Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


As aventuras do mini viking – Capítulo 7: Fiquei careca de saber
29-setembro-2005, 1:11
Filed under: As aventuras do mini viking

Morávamos no Portal do Morumbi, maravilhoso condomínio de nove prédios, quatro quadras de tênis, duas polivalentes, três piscinas, sauna, clube e um campo. Ah, e dois pequenos bosques. Um com uma cachoeira.

Bom, cá estava eu, pequeno viking de oito anos, indo pra casa do clube quando cai um temporal daqueles. Ainda bem que estava voltando da natação, então só iria me molhar mais um pouco. Como chovia naquela hora. Tempestades em São Paulo, por alguma razão, parecem ser maiores do que as daqui do Rio.

Pois bem, já estabelecemos o fato que chovia canivetes. Estava saindo do clube. Ouvi um barulho. Um miado desesperado.

Naquela época não tínhamos bichos em casa. Trauma do meu pai. Imagina ter que cuidar de cães, gatos, galinhas, marrecos e um chimpanzé – sim, um chimpanzé – sozinho na sua infância. Teria trauma também.

Sigo o miado para achar, escondido entre duas latas de lixo, completamente ensopado, um lindo gatinho. Atordoado e assustado, miava incessantemente enquanto cataratas de água caíam sobre seu corpo trêmulo. Olhou então pra mim com uma expressão de total desespero, total clemencia.

Não aguentei. O peguei em meus braços, cobri seu corpo com meu roupão da natação e corri pra casa. Lá, arranjei uma caixa de Maguary (meu pai trabalhava na reestruturação da Fleischmann Royal, subsidiária da Souza Cruz, para em breve a ser vendida pra a Nabisco), forrei seus cantos com um cobertor de lã e o coloquei, agora seco, na caixa debaixo de uma lâmpada, para mantê-lo quente.

A chuva fazia um barulho ensurdecedor. Minha mãe me ajudara a fazer a caminha dele, mas em todos os momentos me alertou para o fato de termos a ausência do meu pai em casa. Ele chegava do trabalho em breve, e eu com certeza escutaria muito. Mesmo assim não poderia deixar o Garfield (ele era laranja com traços pretos) na chuva, pedindo ajuda.

Meu pai chegou. Surtou. Exigiu que o bicho fosse embora assim que terminasse a chuva. Disse que não se pegava gatos assim da rua, que eles trazíam doenças.

Mas entendeu o que fiz e disse que tivera sido bonzinho com o bicho. Fiquei surpreso e feliz. Não queria ficar com o Garfield – só tirá-lo da chuva.

Fiquei com o bichinho lá no quarto, debaixo da lâmpada, a noite toda. Não parava de chover torrencialmente. O deixei ao lado da minha cama, e fiz carinho nele enquanto dormia. Adormeci com a minha mão na caixa.

Acordei e fazia sol. Prontamente, antes mesmo de me preparar pra ir pro colégio, levei o Garfield de volta pro lugar onde o achei. Não antes sem dar-lhe uma boa refeição. Não se pode ficar sem o café da manhã, minha mãe sempre dizia.

Voltei pra casa, tomei meu banho, meu café e fui pro colégio. Tudo correu como o esperado. À noite, fui tomar meu outro banho do dia e escovar meus dentes.

Meu cabelo coçava. Achava que tinha piolho. Coçava muito.

Chamei minha mãe quando parte do meu cabelo apareceu entre meus dedos. Quando mais coçava, mais cabelo aparecia. Minha mãe chegou no banheiro e deu um chilique natural. Estava perdendo cabelo!

Fui direto ao dermatologista no Albert Einstein. Coletaram isso, analisaram aquilo. Veio o diagnóstico.

“Você esteve em contato com algum animal recentemente?”, perguntou o dermatologista.

“Sim, ontem trouxe um gatinho da chuva.” Resondi com a voz já esperando o inevitável ‘I told you so’ do meu pai.

“Esse gatinho te deu um sadofiasdofih, que é uma irritação da pele. Por isso você perdeu cabelo nessa área. Você deve ter coçado o cabelo ali depois de brincar com ele.”

Minha mãe olhou pros lados, eu olhei pros lados. Iríamos escutar muito, mas muito quando chegássemos em casa. Saímos com uma receita de remédios e pomadas.

Meu pai falou demais. Merecemos cada palavra. Fiquei careca por algumas semanas.

Nunca mais mexo com gatos de rua.

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