Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Adio
24-dezembro-2005, 6:59
Filed under: Abobrinhas

Deixo aqui meus sinceros, singelos e carinhosos desejos de um Feliz Natal e um Feliz Hanuká a todos meus queridos amigos… e não devo entrar aqui até o ano novo, visto que viajo para Guarapari dia 26 e só volto dia 4.

Vou perder a linha na Mais. Alugamos um apartamento e essa tem tudo pra ser uma viagem memorável.  Feliz ano novo a todos!



Dúvidas
22-dezembro-2005, 11:54
Filed under: Hospitalidades

Fui ver o super-hiper-duper-oncologista. Conversei bastante com ele. Escutei tudo o que ele disse, pensei em tudo que ele me contou, ponderei os pontos positivos e negativos apresentados.

Vejam só… todo o processo de quimio é destinado a matar as célulcas cancerígenas ainda (se existirem) presentes no meu corpo. É veneno injetado na minha corrente sanguínea para eliminar – ao máximo – a possibilidade de metastase em algum lugar. Aí vem a decisão. Existem três tipos de tratamento a se pensar.

O primeiro é a cirurgia no retroperitônio, glândulas minúscula localizadas no cólon e para onde o câncer de testículo irá se ocorrer metastase. Sem sombra de dúvida. As glândulas são tão pequenas que não dá para ver na tomografia nem no pet scan.

Problemas da operação: impotência e ejaculação retrógrada. Mas o que é isso Dr. Freitas? Meus caros leitores, ejaculação retrógrada é quando, durante a operação, a ligação entre o testículo pode ficar comprometida, e toda ejaculação a partir da operação pode seguir para a bexiga ao invés da uretra. Significa que pouquíssimos espermatozóides seguirão seu caminho natural. Infertilidade assegurada. Então é a possibilidade de impotência ou infertilidade. No thanks.

O segundo é quimio. Quimio, bem, é quimio. Veneno no sangue. Possibilidade de redução quase total da fabricação de esperma, problemas cardiovasculares e respiratórios, complicações renais e, tãrarã, leucemia. Sim, curando câncer ganha-se outro, pior e devastador.

Mas se consegue a certeza de tratar com a quase total cura. 95% de chance. Melhor do que menos.

Ah, um adendo: meu câncer, de acordo com o nível de beta-HCG, quase seis mil, é considerado intermediário. os 16% já passaram para uns 20-25% de ter de novo. No retroperitônio, com total certeza. Sempre começa lá.

O terceiro é a observação. Controle a base de testes de sangue, tomografias, pet scans. Um exame por mês no primeiro ano, um a cada dois meses no segundo, um a cada três meses no terceiro e um a cada semestre no quarto e quinto. Esse câncer só cria metástase nos primeiros dois a três anos, but you never know.

Reduz a necessidade de fazer a quimio, que, de novo, é veneno no corpo, e, se descoberto algo no retroperitônio, é tão curável quanto tratar agora. É isso que o super-hiper-duper-oncologista me disse ontem. Tenho que acreditar nele, né?

O que faço? Cirurgia is out of the picture… quimio ou tratamento por obsevação?

(updeite importante)

Esse super-hiper-super médico foi o terceiro oncologista que vi. Além dele vi dois diretores do Inca que tiveram quase a mesma opinião, mas não foram tão incisivos quanto ao não-tratamento inicial de quimio. Os outros dois, também excelentes médicos, deixaram a meu critério fazer ou não a quimio, mas também disseram que não seria ‘errado’ ficar em observação…



Arivedecci, bella ragazza mia
21-dezembro-2005, 6:45
Filed under: Abobrinhas

Minha linda Ferrari. Carro que me acompanhou durantes tantos carnavais, foi cúmplice de tantos crimes, amiga de tantas horas. Vou sentir sua falta.

