portugues. És una lengua perverza, llena de cabrones malos que solo quierem mi corazón, las chicas mi cuerpo. No sé se puedo vivir así por mucho tiempo.” Percebi então o quiprocó do meu amigo. Ser um mariachi num mundo tão vil é sinal de problemas sérios.

Ele me contou que não parava de compor. Mas havia um problema: Bia não sabe tocar guitarra. Bem que tentou, mas frustou-se por não ser um milésimo do Elvis Costello ou Lou Reed, por mais horrorosos que sejam. Confundia lás com sols, rés com sis. Quinta ou terceira casa?, sempre pensava ele, e com isso ficou cheio de pseudo-músicas no seu telhado.

Em belo dia tentou cantar uma de suas músicas para uma amada. Ficou tão desafinada que a amada riu. Riu dele, riu de sua música. Quebrou seu coração em pedaços indo se encontrar com um rock star com pinta de anos oitenta, de laquê e camisa de pirata, ainda rindo de sua cara. Decidiu que era hora de se vingar.

Pegou sua caixa da guitarra. Decidiu que guitarra ela não mais carregaria. Trocou o forro, instalou uma calibre doze e se preparou para o embate final. Por sua honra tinha que matar o cabrón apestoso que ferira seu corazón partido.

Deu um carinhoso beijo em Laércio, seu companheiro de tantos exercícios de glúteos na academia que o fez querer parecer o Freddie Mercury. Laércio ofereceu sua ajuda. Bem queria dar umas porradas em alguém. Tanta testosterona por nada. Merecia gastar isso tudo destruindo alguém. E inimigo do Bia é inimigo dele. Parceiro de academia é isso: irmão de anabolizante é irmão pra vida toda.

Bia disse que precisava fazer isso sozinho. Não queria envolver mais ninguém na sua intriga pessoal com os dois. Ela merecia morrer. Ele, merecia morrer por ainda usar um cabelo dos anos oitenta e gostar de camisas de pirata. Se tinha alguém que podia se parecer com alguém dos anos oitente, esse alguém era o Bia! David Lee Roth o caralho! Só tinha lugar em Limeira para um Freddie!

Bia partiu pra espelunca de bar onde os dois estavam. Tivera os seguido em seu pangaré Tobias por toda a cidade. Bia os chamavam de ‘pombinhos’ – ratos com asas que mereciam ser impalados em praça pública.

Chegou ao bar ‘Taverna da Pata Prenha’ exatamente às duas e trinta e dois da manhã. Os vira entrar há poucos minutos. Preparou seu arsenal. Os dois não sairiam de lá ilesos.

Olhou para as portas estilo saloon. Fez questão de dar uns dois passos pra frente para não passar vergonha e ser atingido pelas portas que acabara de chutar. Olhou com cara de matador por todo o bar. Saculejou-se todo, deixando o som de metal ecoar pelo agora silencioso recinto.

Gritou com toda a força do seu pulmão calejado de tantos maços de Carlton: “Rosalita, cadê você sua piranha! Destruíste meu singelo coração, mas pagarás caro por ato tão vil!”. Tratou de rastrear todos os rostos à procura de sua amada odiada. Onde poderia ter se escondido?, pensou ele. A vi entrar nesse instante nessa birosca!

Finalmente a avistou, semi-nua, atracando-se com Afrânio, vizinho de porta de Bia. Afrânio sempre dera em cima de Rosalita, até na cara do Bia. Isso sempre o enfureceu, mas acreditava na sua amada odiada. Agora toda a raiva que sentia aumentou exponencialmente. Suas veias pulsavam. Suas mãos tremiam. Suavam. Seu olhar, fixo e arregalado, não fugia dos dois.

Andou calmamente até a mesa onde se encontravam. O bar inteiro acompanhou a estranho clone de Freddie Mercury vestido de mariachi caminhar, case de guitarra na sua mão esquerda, cigarro Carlton vermelho entrelaçado entre seu indicador e dedo médio. Arrastava-se como um touro indomável, bufando fumaça e exalando testosterona. Esse seria seu grande momento – o momento da vingança total.

O casal se vira para contemplar a figura diante de seus olhos. Bia não mais era o Bia. Se transformara em Juan Manuel Gonzales Fernardez Herrera , temido matador hispano-chicano que assombrava as pueblitas do norte do México no começo do século passado. Portava em suas mãos a arma da destruição da traição. A arma que traria ordem e justiça ao mundo.

