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Estava voltando da missa de sétimo dia da minha avó, aqui na Lagoa, no Rio, quando fui parar no Caroline Café, na JJ Seabra, para comer algo e tomar um café (obviamente). Sentadas comigo estavam minha linda (ó, que meigo!), minha mãe, a prima dela e uma amiga. Meu pai não chegara ainda.
Comentávamos algo sobre a missa - sua lerdeza, sua antiquidade. Aí vieram as perguntas sobre crença. Isso sempre parece me seguir - a conversa sobre crença. Vira e mexe me aparece alguém pra questionar minha não-crença. Questionar a impossibilidade de não quer em absolutamente nada e achar isso não só muito normal como saudável e tranquilo.
Pois bem, eis que a prima da minha mãe vira pra mim, depois dela ter dito que tinha perdido interesse pelo catolicismo e entrado no espiritismo até perder a vontade de ser espírita (algo como ‘perdi meu catolicismo porque não concordava mais com a religião… agora sou, quer dizer, estou espírita até me desiludir com o espiritismo e achar outra crença’), perguntou porque eu disse que não acreditava em nada.
‘Ah,’ disse ela, ‘ateu como alguém que só não acredita em religião? Entendo…’ Como se a verdade do ateísmo fosse algo completamente à parte do seu funcionamento. ‘Porque têm aqueles agn- agnósticos, né? -ósticos que dizem não acreditar em nada mesmo’.
‘Não, não,’ retruquei, ‘agnóstico é o ateu em cima do muro. Aquele que ao invés de dizer que não acredita em nada mesmo prefere dizer que como não há provas de que não existe ele não necessariamente diz que não tem, então há a possibilidade de existir algo, não importanto o quão difícil isso seja da verdade’. O rosto dela foi de total confusão. Chegou a ser engraçado, como muitas vezes é.
‘Mas em nada, nada mesmo? Impossível… isso é só uma enganação sua.’ Olhou-se pra minha mãe, que com ares de descontento disse que não sabia porque tinha virado ateu. Não foi isso que ensinei a ele, disse ela. ‘Quando você mais precisar, vou estar do lado pra ver você buscar um deus pra te ajudar.’
E aí é que as pessoas me irritam. Porque não basta só dizerem não acreditar que eu seja realmente ateu, que seja tranquila a idéia de que nada existe, nenhum apoio celeste está lá, esperando você clamar por ele para que ele desça e te ajude a solucionar seus problemas. Não basta simplesmente permancerem incrédulos e até mesmo julgamentativos com relação a você por ser um daqueles estranhos ‘não-crentes-em-algo’. Que não sou uma dessas pessoas-que-acreditam-em-coisas.
Precisam implicar a ponto de dizer que quando mudar de idéia estarão lá pra me dizer ‘told you!’. Precisam deixar claro que não posso viver minha vida sem a noção de existência celeste eterna e onipresente. Que um dia suplicarei a volta do grande senhor, mestre arquiteto do universo para que ele me aceite em seus eternos braços. Porra, não basta só tentar me fazer de idiota por não crer em nada?
Olha, o ateísmo é a certeza de que o mundo e o universo são geridos por regras básicas, inerentes à forças esotéricas - encaixadas com certa perfeição em leis da física, química e biologia. Que somos seres providos através de um processo complicado chamado Evolução, mas que se representa de forma bem simplória. Os mais fortes vencem os mais fracos em seus respectivos ambientes por inúmeras razões distintas. E isso, ao longo do éons, gerou as espécies de todos os seres que conhecemos (e muitos e muitos que ainda não conhecemos). Cada um com sua diferença, mas regidos por leis básicas de funcionamento de tudo. Tudo é explicavél, mesmo que não tenhamos ainda sabedoria para explicá-lo.
Ia entrar numa super explicação do porque acho crença algo estranho, mas não preciso. Acho que é fácil saber. A idéia de crer em algo meramente pelo conforto que dá me soa, francamente, fraco. Pra mim é uma fraqueza a pessoa não aceitar que a vida pode sim ter um começo, um meio e um fim.
Não foi difícil pra mim entender meu câncer só porque não sou crente. Na verdade, foi justamente por isso que não me pus a me flagelar, pensando ser um pecador voraz que mereceu tamanho julgamento divino e agora pagaria com um testículo a menos, hormônios transloucos e quimioteria a sentença de algum deus. Porra, tinha um problema genético e, graças ao momento científico em que me encontro pude vislumbrar uma vida saudável e tranquila depois disso. E nisso pude me apoiar - na ciência, na medicina, nos remédios que tomei para conseguir combater essa doença. E estou aqui, firme e forte, tão descrente quanto antes. Nada mudou. Nem precisava.
Não quero forçar minha descrença em ninguém, então por favor não venha forçar a necessidade de uma entidade divina pra cima de mim. Se funciona pra você, ciente. Batuta. Pra mim não. Não vejo razão nisso.
Tá bom ser simples assim a discussão? Minha experiência diz que nunca está. Sempre vou encontrar alguém que vai me dizer ‘um dia você vai acreditar’. Espere sentado.







