Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Windsor
31-outubro-2005, 1:18
Filed under: Estrada

Escrevo-lhes de Windsor, ao lado do castelo belissimo de verao da rainha. Infelizmente estou num cyber cafe, entao nada de suporte ao nosso querido idioma.

Que beleza de lugar esse. Escrevi ontem dois posts que quero compartilhar com voces assim que puder. Estar aqui, presenciar isso tudo eh algo de maravilhoso pra mim. Inexplicavel.

Hoje fui a minha antiga escola, TASIS. Encontrei a mulher mais importante da minha vida, Ros Morgan, minha professora de teatro. Chorei ao chegar perto do palco onde comecei a me conhecer de verdade. Onde comecei a crescer e ser quem hoje sou.

Combinei me encontrar com ela outro dia para realmente botar o papo em dia. Nao consegui acreditar no momento em que a encontrei. Estava igualzinha. Nao tinha envelhecido um dia, apesar de ter estado fora por oito anos. Me reconheceu de cara, junto com todos os outros professores que encontrei. Foi bom demais.

Ouvi muitas coisas lindas da Ros. Elogios que nao esperava, que me comoveram muito. Chorei muito ao seu lado, lembrando da melhor epoca da minha vida. Do quanto nao quis voltar ao Brasil. Do quanto tentei, em vao, passar meu high school la, ao lado dela, aprendendo junto com ela tudo que queria.

Devo muito a Ros Morgan. Ela me ensinou a me olhar de fora, na tentativa de me enxergar por dentro. Fui completo enquanto estive no TASIS. Era muito feliz. Tudo era perfeito.

Minha vontade de ficar cresce a cada dia. Cresce a cada lugar que revejo, a cada pessoa que reencontro. Estar no TASIS foi estar no lugar que mais tinha vontade de rever. Foi estar em casa de novo.

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30 de outubro de 1938
30-outubro-2005, 5:24
Filed under: Abobrinhas

Era véspera de Halloween, 30 de outubro de 1938. A 2ª Guerra Mundial parecia inevitável. Os pacto de Munique, firmado um mês antes, criavam uma tensão quase palpável. Notícias sobre a situação política européia interrompiam a programação das rádios americanas constantemente. Todos se encontravam com os nervos à flor da pele.

Nesse fatídico dia o grupo de teatro Mercury, liderado pelo brilhante Orson Welles, entrou no ar e levou ao pânico mais de 1 milhão de pessoas nos EUA, provocando fugas, abandonos de lares e umas tantas quebradeiras.

Essa gravação é, pra mim, o primeiro e possívelmente o maior exemplo do poder da mídia sobre a população. É a mais importante demonstração de criatividade na história do rádio.

Baixe a gravação aqui.

Orson tinha 23 anos, como eu. O que será que preciso fazer até abril do ano que vem para marcar meu nome na história?



Rosa
26-outubro-2005, 7:29
Filed under: Abobrinhas

Então morre Rosa Parks. Morre pacificamente em casa, aos 92 anos. Depois de uma vida de luta, descansa em paz.

Rosa foi corajosa. Em 55, se recusou a ser mais uma vez segregada, humilhada. Foi presa para libertar os Estados Unidos do apartheid. Foi forçada a se mudar para Michigan em 57 depois de ter sido ameçada de morte.

Rosa deu início ao movimento negro americano. Trouxe Martin Luther King à tona. Deu espaço, no Sul, para ouvirem os negros. Foi a porta-voz de um povo que até hoje é discriminado e maltratado.

Essa linda mulher é o exemplo da luta incessante por direitos igualitários no mundo. Ela representa uma luta que parece não ter fim. O racismo ainda domina todas as facetas da sociedade, e num país como o nosso, visto como aberto e desprovido de preconceito racial, encontramos sim muito racismo. É preciso mudar isso.

Rosa Parks merece.



Meu canal
25-outubro-2005, 7:31
Filed under: Diatribes

Tive uma conversa sábado com uma maravilhosa amiga, e nessa conversa ela trouxe à tona o fato de que não gosto dos scraps do Orkut por achá-los uma invasão de privacidade, mas no meu perfil do site coloquei o meu blog, diário onde conto muitas coisas minhas. Disse que existia uma grande hipocrisia nisso tudo. Eu até concordo, mas discordo ao mesmo tempo.