Afrânio olhou para Bia, devidamente vestido e com olhar amedrontador e disse: “Peraí Rosita (só ELE poderia chamá-la disso!), esse não é aquele GUEI que namorava contigo?”. E com sorriso maroto tratou de lascar beijo após beijo na amada odiada do nosso herói.

Rosalita o parou e indagou: “O que fazes aqui Bia? Já não era hora de você se mancar e de mandar dessa cidade? Já estás mal falado o suficiente! Fiz questão disso!”, e soltou uma bela risada maquiavélica, quebrando ainda mais o já destroçado coração do rapaz. Bia não aguentava mais. Precisava soltar todo o arsenal que guardara para essa ocasião.

Com um movimento digno de Antonio Banderas em ‘Balada de um Pistoleiro’, Bia clicou a abertura do case da sua guitarra e onde deveria estar uma Takamine Folk de aço estava uma escopeta calibre doze, que tratou de disparar duas balas no peito do Afrânio, traidor safado que era. Merceu cada grama de chumbo que entrou no seu corpo, o despindo de qualquer malandragem a caminho do seu leito de morte. Bem-feito.

Com Rosalita Bia foi mais cuidadoso. Sacou de sua manga uma faca borboleta, e com extremo cuidado banhou um pedaço do pano que cobria a mesa de Rosita em vodka. Bebida de quinta categoria, pensou Bia. Nem whisky tomam! Colocou esse pedaço no bucal da garrafa, agora pela metade, e tacou fogo no pano. Olhou com tremendo prazer o rosto de espanto e medo da sua amada odiada. Zuniu então o seu recém-feito coquetel molotov nela, cobrindo-a de chamas.

Rosalita, em chamas, correu transloucada pelo bar, agora um pandemonio completo. Pessoas se refugiavam embaixo de suas mesas, só para verem uma mulher em chamas tropeçar nessa mesma mesa e fazê-la pegar fogo. Em minutos o bar inteiro era um inferno – todas as mesas em chamas, e Rosalita caída ao lado da entrada, corpo já carvão.

Enquanto tudo isso acontecia, pode-se ver o Bia, sorrindo e dançando, a gritar: “Eu não sou GUEI! Eu não sou GUEI! Eu não sou GUEEEEI!”. O bar foi completamente destruído. Mais ninguém se feriu. Bia não foi visto saindo do bar.

Foi um final melancólico, mas coerente com esse nosso amigo. Bia sempre foi uma estrela num céu desprovido de tantas. Seguiu seu lema, antes proferio por um ídolo grunge: “It’s better do burn out than to fade away”.

Existem pessoas que dizem que o viram por aí, vagando de bar em bar à procura da sua nova Rosalita. Não acredito. Ninguém teria sobrevivo àquele incêndio.

Descanse em paz, molestador de Hello Kitties. Sentiremos sua falta.



Dei mole
19-Setembro-2005, 3:01
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Dou mole. Não penso. Muitas vezes páro. Esqueço muita coisa. Deixo o tempo passar. Não dou a devida importância que certas coisas merecem. Brigo comigo mesmo para fazer algo que sei que será benéfico para mim, mas é mais difícil do que quero aceitar. Permito que o descaso e a preguiça prevaleçam em alguns momentos. Lembro de eventos que poderíam ter tido um final diferente, tivesse eu tido um pouco mais de perseverança. Hiatos que não precisariam existir. Lacunas preenchidas. Espaços em aberto fechados. Há alguns meses estava eu no ônibus, e troquei olhares com uma linda menina sentada no banco oposto ao meu. Ficamos nessa troca de olhares por alguns instantes. Não sei se ela percebeu o que queria, mas eu pelo menos pensei que sim. Ainda sim mantinha minhas dúvidas. Essas incessantes dúvidas que nos prendem em nossos lugares. Meu ponto se aproximava e eu ali, sentado, pensando no que fazer. Como abordaria uma pessoa num ônibus? Sempre achei isso o ó. Mas visto que não tinha escolha, era isso que tinha que fazer. Meu ponto chegou. Desci para vê-la me acompanhando com seus lindos olhos castanhos. Mandei um sorriso. Sorriso devolvido. E o ônibus partiu. Dei mole.



Ele abre os olhos
29-Agosto-2005, 1:55
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Ele abre os olhos. Seis e quinze da manhã. Ela ainda dorme, angelicalmente, ao seu lado.

Ele tenta lembrar do dia anterior. O que fiz mesmo? Onde estou mesmo? Quem é ela mesmo?

