Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Conversa numa mesa de bar
10-outubro-2005, 2:59
Filed under: Politicalidades

Vamos ao assunto desse tal de referendo popular. Primeiramente deixo minha revolta com o fato de existir esse referendo. Aliás, me irrita, numa democracia, sermos obrigados a votar em qualquer coisa. Forçar qualquer pessoa a fazer qualquer coisa já não é, pra mim, democracia. O voto nulo representa nada mais que uma pessoa que não quer votar em ninguém mas é forçada a estar lá, enfrentar fila e votar em ninguém. Mas vamos lá.

Glauber vota sim. Impedir a comercialização garantirá pelo menos uma tentativa de mudar algo. Não dando certo, tudo continua o mesmo. Não mudará nada. Então vale a pena pelo menos tentar

Arnaldo vota não. Acha ridículo o Brasil dar prioridade à uma questão que não ajudará a diminuir a criminalidade no país. Acha que a propaganda da Globo é patética. Pensa nos fazendeiros que precisam de armas para se defender de animais e alguns bichos munidos de bandeiras vermelhas.

Glauber e Arnaldo sentam num barzinho para discutir o referendo. Sentam na mesa mais longe do ar-condicionado. Glauber não gosta do frio. Arnaldo, puto da vida, senta morrendo de calor ao lado do amigo. Glauber pede chopp claro. Arnaldo não bebe chopp e pede uma água com gás.

Depois de conversar sobre futebol e mulheres, eles finalmente chegam no papo do referendo. Glauber começa. Adora começar a falar antes do amigo. Sabe que isso o irrita profundamente. Arnaldo não deixa, fala mais alto e começa seu discurso com vontade.

“Olhá só, meu caro rapaz… o artigo 35 precisa ser lido com cuidado. Leia novamente o bendito artigo: ‘É proibida a comercialização de arma de fogo e munição em todo o território nacional’. Ninguém está mexendo no porte de armas! Ninguém tendo arma registrada será obrigado a devolvê-la, inclusive quem quiser ter uma arma vai precisar importá-la e registrá-la devidamente no orgão competente! Que coisa mais irônica, né? Não haverá nenhuma espécie de desarmamento!” Arnaldo já quase atingira um estado de total furor quando terminou esta última frase. Glauber esperava seu amigo acabar calmamente, entre tulipas de chopp estrangeiro. Acha qualquer cerveja brasileira asquerosa.

“Arnaldete, prestenção cara. Essa de não mexerem no porte de armas é uma parada meio lógica. Isso se chama direito adquirido, ou seja, alguém que exerça um determinado direito não pode tê-lo removido por lei nova. Assim, se lei nova diz que juiz não ganha mais salário, só passa a valer pra quem passar no concurso a partir da vigência da lei. E eu tb não vejo qual é o problema disso, honestamente. É simplesmente uma solução a longo prazo, justamente o tipo de medida que o Brasil precisa. O negócio é que estamos tão acostumados a ver nossos políticos resolvendo os problemas com um band-aid que achamos esquisito uma solução a longo prazo. E depois, qual a grande mazela que isso vai trazer? Basicamente, a situação vai ser a mesma por hora.” Glauber tomou mais um gole de chopp. Já estava na terceira tulipa e não pensava em parar por um bom tempo. Arnaldo já prepara a réplica…

“Tu não notou que o artigo, e consequentemente esse referendo, implica só com a comercialização? Por que será? Vamos lá…existe na lei do comércio exterior um ponto que diz: Um país só pode vender um produto para outro país, se a comercialização do mesmo tipo de produto for permitido no primeiro país. Ou seja, o Brasil só pode vender abacaxí para os Estados Unidos se no Brasil for permitido o comércio de abacaxís. O Brasil, portanto, não poderá mais vender sua produção de armas de fogo para lugar nenhum, visto que a comercialização no país é proibida! A indústria Americana agradece, seu babaca. Você sabia que o Brasil desenvolveu tecnologia e têm fabricado uma das melhores armas de baixo calibre? Que os exércitos de todo o mundo utilizam armas brasileiras? Que mais 99% da produção de armas brasileiras é para exportação? Que 90% das exportações de armas do Brasil vão para os Estados Unidos? E que isso representa apenas 20% do mercado americano? Sabia? SABIA??” Arnaldo está vermelho, bufando. Glauber acha que seu amigo deveria tomar uns chopps pra relaxar. Oferece o seu, mas vê que já terminou. Pede mais um. Dessa vez sem colarinho. Odeia esses garçons que enfiam colarinho pra enganar cliente. Diz que se não vier com menos de um dedo de chopp enfia a tulipa no cu do Arnaldo. O garçon ri.