Esse blog é, pra mim, um canal de me expressar, de mostrar quem sou, o que tenho a dizer e, sim, contar relatos da minha vida. É um exercício de abertura que nunca tive na minha vida. É minha análise.

Minha amiga também comentou o fato de só escrever o que escrevo para saber qual é a opinião dos outros. Pra ser elogiado, criticado, etc… pra ser reconhecido de alguma forma. Nisso concordo plenamente. Quem tem um blog quer ser lido. Quer causar polêmica, criar discussões, ser reconhecido de alguma maneira, expor-se, dar a cara ao tapa. É sim, como bem disse ela, um lugar onde posso exercer minha veia literária e dar espaço ao meu egocentrismo. Quero sim ser reconhecido, quero me sentir lisonjeado (thanks Viva) quando me congratulam, discutir (ou até concordar, vejam só) quando discordam de mim, rir quando me sacaneam, chorar quando me dizem coisas bonitas.

Criei em muito pouco tempo uma amizade forte com diversas pessoas da blogosfera nacional. Os chamo de grandes amigos pois é isso mesmo que são. Me conhecem como poucos, me entendo com eles como poucos, os gosto como poucos.

Se não gosto de ter minha privacidade invadida no Orkut, é porque não quero ter pessoas sabendo do meu dia-a-dia, e sim do que quero expor ao mundo. EU escolho o que contar sobre minha vida. Não quero ter pessoas bisbilhotando quem me manda qual mensagem e porque. Já tive problemas com isso, quando duas ‘pretendentes’ se descobriram no meu scrapbook. Não devo nada a ninguém, e só digo o que quero. Entendo a curiosidade das pessoas, mas não sou assim e não quero que outros tenham a possibilidade de saber o que não quero que saibam de mim.

Esse blog é meu diário, meu espelho. Mas só mostra o que quero, quando quero. Nunca menti aqui, nem pretendo. Esse sou eu, do jeito que sou e com o que quero mostar à todos.

Se todos que acessam meu scrapbook viessem pra cá, descobririam o Bruno que querem. Não ficaríam restritos ao meu cotidiano, às pessoas esporádicas que resolvem falar comigo através de scraps. São as pessoas que acessam esse site diáriamente que merecem, e querem, invariávelmente, saber tudo de mim.



Gritantes diferenças
24-outubro-2005, 2:15
Filed under: Contos

Apesar das gritantes diferenças de personalidade, bastou uma troca de olhar. Ele, sempre comedido em ambientes como esse e ela, sempre efusivamente alegre e dançante. A música era uma dessas de praxe. Um hip-hop qualquer que sempre toca nesses lugares. Ele odiava a música com todo fervor. Ela dançava sem parar, cantando a música que sabia de cor e salteado.

Ele se divertia entre amigos. Era aniversário de um deles. Mesa cheia, mais ou menos dez pessoas batendo papo, discutindo política, música, projetos pessoais, futebol. Ela dançava com três amigas da faculdade. Acabara com seu último namorado fazia dois meses. Se sentia pronta para voltar a frequentar lugares como esse.

Enquanto ele discutia a importância de se embalsamar marxistas para servirem de exposição em museus por todo o mundo (na verdade, era sobre o novo meio-campo do Vasco… horroroso como todos os outros que lá jogavam), ele olha para ela em seu vestido verde, desses das pseudo-hippies da Lapa. Sua pele era banquinha. Seus pés perfeitamente descobertos numa sandália aberta. Ele tentava vê-los melhor. Ela pulava demais, não dava.

Voltando do banheiro ele a encontra no bar. Passa por ela, troca mais um olhar e pára ao seu lado. Pede uma água. Ela olha para ele, esperando que pedisse algo mais ‘tradicional’. Ele vira pra ela e diz: “Não bebo”, tentando disfarçar o bafo de Red Bull com whisky que tomara antes de ir fazer número um, “o que você pediu?” A bebida dela era um vermelho com azul misturado que ele nunca vira antes. Ela lhe diz o nome do drink. Algo estranho. Pouco importava. O fato de estar olhando em seus olhos era o suficiente.