Pequenas lembranças povoam sua mente. “Fui à uma festa, disso lembro”, disse ele, bem baixinho, com a voz rouca que quem acabara de levantar. “Mas onde será que estou?”.

Vai ao banheiro. Todo branco, com detalhes de azulejo rosa. Não tem a mais singela noção de onde está. E ela ali, dormindo pacificamente.

Depois de lavar o rosto, pensa no que fazer. “O que posso fazer agora? Sair de fininho? Esperar ela acordar? Fingir que lembro de tudo?”. Nada fazia sentido.

Caminha até a sala. Devagar, poucas memórias se encontram na sua cabeça. Essa sala ele lembra. Foi nela que houve a festa. Festa de amigos antigos, que ele não via há tempos.

Engraçado ele não se lembrar da festa. Não bebe muito e não fuma. Não havia como ele se esquecer assim, sem mais nem menos. Lembra-se de umas garrafas de tequila que estiveram na mesa na noite anterior, mas não lembra ter bebido. A sala está uma zona, toda desarrumada. Sem o que fazer, ele começa a arrumá-la.

“Até que foi fácil”, brincou ele consigo mesmo. A sala agora estava apresentável. Mesmo assim, depois de incontáveis latinhas de cerveja (Bohemia, menos mal) e de garrafas dos mais variados tipos, ele ainda não se lembrava de como parara ali, na cama do quarto ao lado.

Ele volta para o quarto. Precisava olhar para ela de novo. Seus cabelos ruivos, cacheados, pouco lhe diziam. Não conseguia ver seu rosto, enfiado entre dois travesseiros. Seu corpo, esbelto e branquinho, aumentava ainda mais sua curiosidade. Viu então a manchinha na coxa dela. Aquela manchinha ele conhecia.

Mas ela não era ruiva. Era morena clara! E era mais bronzeada! Mil pensamentos afogaram seu raciocínio. Não conseguia mais ficar quieto. Sete e meia da manhã, o Sol já agraciando o quarto. Olhou pela janela: bairro de Botafogo, perto da Morada do Sol. Sabia exatamente onde estava agora.

E finalmente a memória, esquecida nos confins do inconsciente, volta, devastadora, ao seu córtex frontal. E que memórias. Que noite ele teve.

Lembra de tudo: dos toques, das carícias, dos movimentos. Lembra dela, linda, com suas costas expostas, brancas, com poucas sardas. Lembra lembrar que achara que não queria ver nenhuma a menos, nenhuma a mais. Lembra ter encontrado a quantidade exata de sardas naquelas costas expostas.

Pára pra pensar. Pensa que aquilo tudo não se encaixa. Lembra de detalhes muito importantes. Não detalhes da noite anterior. Detalhes externos, mais delicados.

Ela era ex de um amigo. Tudo bem, era ex há algum tempo, mas o amigo estava na festa ontem. “Será que ele nos viu juntos? O que vou ter que explicar? E como explicarei tudo isso?”. Nenhuma solução o agradava.

Pensa então na amizade que mantinha com o amigo. Essa noite valeu potencialmente perder a amizade que mantinha? O que pensarão todos ao nosso redor?

“A amizade valia tanto assim?”, pensa ele, na desesperada tentativa de reverter uma situação no mínimo complicada. “Será que ele vai mesmo se importar tanto assim? Tem tempo demais desde que ele se separou dela. Não deve ser tão ruim assim. É, com certeza não será tão ruim assim. Ele até namora aquela outra. Qual o nome dela mesmo?”. Isso o satisfez naquela hora.

“Oi”, disse ela, com aquela linda voz de quem acaba de acordar.

“Erm, oi, tudo bom? Dormiu bem?”. Ele não sabia o que dizer. Foi pego de surpresa. Lá estava ela, agora sentada na cama, linda com o Sol de oito da manhã batendo em seu colo branquinho. Seus cabelos ruivos eram cor de fogo na luz solar. Realçavam ainda mais seu rosto. Ele não lembrava que ela era tão bonita. Como ela estava bonita agora.

“Dormi muito bem. Alguém mais dormiu aqui?”. Seu olhar era singelo, meigo, belo. Lembrava bem da última noite. Não queria esquecer tão cedo.

“Não lembro. Acordei às seis e não tinha mais ninguém”, disse ele enquanto olhava pela janela do quarto, procurando um foco para tentar não mais olhar para o lindo corpo dela. Sentiu uma vergonha estranha. Não sabia bem o que sentir naquela hora.

