Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Ele abre os olhos
29-agosto-2005, 1:55
Filed under: Contos

Ele abre os olhos. Seis e quinze da manhã. Ela ainda dorme, angelicalmente, ao seu lado.

Ele tenta lembrar do dia anterior. O que fiz mesmo? Onde estou mesmo? Quem é ela mesmo?

Pequenas lembranças povoam sua mente. “Fui à uma festa, disso lembro”, disse ele, bem baixinho, com a voz rouca que quem acabara de levantar. “Mas onde será que estou?”.

Vai ao banheiro. Todo branco, com detalhes de azulejo rosa. Não tem a mais singela noção de onde está. E ela ali, dormindo pacificamente.

Depois de lavar o rosto, pensa no que fazer. “O que posso fazer agora? Sair de fininho? Esperar ela acordar? Fingir que lembro de tudo?”. Nada fazia sentido.

Caminha até a sala. Devagar, poucas memórias se encontram na sua cabeça. Essa sala ele lembra. Foi nela que houve a festa. Festa de amigos antigos, que ele não via há tempos.

Engraçado ele não se lembrar da festa. Não bebe muito e não fuma. Não havia como ele se esquecer assim, sem mais nem menos. Lembra-se de umas garrafas de tequila que estiveram na mesa na noite anterior, mas não lembra ter bebido. A sala está uma zona, toda desarrumada. Sem o que fazer, ele começa a arrumá-la.

“Até que foi fácil”, brincou ele consigo mesmo. A sala agora estava apresentável. Mesmo assim, depois de incontáveis latinhas de cerveja (Bohemia, menos mal) e de garrafas dos mais variados tipos, ele ainda não se lembrava de como parara ali, na cama do quarto ao lado.

Ele volta para o quarto. Precisava olhar para ela de novo. Seus cabelos ruivos, cacheados, pouco lhe diziam. Não conseguia ver seu rosto, enfiado entre dois travesseiros. Seu corpo, esbelto e branquinho, aumentava ainda mais sua curiosidade. Viu então a manchinha na coxa dela. Aquela manchinha ele conhecia.

Mas ela não era ruiva. Era morena clara! E era mais bronzeada! Mil pensamentos afogaram seu raciocínio. Não conseguia mais ficar quieto. Sete e meia da manhã, o Sol já agraciando o quarto. Olhou pela janela: bairro de Botafogo, perto da Morada do Sol. Sabia exatamente onde estava agora.

E finalmente a memória, esquecida nos confins do inconsciente, volta, devastadora, ao seu córtex frontal. E que memórias. Que noite ele teve.

Lembra de tudo: dos toques, das carícias, dos movimentos. Lembra dela, linda, com suas costas expostas, brancas, com poucas sardas. Lembra lembrar que achara que não queria ver nenhuma a menos, nenhuma a mais. Lembra ter encontrado a quantidade exata de sardas naquelas costas expostas.

Pára pra pensar. Pensa que aquilo tudo não se encaixa. Lembra de detalhes muito importantes. Não detalhes da noite anterior. Detalhes externos, mais delicados.

Ela era ex de um amigo. Tudo bem, era ex há algum tempo, mas o amigo estava na festa ontem. “Será que ele nos viu juntos? O que vou ter que explicar? E como explicarei tudo isso?”. Nenhuma solução o agradava.

Pensa então na amizade que mantinha com o amigo. Essa noite valeu potencialmente perder a amizade que mantinha? O que pensarão todos ao nosso redor?

“A amizade valia tanto assim?”, pensa ele, na desesperada tentativa de reverter uma situação no mínimo complicada. “Será que ele vai mesmo se importar tanto assim? Tem tempo demais desde que ele se separou dela. Não deve ser tão ruim assim. É, com certeza não será tão ruim assim. Ele até namora aquela outra. Qual o nome dela mesmo?”. Isso o satisfez naquela hora.

“Oi”, disse ela, com aquela linda voz de quem acaba de acordar.

“Erm, oi, tudo bom? Dormiu bem?”. Ele não sabia o que dizer. Foi pego de surpresa. Lá estava ela, agora sentada na cama, linda com o Sol de oito da manhã batendo em seu colo branquinho. Seus cabelos ruivos eram cor de fogo na luz solar. Realçavam ainda mais seu rosto. Ele não lembrava que ela era tão bonita. Como ela estava bonita agora.

“Dormi muito bem. Alguém mais dormiu aqui?”. Seu olhar era singelo, meigo, belo. Lembrava bem da última noite. Não queria esquecer tão cedo.

“Não lembro. Acordei às seis e não tinha mais ninguém”, disse ele enquanto olhava pela janela do quarto, procurando um foco para tentar não mais olhar para o lindo corpo dela. Sentiu uma vergonha estranha. Não sabia bem o que sentir naquela hora.

“Vem aqui, vem…”

E ele vai, relutante no começo, mas assim que deita-se na cama, não mais pensa nas conseqüencias, nas possíveis complicações do que esta acontecendo. Tem que curtir o momento. Não há alternativa.

Esquece o amigo, esquece o compromisso que tem pela manhã. Pensa somente nela. Passaam então a manhã na cama, curtindo a presença um do outro.

Gosta cada vez mais do toque dela. Sua pele era seda. Suas curvas, magníficas.

Saem da cama na hora do almoço. Ele cozinha para ela. Macarrão ao alho e óleo. Bruschettas de entrada. Tomam o que restou de um vinho espanhol que ela abrira na festa.

Curtem a companhia alheia até às quatro da tarde. Ela volta para o quarto. Arruma suas coisas. O chama para tomar banho. Dividem momentos incríveis. Saem juntos. Se vestem juntos.

Ela se arruma por último, como esperado, enquanto ele a espera na sala, tomando um copo d’água. Em tempo estava pronta para sair. Pega sua mala, duas bolsas, e segue para a porta. Ele vai ao lavabo, lava o rosto, se admira pela última vez na casa dela e a ajuda a descer com tudo.

A leva ao aeroporto. Ela vai fazer mestrado em administração na Europa. Ontem fora a festa de despedida dela. Se beijam calorosamente no saguão do aeroporto e ele a vê sumir, embarcando no portão B do Galeão.

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