Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


As aventuras do mini viking: Capítulo 5 – Castelo de Greyskull
14-setembro-2005, 1:09
Filed under: As aventuras do mini viking

Meu pai, como bem expliquei na aventura passada, é uma cara batalhador. Nunca deixou de lutar a vida toda pra nos ajudar. Enquanto se transformava em diretor geral da América Latina de um conglomerado multinacional, lecionava em faculdades, aqui e em Petrópolis, fazia mestrado, doutorado e trabalhava, nessa época, na Souza Cruz. Um louco.

Era muito jovem. Quatro, cinco anos. Morávamos ainda no Grajaú, no apartamento 101 do edifício Tatiana, número 29 da Rua Engenheiro Richard. Meu pai viajou para a Inglaterra: tinha um curso da Souza Cruz (lá British American Tobacco). Achávamos que em breve ele voltaria. Que seria mais um daqueles dias em que ele volta pra casa quando estávamos dormindo e saía para o trabalho quando ainda não tínhamos acordado.

Papai não voltava. Soubemos depois que esse tal de ‘curso’ era algo duradouro. Três meses! Inacreditável! Como respiraríamos sem nosso pai por três meses? Como seria possível não conseguir sentar no seu colo dizer “from the bottom of my heart”!?

Ficávamos atentos, olhando para a porta e para o telefone, à procura de som ou da imagem do nosso pai. Ele diz hoje que tinha medo que esqueceríamos dele. Bobo. Um herói, um deus na terra não se esquece assim. Não importa o quão jovem és.

Entre os telefonemas e as esperas intermináveis, vivíamos nossa vida de pintar com as mãos, correr atrás de nós mesmos no parquinho, no play ou no colégio. Eramos ocupados o bastante para não irmos a loucura com a falta dele. Vira e mexe ganhávamos um boa noite dele. Era tudo para nós.

Quando estávamos aguardando a volta do nosso deus em um mês, um mísero grupo de trinta dias, minha mãe vem com a bomba: “Lindinhos, vou lá me encontrar com seu pai. Vamos passar um tempo sem vocês nos enchendo o saco, gastando nosso precioso tempo. Vamos lembrar de como era bom quando não tínhamos vocês por perto – como éramos mais felizes. Volto junto com seu pai, em um mês, para esse inferno na terra que vocês criam para nós todos os dias”. Vocês podem imaginar como tudo isso soou em minha pobre cabeçinha juvenil. Entrei em parafusos.

Já não bastava metade da sua vida ir embora assim, de bobeira, por causa de algo estranho e estúpido chamado ‘curso’ que não vale nada pra você. Agora vem sua outra metade dizer que vai embora também. Esse mísero grupo de trinta dias agora parecia uma eternidade de dor e sofrimento! Como eles tinham a coragem de fazer isso conosco? COMIGO?

Minha mãe foi, e minha avó foi morar lá em casa junto com a Dadá, nossa babá/secretária que até hoje, mesmo depois de morarmos por anos e anos em Sampa e no exterior, está aqui em casa de novo. Vovó nos dava (quase) tudo o que pedíamos. “Até que esse mês pode ser melhor que esperava… é só conseguir realmente tudo o que quero da vovs”, pensava.

Um belo dia recebemos uma ligação. “Estamos voltando crianças!”, disse ele, do outro lado do telefone, com aquele lag estranho mas típico da telefonia de outrora, “Saímos daqui de Londres em meia-hora! Estamos chegando em breve! Estejam acordados!”.

“Hmpf, claro, agora ele quer que fiquemos acordados, suuuper felizes para recebê-los. Egoístas.”, pensava. “Meu pai vai querer que pulemos em seu pescoço também. Aposto que está barbudo.”

Acabamos dormindo mesmo. O vôo era longo, mas o fuso permitia que eles chegassem mais cedo. Não entendi direito quando minha avó tentou desenhar um diagrama do avião, dos fusos e tudo mais. Fui dormir.

Acordei um pouco antes da hora deles chegaram. Fui tomar banho, ficar bem cheiroso. Afinal, havia tanto tempo que queria deixar uma boa impressão. Senão bobear ele voltava pra lá com medo da gente.

Toca a campainha. Escuto os barulhos de mala, coisas mil. Ouço as vozes da minha mãe – sempre as mais altas de qualquer recinto. Não ouço as dele. Só falta ele ter preferido ficar lá!

Minha mãe entra, sorridente e entupida de coisas. Cada membro seu segurava umas quinze bolsas – isso sem contar que a Dadá estava tentando manter o equilíbrio segurando doze malas. Nos viu e correu para o abraço.

A felicidade de ver seus pais depois de tanto tempo é algo avassalador. Lá estava ela de novo, linda, sorridente, correndo em nossa direção para um abraço carinhoso. Como é possível evitar algo assim?

A segurei com toda minha força. A entupi de beijos. Trinta dias é muito tempo.

Ouço a voz dele. Mais barulho de coisas. Ele fala com a minha avó, fala com a Dadá. Pergunta como estivemos. Estamos aqui oras! Pergunta pra gente!

Corri pra cozinha para abraçá-lo. No meio de bolsas e malas mil, pulei pra cima dele e não queria nunca mais soltar. Não estava barbudo. Estava igualzinho. Parecia que nunca tivera viajado. Decepção.

Após incontáveis beijos e abraçõs, nos reunimos na sala de televisão.Nos sentaram no chão. Vieram com trocentas bolsas e uma gigantesca mala.

Começaram a nos mostrar o que compraram, para eles e para nós. Muitas roupas, escarfes, casacos. Nada que queria. Tanta coisa inútil que estava ficando entediado. Depois de todo o nosso guarda-roupa atualizado, veio o que não esperava

Meu pai me traz um castelo enorme. Lembrava dele: era o Castelo de Greyskull! Onde He-man e Pacato e Mentor lutavam contra o Esqueleto e a Malígna! Tinha também uma prima dele, com uma música insuportável cantada pela Xuxa… não me lembrava o nome.
Vislumbrei aquele monstruoso brinquedo. Era quase do meu tamanho! Cheio de janelas, torres, portões. Perfeito! Ele fechado já era tudo o que poderia querer!

“Abre o castelo filho”, disse meu pai. “Aqui pelo lado”. Me mostrou uns dois ou três pinos que existiam no lado do castelo e me mostrou que ele abria para mostrar seu interior! Uau, não só era perfeito para brincar por fora, mas dava pra brincar por dentro! Quanta tecnologia!

Lá estava eu, minúsculo viking, abrindo o monumental Castelo de Greyskull que se encontrava perante a minha pequena pessoa. Assim que ouço o último clique dos pinos, meu pai abriu com força o castelo. Mal podia esperar para ver se tinha calabouços, escadas, passagens se-cre-tas!

O castelo se abre. Eu, sempre curioso, quis logo ver o que ele tinha de maravilhoso por dentor. Fui soterrado.

Quando abri o castelo, a turma inteira do He-Man, e possívelmente da She-ra, dos Comandos em Ação, Ursinhos Gumy, qualquer outro desenho que tinha uma linha de bonecos caiu em cima de mim. Eram centenas, milhares de bonecos. Fiquei envolto até a cintura de brinquedos. Vi na expressão do meu pai o que meu rosto dizia: completo torpor.

Se meu pai tivesse viajado mais uns três meses acho que ganhava a Harrods inteira.

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