Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Do MAM ao Leme
26-agosto-2005, 1:51
Filed under: Contos

Ele tinha 21. Ela, 23. Mês de Janeiro. Se conheceram no MAM, no Rio de Janeiro. Era uma exposição qualquer, num dia qualquer. Ele só queria fazer algo depois do trabalho. Ela, conhecer o museu. Vinha de Volta Redonda, interior do estado do Rio. Estudava Psicologia na UFRJ.

Ele se interessou imediatamente. Seu cabelo liso, moreno. Perfeitamente curto. Olhos castanhos, quase verdes. Óculos moderninho, de armação quadrada. Seu sorriso era cintilante.

Ele a abordou perguntando quem era o artista da pintura. Ela respondeu que não sabia, mas também tinha gostado. Ele deu seu nome, e perguntou o dela. Conversaram por um tempo. Combinaram sair dali para tomar um café. Eram quase sete da noite. Ele estava de carro, e sugeriu o Letras & Expressões do Leblon.

Ela tomou café e comeu um croissant. Ele, um chá. Conversaram sobre quem eram, o que faziam, do que gostavam. O papo rolava, solto, tranquilo, gostoso. Ele a olhava com um olhar maroto. Procurava gostar de tudo que ela gostava. Tudo menos MPB.

Pensamentos extranhos passavam por sua cabeça. Não sabia bem como processá-los: parecia uma eternidade desde a última vez que sentira algo igual. Sentiu-se novo, um garoto, um adolescente. Ao mesmo tempo era tudo um pouco estranho, e por mais que só tivesse vinte e um anos, sentia-se muito mais velho. Se via como um velho marujo, calejado por anos de lutas em alto mar em vão.

Olharam no relógio e se assustaram: já passara das duas da manhã. Ele tinha trabalho. Ela se preocupou com a amiga com quem dividia o apartamento.

Seguiram silenciosamente ao carro. Seguiram silenciosamente no trajeto do Leblon ao Leme. As avenidas beira-mar os agraciavam com um véu de maresia.

Chegaram no Leme. Ele desceu. Abriu a porta para ela. Jamais deixara de ser um cavalheiro. Viu nos olhos dela um brilho que há tempos não esperava ver. Viu em seus traços, tão diferentes do que ele estivera acostumado a apreciar por tanto tempo, uma refrescante beleza.

A levou à portaria. Se despediram com um beijo carinhoso. Ele acariciou seus lindos cabelos. Ela, segurou firme a sua nuca. Foi um daqueles beijos inesquecíveis. Sorriram ao abrir os olhos e encarar o olhar do outro lado.

Ela o deu seu telefone. Pediu que ele a ligasse em uma semana – iria viajar para sua cidade para ficar com a família. Deu-lhe mais um beijo, desta vez mais caloroso, seguiu seu trajeto portaria-corredor-elevador. Ele a acompanhou, sorridente, vendo ela fechar a porta no elevador e subir para o quinto andar – esperou para ver em qual andar o elevador iria parar.

Passou um semana e ele não ligou para ela. Até hoje não sabe porquê.

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