Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


As aventuras do mini viking. Capítulo 3: Mini viking aprende a andar de bicicleta.
31-agosto-2005, 1:07
Filed under: As aventuras do mini viking

Agora estamos em Salvador. Num base naval que não me lembro o nome. Cilica pode nos ajudar com o nome depois. Nem me lembro quantos anos tinha, mas sei que não foi muito tempo depois do incidente de Ibicuí.

Ah, nunca mais voltei para Ibicuí, por puro pavor da casa. Ela guarda a lembrança de que poderia ter morrido muito, muito cedo. E nunca ter tido histórias suficientes pra manter esse blog funcionando.

Era verão, disso me lembro. Um calor insuportável. Sempre acordávamos cedo, íamos para praia tomar Grapette (quem bebe, repete) ou ficávamos torrando dentro de casa. Depois do café, sempre corríamos para o primeiro pé de jambo que encontrávamos e nos entupíamos daquela deciosa fruta. Escalar pé de jambo era uma diversão indescritível para um menino ainda pequeno e magricelo. Sim, já fui pequeno.

Corríamos feito doido. Sempre adorei correr, pular, cair, rolar. Me machucar era parte do meu ofício de moleque peralta. Enquanto o Sarney destruia nossa economia, eu estava lá, correndo de um lado para o outro, me estabacando a torto e direito. E adorando cada minuto.

A base naval era gigantesca. Tinha praia particular, quiosques onde comíamos scotonofre e bebíamos Grapette até nossos últimos dentes de leite cairem por excesso de açúcar no sangue.

Por ser gigantesca, ela tinha umas longas retas. Perfeitas para se andar de bicicleta. Único problema é que quem vos escreve não sabia andar de bicicleta.

Márcio, primo sensacional que ele é, se propôs a me ensinar. Fui, naturalmente hesistante no começo, mas suficientemente confiante para tentar passar a imagem de alguém com algum controle – afinal, desde aquela época tinha que manter minha pose.

Pois bem, lá vamos nós para uma das retas começar a andar de bicicleta. Meu primo emprestou-me a dele, que apesar de maior dava pro gasto. Como estava craque na bicicleta com rodinhas, e fazia questão de mostrar isso, sabia, sabia, que seria mais do que tranquilo andar sem elas. Afinal, quem precisa daquelas rodinhas imbecis, certo?

Nada é tão simples assim. Não me sentia em total controle – posição necessária para quem vos escreve fazer qualquer coisa na vida. Desde os primórdios. Márcio calmamente segurava a parte de trás da bicicleta enquanto eu tentava me acostumar com o fato de não poder mais confiar no equilíbrio “natural” da minha antiga bicicleta.

Não tinha mais jeito. Era naquela hora ou nunca. Márcio disse que correria comigo, segurando a parte de trás da bicicleta enquanto tentava encontrar meu equilíbrio.

“Não largo de jeito nenhum!” disse ele, “Fica tranquilo!”

Isso não bastou para mim. “Não larga cara, se não me esfolo!” disse, claramente confiante na minha própria capacidade de me equilibrar num aro de metal com duas rodas.

Márcio sempre foi muito calmo e acolhedor. “Não largo Bruno, agora vai logo. Confia em mim.”

Confiei. Em vão.

Comecei a andar, e estava tudo indo perfeitamente bem. O equilíbrio não era um problema. Meu primo estava segurando a bicicleta pra mim. Não tinha porque temer perder o equilíbrio. Foi então que reparei que não mais escutava os passos dele naquela rua de terra batida. Na verdade, a bicicleta estava estranhamente mais livre, leve e solta.

Olho pra trás. Márcio me olha, com cara de quem fez seu trabalho, uns três metros depois do momento em que comecei a pedalar. “Desgraçado,” pensei eu, “me enganou! O que faço agora?”

Só havia uma opção. Mais assustado e bravo com o Márcio que qualquer outra coisa, e olhando para trás como todo bom iniciante, perdi o controle e me estabaquei feio no chão. Nem doeu muito – estava ainda abismado com meu primo, lá longe, no começo da rua, equanto eu aqui, uns bons cinquenta metros depois, preso nas ferragens daquele monstro de metal. Tinha um suporte bem legal atrás, onde o Márcio supostamente estava me ajudando, e era novinha e bonita, mas pra mim era um mostro just the same.

Peguei a bicicleta, montei nela e saí na direção do meu primo. It was payback time. Mal reparei que estava indo mais rápido que nunca, numa bicicleta que acaba de aprender a andar. Do outro lado da rua, onde estavam meu primo e prima, via-os comemorando. “Comemorando o que?” pensava eu, indignado. ”Me enganaste! Disseste que irias segurar a bicicleta! Tive que fazer isso tudo sozinho!”

Então reparei no meu feito: realmente fiz tudo sozinho. Só caí quando não quis mais me equilibrar. No meio do caminho, minha raiva se tornou orgulho. Nem tinha me machucado com a queda. Na volta, estava até andando rápido! Incrível!

Corri até meu primo, saltei da bicicleta e dei um beijão nele.

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2 Comentários so far
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Ei!! E os capítulos 1 e 2?

Comentário por Chambi

Clique na área logo abaixo do título, ‘arquivado em:’, e estão todos os capítulos lá. =)

Comentário por Bruno




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