Perguntou então qual era o gosto do drink. Ela ofereceu a taça para ele. Mais uma vez, ela reiterou que não bebia. Ela então indaga: “Mas como você quer saber qual é o gosto se não quer beber o drink?” Ela então repara no olhar maroto dele e sorri. Os dois se beijam, despretenciosamente mas apaixonadamente. Trocam carícias ao som de um funk antigo tocando no segundo andar. Ela tenta rebolar ao som que escuta. Ele fica ali, ainda admirando seus cabelos cacheados.

Ele olha pra baixo. Procura as sandálias abertas. Aqui dá pra ver melhor. Repara no cuidado que ela teve com os pés. Não tinha outro jeito a não ser gostar ainda mais dela.

A noite passa, e eles ali, no cantinho, se curtindo ao som das mais variadas músicas. É simplesmente imcompreensível para ele ouvir todos os estilos musicais presentes no mundo compilados em quatro horas no mesmo lugar. Esse é o Rio. Ninguém tem gosto musical. Todos gostam de tudo porque todos gostam de tudo. Falta de personalidade é foda.

Ela descobre um pouco mais sobre ele. Ela conta um pouco mais sobre si. Falam de música, de interesses pessoais, de projetos de vida. Ela termina faculdade de jornalismo em dois anos. Ele não vê nela uma jornalista. Nem ela. Mais um retrato da Geração Diploma.

As amigas estão de saída. Os amigos dele já saíram faz tempo. Ele oferece carona. Ela diz que está de carro e as amigas dependem dela. Trocam telefones e prometem se falar.

Quinta-feira da semana seguinte tentam um encontro de verdade. Vão ver um filme num cinema Estação. Ela precisa acordar cedo no dia seguinte, então o filme é cedo. Ele tem futebol com os amigos, e visto que ela não pode ficar até mais tarde ambos se despedem e ela segue para casa.

Sábado ela o convida para sair para outra boate. Ele tem barzinho com os amigos. Pondera a situação e escolhe, com um certo grau de dúvida, claro, ficar no barzinho. Ouvir música insuportável por cinco horas não é entretenimento para ele. A convida para ir pro barzinho conversar. Ela tem uma prima do Sul que quer conhecer a boate. Combinam de se encontrar na semana seguinte.

Escolhem quarta-feira. Um restaurante japonês em Ipanema. Já é o terceiro encontro (verdadeiramente, é o segundo) entre eles. Ele pergunta como foi a boate. Ela diz não ter gostado muito, mas o que importou foi a diversão da prima. Passam a noite entre sashimis se conhecendo ainda mais. Cada vez se entendem melhor. A diferença de opinião de ambos, porém, é grande. Dá pra ver que não há nada em comum a não ser o prazer do beijo e comida japonesa. Ela até admite não ter gostado muito do filme no Estação. Ela na verdade não gosta muito de cinema.

Ele prontamente pergunta se ela gosta de axé. A resposta, esperada, é sim. Muito. Não perde uma micareta com as amigas. Ele a diz que não suporta axé. Muda então de assunto para não perder o interesse.

Ele a leva em casa, no Leblon, e ela o convida para escutar um cd de axé que tem em casa. Diz que ele vai amar se escutar esse. “Os outros são uma porcaria mesmo”, diz ela, com um sorriso contido. Não há como recusar um convite tão promissor.

Ela mora com o irmão num apartamento de dois quartos deixado pelos pais, agora aposentados, que moram no litoral paulista, onde a mãe dela tem parentes. O apartamento é muito bem cuidado, espaçoso e aconchegante, impressionantemente desprovido de barulho apesar da localização.

Encontram uma química incrível no quarto, ao som de axé. Ele ri enquanto tudo se desenrola. Quer mais um Cole Porter, um Miles Davis, um clichezíssimo Barry White. Axé é brincadeira. Chiclete com Banana ao vivo é ainda mais ridículo. Tenta esquecer os barunhos de ‘chiiiiiiclé-tê, obá, obá’ do som dela. Ele vê que ela se diverte. Cada vez mais adora o sorriso dela. É um daqueles marotos, bobinhos, apaixonantes.