“Vem aqui, vem…”

E ele vai, relutante no começo, mas assim que deita-se na cama, não mais pensa nas conseqüencias, nas possíveis complicações do que esta acontecendo. Tem que curtir o momento. Não há alternativa.

Esquece o amigo, esquece o compromisso que tem pela manhã. Pensa somente nela. Passaam então a manhã na cama, curtindo a presença um do outro.

Gosta cada vez mais do toque dela. Sua pele era seda. Suas curvas, magníficas.

Saem da cama na hora do almoço. Ele cozinha para ela. Macarrão ao alho e óleo. Bruschettas de entrada. Tomam o que restou de um vinho espanhol que ela abrira na festa.

Curtem a companhia alheia até às quatro da tarde. Ela volta para o quarto. Arruma suas coisas. O chama para tomar banho. Dividem momentos incríveis. Saem juntos. Se vestem juntos.

Ela se arruma por último, como esperado, enquanto ele a espera na sala, tomando um copo d’água. Em tempo estava pronta para sair. Pega sua mala, duas bolsas, e segue para a porta. Ele vai ao lavabo, lava o rosto, se admira pela última vez na casa dela e a ajuda a descer com tudo.

A leva ao aeroporto. Ela vai fazer mestrado em administração na Europa. Ontem fora a festa de despedida dela. Se beijam calorosamente no saguão do aeroporto e ele a vê sumir, embarcando no portão B do Galeão.



Do MAM ao Leme
26-Agosto-2005, 1:51
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Ele tinha 21. Ela, 23. Mês de Janeiro. Se conheceram no MAM, no Rio de Janeiro. Era uma exposição qualquer, num dia qualquer. Ele só queria fazer algo depois do trabalho. Ela, conhecer o museu. Vinha de Volta Redonda, interior do estado do Rio. Estudava Psicologia na UFRJ.

Ele se interessou imediatamente. Seu cabelo liso, moreno. Perfeitamente curto. Olhos castanhos, quase verdes. Óculos moderninho, de armação quadrada. Seu sorriso era cintilante.

Ele a abordou perguntando quem era o artista da pintura. Ela respondeu que não sabia, mas também tinha gostado. Ele deu seu nome, e perguntou o dela. Conversaram por um tempo. Combinaram sair dali para tomar um café. Eram quase sete da noite. Ele estava de carro, e sugeriu o Letras & Expressões do Leblon.

Ela tomou café e comeu um croissant. Ele, um chá. Conversaram sobre quem eram, o que faziam, do que gostavam. O papo rolava, solto, tranquilo, gostoso. Ele a olhava com um olhar maroto. Procurava gostar de tudo que ela gostava. Tudo menos MPB.

Pensamentos extranhos passavam por sua cabeça. Não sabia bem como processá-los: parecia uma eternidade desde a última vez que sentira algo igual. Sentiu-se novo, um garoto, um adolescente. Ao mesmo tempo era tudo um pouco estranho, e por mais que só tivesse vinte e um anos, sentia-se muito mais velho. Se via como um velho marujo, calejado por anos de lutas em alto mar em vão.

Olharam no relógio e se assustaram: já passara das duas da manhã. Ele tinha trabalho. Ela se preocupou com a amiga com quem dividia o apartamento.

Seguiram silenciosamente ao carro. Seguiram silenciosamente no trajeto do Leblon ao Leme. As avenidas beira-mar os agraciavam com um véu de maresia.

Chegaram no Leme. Ele desceu. Abriu a porta para ela. Jamais deixara de ser um cavalheiro. Viu nos olhos dela um brilho que há tempos não esperava ver. Viu em seus traços, tão diferentes do que ele estivera acostumado a apreciar por tanto tempo, uma refrescante beleza.

A levou à portaria. Se despediram com um beijo carinhoso. Ele acariciou seus lindos cabelos. Ela, segurou firme a sua nuca. Foi um daqueles beijos inesquecíveis. Sorriram ao abrir os olhos e encarar o olhar do outro lado.

Ela o deu seu telefone. Pediu que ele a ligasse em uma semana - iria viajar para sua cidade para ficar com a família. Deu-lhe mais um beijo, desta vez mais caloroso, seguiu seu trajeto portaria-corredor-elevador. Ele a acompanhou, sorridente, vendo ela fechar a porta no elevador e subir para o quinto andar - esperou para ver em qual andar o elevador iria parar.

Passou um semana e ele não ligou para ela. Até hoje não sabe porquê.