“Arnaldina, pode até se que ‘99% das armas é produzida pra exportação’. Só que a indústria de armas de baixo calibre nem é tão grande assim. A Taurus, que é a maior fabricante de armas do Brasil, produz outras coisas além de armas. Não sei quando ela introduziu outros tipos de produto – tipo produtos de couro -, acho que foi quando apareceu uma legislação sobre porte de armas. O fato é que a Taurus já fatura mais com sua produção não-bélica do que com as armas de baixo calibre. O que o Brasil exporta mesmo são armas pesadas… o uso destas é proibido também, e exportamos do mesmo jeito. Então também não confio muito nessa de que só pode exportar o que for permitido. Não acho que seja tão simples assim.” Glauber olha pros lados. Porra, terminara sua parte da discussão e nada de cerveja. Está ficando com a garganta seca já. Arnaldo termina seu copo de água com gás, devidamente decorada com laranja, pra dar gostinho, e parte para a tréplica.

“É, parece realmente que só quero defender a industria bélica brasileira. Blasfêmia!. A indignação é muito maior. Notaram que tudo que o Brasil tem de bom (laranjas, aviões) os grandes países querem aniquilar? Comprando deputados e sei lá mais quem, conseguem levar leis como essa adiante. Sempre é a mesma história, uma farsa por trás de uma questão com apelo popular e emocional para garantir interesses baixos e desonestos. Todos sabem que as pessoas que mandam nesse país não merecem a confiança do povo, todos sabem que as coisas no Brasil não são como parecem ser. Mais uma vez esses corvos estão entregando os nossos interesses, os do povo, os do Brasil de fato. Mais uma vez estão enganando você. Decida-se meu cumpadi! Mas antes, por favor, entenda as coisas da maneira correta. E faça a opção conscientemente e não como gado guiado pela mídia comprada por interesses menores para distraí-lo dos verdadeiros interesses em jogo!” Arnaldo toca na estrelinha que carrega consigo, escondida, claro, dentro mochila de hemp que tem desde os tempos da faculdade.

“Ah não Arnaldo! Aí tu tá de sacanagem mesmo. Pera lá, porra. Os EUA é que estão armando tudo? Não seria mais fácil então simplesmente instituir a lei e pronto? Acho pouquíssimo provável, cara. Não haveria porque fazer o referendo. Lembre-se que, em tese, os EUA financiaram o Collor e o governo militar. Eles não precisam de meios tão sutis assim. Muita – eu disse MUITA – gente morre por causa de armas na mão de civis. Muita gente mesmo. Seria muito injusto manter as armas circulando por um motivo econômico ínfimo. Sim, porque a indústria bélica do Brasil pode até ser voltada pro mercado externo – embora 99% seja exagero -, mas não é uma parcela significativa da economia brasileira. Garanto que o país não vai nem sentir esse impacto econômico. Se a indústria bélica dos EUA vai crescer 1% por conta disso, não tô nem aí. Isso não vale as mortes causadas por filhos que pegam a arma do pai e saem matando os colegas na escola.” Glauber pede licença e vai ao banheiro. Cinco chopps são o suficiente pra enchar a bexiga quase ao ponto de ruptura.

Quando volta do banheiro, pensando nos trinta outros chopps que quer pedir, vê Arnaldo cercado de pessoas estranhas. Lhe parecem, estranhamente, capangas contratados. Específicamente de Aracaju. Não sabia como sabia, só sabia que sabia.

“Liguei pro Rafa, seu viado. Ele e seus capangas também votam NÃO!” Arnaldo parte pra cima do amigo, seguido pelos capangas. O enfiam de porrada até Glauber pedir arrego.

Glauber mesmo assim não muda seu voto. E vocês?

(valeu, Dakr)

(publicado no extinto Nós na Rede)

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