Já são duas da manhã. Ele finalmente consegue, depois de muita tentativa, a única coisa que achara de bom nos álbums dela: o botão de ligar do som. Ficam no silêncio um tempo até cairem no sono. Acordam assustados às seis da manhã. Pelo menos nenhum dos dois se atrasou para o trabalho e para a faculdade.

Continuaram a se ver por um tempo. Se encontram, em média, duas vezes por semanas. Sempre se encontram sozinhos, a dois. Ele não gosta de boates. Ela não gosta de não ir a boates. Ele tenta, incessantemente, levar uns dvds pra casa dela. De ‘Conde de Monte Cristo’ a ‘Procurando Nemo’, são os desenhos que mais agradam. Ele nem pensa em levar um ‘Apocalipse Now’.

As diferenças que o atraíram no início já estão fazendo diferença. Ele começa a ponderar se quer apresentá-la a seus amigos. Quer saber se ela vale a pena. A resposta vem num momento oportuno: show do Chiclete com Banana, esgotado há sei lá quanto tempo, que ela já tinha comprado ingresso e ia com as amigas de qualquer jeito. Uma das amigas tinha torcido o joelho jogando tênis, então tinha um ingresso sobrando. Ela ofereceu, provavelmente achando que seria impossível ele recusar. Pois ele não só recusou como quis conversar com ela.

Cinco semanas depois de tudo começar, se encontraram pela última vez no mesmo restaurante japonês do segundo encontro. Era tudo escondido demais pro gosto dele, e não havia como continuar com alguém de gostos tão distintos. Chega um ponto que você procura algo a mais. Não havia um álbum sequer no quarto dela que ele gostasse. Tá, ele comprou ‘Bloco do Eu Sozinho’ pra ela. Ela escutou uma vez, com ele. Depois foi parar atrás de todos os álbums de axé e hip-hop que ela tinha.

Ela não entendia como ele não via graça em dançar a noite toda ao som de 50 Cent, Ja Rule, Latino, Babado Novo ou o Chiclete. Ele não entendia como ela não conseguia ficar sem isso. Tudo bem que não deram tempo para que os gostos se adaptassem, mas honestamente nenhum dos dois parecia querer realmente tentar. Deixaram tudo como estava, e prometeram permanecer amigos.

Até hoje ele ainda a encontra de vez em quando. A última vez tem três meses. A encontrou num pub com algumas amigas. Um pub. Dançavam ao som de U2 e Counting Crows. Não sabiam as letras, mas era um avanço. Ele perguntou o que ela fazia fora de uma boate. Quinta-feira não era dia de boate, disse ela, e a sua amiga de faculdade não gostava de boates. Ela era loira, alta, e muito, muito bonita. A tentação foi muita. Mas não dava pra ele dar em cima de uma amiga dela. Não assim, na frente dela.

Talvez outro dia, pensou ele.



A morte anunciada de Biajoni
21-outubro-2005, 2:09
Filed under: Contos

Estava na hora de vermos o fim de uma lenda viva da blogosfera. Biajoni is no more. Done with. Bereft of breath. Long gone.

Cortou o cabelo. Resolveu colocar um terno. Tentou virar gente grande.

Entrou na academia. Foi trabalhar os glúteos com Laércio ao som de Queen. Gostou demais da idéia que assumiu o bigode.

Foi nessa hora que tudo deu errado.

Bia, munido de um espírito avassalador, tornou-se o mariachi de Limeira. Empezó a hablar español. Não queria mais saber de nada a não ser tocar serenatas para as lindas morenas da pequena cidade paulista. Surtou. Não falava com mais ninguém, ficou recluso ao seu telhado, compondo músicas belíssimas sobre sexo anal e exaltando sérgio efe, seu grande amigo que tem nome espanhol.

Lembro de uma conversa que tive com ele há pouco tempo. “E ae Bia, como andam as coisas?”, indaguei eu, naquelas típicas tentativas de quebrar o gelo pelo MSN. “Muy malo amigo”, retrucou ele, “no sé lo que hacer. Tengo muchos problemas. Me olvido de todo. No quiero más hablar portugues. És una lengua perverza, llena de cabrones malos que solo quierem mi corazón, las chicas mi cuerpo. No sé se puedo vivir así por mucho tiempo.” Percebi então o quiprocó do meu amigo. Ser um mariachi num mundo tão vil é sinal de problemas sérios.

