Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


As aventuras do mini viking. Capítulo 1: Xou da Xuxa.
18-agosto-2005, 12:58
Filed under: As aventuras do mini viking

Mini viking, versão seis anos. Ainda não tinha essa barba, esse cabelo, esse corpicho. Tudo era mais simples. Gostava de Topo Giggio, Chaves, Changeman e Jaspion. Não havia tempo na minha vida ocupada para loiras sem personalidade. Mesmo assim ganhei dos meus pais ingressos para o Show da Xuxa.

Meus dois primos, Márcio e Marcela, eu e meu irmão, Rafael, chegamos ao estúdio, no Jardim Botânico, onde era gravado o programa. Agora é um prédio desses pra classe mérdia alta. Entramos como quem não quer nada e ficamos na espera, junto com mais outras trocentas crianças. Olhei para os lados: nada demais. Paredes claras, fiação exposta, andâimes mil. Lugar horrendo.

Entramos no estúdio. Dessa vez, cores mil. Tinha tudo naquela época: girassóis gigantes, mini parque de diversões com roda nem-tão-gigante, onde nós crianças fingíamos estar a-do-ran-do estar naquele cubículo rotatório. Maquetes imensas, para nós crianças, que me assustavam e facinavam ao mesmo tempo. E lá estavam elas.

Paquitas sempre foram uma incógnita pra mim. Mesmo mais velho, ver aquelas meninas, sempre bonitinhas (poucas realmente espetaculares), dançando com roupas ridículas sem parar é estranho. Mesmo a nível de criança, enquanto menino, nunca gostei delas. E depois do programa tive ainda mais razão pra isso.

Começa o programa. Aparece a loira. Quase não consigo ver nada. Tem muita criança, muito barulho. Me perco dos meus primos e do meu irmão. Então decido que preciso explorar o estúdio. Pela frente do palco. Diante das câmeras ligadas.

Fico andando, então, de um lado pro outro do palco, enquanto a Xuxa e suas Paquitas tentam continuar o programa. Vi a fita um tempo depois (num outro acontecimento que em breve será contado aqui), e é simplesmente hilário: metade do meu corpo passando de um lado pro outro do palco, à frente de tudo e de todos enquanto a Xuxa cantarola e rebolava. E a Marlene gritava. Pior é que sabia que estava fazendo algo de errado – via todos os contra-regras, os produtores, os assistentes, TODOS, me pedindo pra ficar parado, sair pela lateral, fazer qualquer coisa menos andar de um lado pro outro como estava fazendo.

Naquela época do Show da Xuxa escolhiam crianças “sortudas” para aparecer quando o programa voltasse do intervalo. Mostravam a caroça das crianças no meio de algum fundo. No meu caso, um coração. Sou convocado a olhar para uma câmera enorme, com um homem estranho segurando-a. Espero a luz vermelha acender. Continuo olhando pro meio do quadradão negro, sem saber ao certo que estou fazendo ali. Depois de alguns segundos, o homem me agradece, e sigo minha peregrinação para o outro lado do palco e de volta.

Não lembro quantas vezes fiz a viagem. Só lembro de uma coisa: não demorou muito para as paquitas entrarem em ação. Em um dos intervalos, fui abordado por uma paquita, que prontamente me pegou à força e me colocou no colo de um dinossauro (ou seria lagarto? Jacaré talvez? Tudo a mesma coisa…) de plástico horroroso. Me disse que estava de castigo ali. Que não podia mais sair até o fim do programa. Me senti abusado, ferido, machucado. O mini viking ficou é muito puto.

Olhei para os lados. Procurei uma saída. E ela lá, me olhando. Não conseguia desviar do olhar da carcereira do mal. Paquita do capeta era ela. Começa o programa de novo e lá foi ela, toda sorridente e festiva dançar ao lado da loira com cérebro de andorinha.

O quadro estava quase terminando, e mesmo assim sentia o olhar dela enquanto dançava. Sinto então uma mão no meu ombro. Olho para o lado e lá estão eles: meus salvadores. Márcio, Rafael e Marcela, nessa ordem, me olham pelo lado do bicho de plástico. Estão rindo. Me chamam pra correr e é isso mesmo que faço. Mas não retorno para a frente do palco. Não mais. Tem algo que me chama mais a atenção.

O show está terminando, e lá vem a nave espacial da Xuxa. Tem uma escada que pisca, e ao redor dela, fumaça. Meus olhos lacrimejam de tanta vontade de explorar mais uma faceta do estúdio. E lá vou eu, um mini viking metido a Indiana Jones.

A escada se aproxima. Minhas mãos começam a suar. Ela é tão linda, essa escada. Imaginem eu, mini viking que era, a caminho da nave espacial que levava a Xuxa de volta pro planeta dela. Cheguei a soluçar.

Primeiro degrau. Firme. Piscante. Meus olhos, cintilantes, avistam a nave. Por mais patética que ela fosse, era tudo pra mim naquela hora. Segundo degrau. Tão firme quanto o primeiro. Estou chegando. Terceiro degr…

Dengue me pega. “Desce daí garoto. A Xuxa vai subir!”, disse ele. Inseto filho da puta. Me põe de volta ao chão na base da escada, ao lado da roda nem-tão-gigante. Me sinto traído. Inseto imbecil. Cadê aquela tartaruga preu bater nela de igual pra igual?

A Xuxa vai embora e eu ali, vendo tudo lá de baixo, muito revoltado. Sai aquela fumaceira e eu lá, querendo estar naquela panela que brilhava e piscava. Encontro meus primos e meu irmão. Quero sair logo. Odiei o programa.

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