Ele me contou que não parava de compor. Mas havia um problema: Bia não sabe tocar guitarra. Bem que tentou, mas frustou-se por não ser um milésimo do Elvis Costello ou Lou Reed, por mais horrorosos que sejam. Confundia lás com sols, rés com sis. Quinta ou terceira casa?, sempre pensava ele, e com isso ficou cheio de pseudo-músicas no seu telhado.

Em belo dia tentou cantar uma de suas músicas para uma amada. Ficou tão desafinada que a amada riu. Riu dele, riu de sua música. Quebrou seu coração em pedaços indo se encontrar com um rock star com pinta de anos oitenta, de laquê e camisa de pirata, ainda rindo de sua cara. Decidiu que era hora de se vingar.

Pegou sua caixa da guitarra. Decidiu que guitarra ela não mais carregaria. Trocou o forro, instalou uma calibre doze e se preparou para o embate final. Por sua honra tinha que matar o cabrón apestoso que ferira seu corazón partido.

Deu um carinhoso beijo em Laércio, seu companheiro de tantos exercícios de glúteos na academia que o fez querer parecer o Freddie Mercury. Laércio ofereceu sua ajuda. Bem queria dar umas porradas em alguém. Tanta testosterona por nada. Merecia gastar isso tudo destruindo alguém. E inimigo do Bia é inimigo dele. Parceiro de academia é isso: irmão de anabolizante é irmão pra vida toda.

Bia disse que precisava fazer isso sozinho. Não queria envolver mais ninguém na sua intriga pessoal com os dois. Ela merecia morrer. Ele, merecia morrer por ainda usar um cabelo dos anos oitenta e gostar de camisas de pirata. Se tinha alguém que podia se parecer com alguém dos anos oitente, esse alguém era o Bia! David Lee Roth o caralho! Só tinha lugar em Limeira para um Freddie!

Bia partiu pra espelunca de bar onde os dois estavam. Tivera os seguido em seu pangaré Tobias por toda a cidade. Bia os chamavam de ‘pombinhos’ – ratos com asas que mereciam ser impalados em praça pública.

Chegou ao bar ‘Taverna da Pata Prenha’ exatamente às duas e trinta e dois da manhã. Os vira entrar há poucos minutos. Preparou seu arsenal. Os dois não sairiam de lá ilesos.

Olhou para as portas estilo saloon. Fez questão de dar uns dois passos pra frente para não passar vergonha e ser atingido pelas portas que acabara de chutar. Olhou com cara de matador por todo o bar. Saculejou-se todo, deixando o som de metal ecoar pelo agora silencioso recinto.

Gritou com toda a força do seu pulmão calejado de tantos maços de Carlton: “Rosalita, cadê você sua piranha! Destruíste meu singelo coração, mas pagarás caro por ato tão vil!”. Tratou de rastrear todos os rostos à procura de sua amada odiada. Onde poderia ter se escondido?, pensou ele. A vi entrar nesse instante nessa birosca!

Finalmente a avistou, semi-nua, atracando-se com Afrânio, vizinho de porta de Bia. Afrânio sempre dera em cima de Rosalita, até na cara do Bia. Isso sempre o enfureceu, mas acreditava na sua amada odiada. Agora toda a raiva que sentia aumentou exponencialmente. Suas veias pulsavam. Suas mãos tremiam. Suavam. Seu olhar, fixo e arregalado, não fugia dos dois.

Andou calmamente até a mesa onde se encontravam. O bar inteiro acompanhou a estranho clone de Freddie Mercury vestido de mariachi caminhar, case de guitarra na sua mão esquerda, cigarro Carlton vermelho entrelaçado entre seu indicador e dedo médio. Arrastava-se como um touro indomável, bufando fumaça e exalando testosterona. Esse seria seu grande momento – o momento da vingança total.

O casal se vira para contemplar a figura diante de seus olhos. Bia não mais era o Bia. Se transformara em Juan Manuel Gonzales Fernardez Herrera , temido matador hispano-chicano que assombrava as pueblitas do norte do México no começo do século passado. Portava em suas mãos a arma da destruição da traição. A arma que traria ordem e justiça ao mundo.

Afrânio olhou para Bia, devidamente vestido e com olhar amedrontador e disse: “Peraí Rosita (só ELE poderia chamá-la disso!), esse não é aquele GUEI que namorava contigo?”. E com sorriso maroto tratou de lascar beijo após beijo na amada odiada do nosso herói.

Rosalita o parou e indagou: “O que fazes aqui Bia? Já não era hora de você se mancar e de mandar dessa cidade? Já estás mal falado o suficiente! Fiz questão disso!”, e soltou uma bela risada maquiavélica, quebrando ainda mais o já destroçado coração do rapaz. Bia não aguentava mais. Precisava soltar todo o arsenal que guardara para essa ocasião.

Com um movimento digno de Antonio Banderas em ‘Balada de um Pistoleiro’, Bia clicou a abertura do case da sua guitarra e onde deveria estar uma Takamine Folk de aço estava uma escopeta calibre doze, que tratou de disparar duas balas no peito do Afrânio, traidor safado que era. Merceu cada grama de chumbo que entrou no seu corpo, o despindo de qualquer malandragem a caminho do seu leito de morte. Bem-feito.

Com Rosalita Bia foi mais cuidadoso. Sacou de sua manga uma faca borboleta, e com extremo cuidado banhou um pedaço do pano que cobria a mesa de Rosita em vodka. Bebida de quinta categoria, pensou Bia. Nem whisky tomam! Colocou esse pedaço no bucal da garrafa, agora pela metade, e tacou fogo no pano. Olhou com tremendo prazer o rosto de espanto e medo da sua amada odiada. Zuniu então o seu recém-feito coquetel molotov nela, cobrindo-a de chamas.

Rosalita, em chamas, correu transloucada pelo bar, agora um pandemonio completo. Pessoas se refugiavam embaixo de suas mesas, só para verem uma mulher em chamas tropeçar nessa mesma mesa e fazê-la pegar fogo. Em minutos o bar inteiro era um inferno – todas as mesas em chamas, e Rosalita caída ao lado da entrada, corpo já carvão.

Enquanto tudo isso acontecia, pode-se ver o Bia, sorrindo e dançando, a gritar: “Eu não sou GUEI! Eu não sou GUEI! Eu não sou GUEEEEI!”. O bar foi completamente destruído. Mais ninguém se feriu. Bia não foi visto saindo do bar.

Foi um final melancólico, mas coerente com esse nosso amigo. Bia sempre foi uma estrela num céu desprovido de tantas. Seguiu seu lema, antes proferio por um ídolo grunge: “It’s better do burn out than to fade away”.

Existem pessoas que dizem que o viram por aí, vagando de bar em bar à procura da sua nova Rosalita. Não acredito. Ninguém teria sobrevivo àquele incêndio.

Descanse em paz, molestador de Hello Kitties. Sentiremos sua falta.



Memórias de minhas putas tristes
20-outubro-2005, 7:34
Filed under: Livros

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Olha, não esperava nada desse livro. Nada mesmo. ‘Diário de um Naufrago’ foi, pra mim, bastante linear. Não diria chato, mas prolongado. Tal como ‘O Jardineiro Fiel’, sensacionalmente dirigido por Meirelles mas que se arrasta um pouco.

O livro trata de um jornalista que, aos noventa, encontra um verdadeiro amor. Conta suas memórias, suas inseguranças, suas quinhentas mulheres da vida, sua visão de vida chegando ao século de vida.

O livro é bom, bem escrito (ou ao menos bem traduzido) e é um deleite ler. Terminei-o em pouco mais de uma hora. São 127 páginas que fluem com facilidade.

O final é o melhor. Como deveria ser. Um pouco inesperado, pra mim, visto que pensava em outros acontecimentos para o final do livro. Ele termina um tanto rápido, sem muitas firulas – melhor assim.

Taí um livro do Márquez que recomendo a todos.