Troco você não por prazer, mas por necessidade. Não sei se fico no Brasil, e mesmo não querendo ser injusto, os anos estão lhe tornando um pouco complicada. Ainda adoro poder levar você ao cinema, teatro, barzinho. Foi um prazer fazer você conhecer Minas, São Paulo, quase todo o estado do Rio de Janeiro.

Mais de uma vez precisei de você para clarear a cabeça. Ir contigo à qualquer lugar dessa cidade, só para poder sair daonde estava. Quantas vezes me viste chorar, rir, amar.

Sempre guardarei as melhores lembranças suas. Saiba que nunca me esquecerei de você. Terás sempre um lugar guardado em meu coração.

Mas está na hora de dizer adeus. Está na hora de não mais nos vermos. Nosso tempo passou, por mais que me doa, e muito, dizer isso.

Adeus Ferrari. Te amo.



Sincronia
17-dezembro-2005, 11:50
Filed under: Abobrinhas

Coisa estranha esse tempo. Ele passa, te faz esquecer certas coisas, certos alguéns, mas depois ele sempre volta a fazer alguém sorrir de algum jeito. Quase seis anos já tinham se passado. Seis anos…

Ele não a via desde logo depois do colégio. Não a via há tanto tempo que me esqueçera dela. Lembrava com saudosismo dos tempos perdidos de colegial, das pessoas que nunca mais tinha visto, dos rostos lembrados e nomes esquecidos.

Volta a rever rostos amigos esquecidos. Volta a lembrar não só com saudosismo, mas com a verdade do momento, da companhia física de pessoas tão queridas e até hoje tão distantes. E também estava lá ela, igualzinha aos velhos tempos.

As trocas de olhar foram idênticas. A sensação foi idêntica. Estranho esse tempo, que nos faz esquecer momentos tão especiais. Ele pensa em voltar a vê-la. Voltar a estar com ela. Lembrando de tempos passados e curtindo tempos presentes.



Meu orgulho
15-dezembro-2005, 9:40
Filed under: Abobrinhas

Não é à toa que amo demais essa minha lindinha afilhada. Estamos no cinema vendo as Crônicas de Nárnia. Cinema cheio aqui em Juiz de Fora, cidade onde moram meu tio, tia e primas. A mais nova, Bruna, teve uma apresentação de teatro e viemos de surpresa. Como chegamos cedo, tínhamos tempo para ver o filme.

Sala cheia, entupida de crianças. Fila enorme, atraso no começo do filme. Começa o filme, tudo corre bem até que crianças começam a fazer barulho, jogar latinhas de refrigerante pelo chão e brincar de jogar pipoca uns nos outros. Ana vira pra mim e diz:

“Não aguento essas crianças. Se não estão aqui para apreciar e assistir o filme, para que vir? Gente mais imatura…”

Ela tem seis anos. Como amo essa menina. Pelo visto estou a ensinando direitinho as coisas.



Beta-HCG de cu é rola
14-dezembro-2005, 9:38
Filed under: Hospitalidades

Ontem foi dia dia consulta no oncologista. Bom, já sabem de toda a histologia do tumor, então não preciso entrar nisso tudo de novo. Eis as novidades…

Bem, para começar meu nível de Beta-HCG, que estava estupidamente alto, baixou de 5700 unidades por seiláoque para 69. Dos males o menor, né? Nem tanto… o nível normal de um homem, não usuário de maconha, é de menos de 3. Ou seja, ainda está alta para uma pessoa que, em tese, tirou o tumor todo.

Como não havia nenhum linfoma fora do testículo, pode-se concluir que sim, de fato, células cancerígenas passaram para meu sistema. O doutor tem total certeza que meu nível de Beta-HCG baixará a zero, e que há sim a possibilidade boa de só acompanhar, por dois anos, o que acontecerá. Existe, mesmo com todos os bons prognósticos que me deram, 16% de chance de eu desenvolver cancer de novo se não fizer qualquer tratamento pós-operatório.

16% too much.

Portanto já está marcada a quimio. Começa dia 9 de Janeiro. Dez sessões espalhadas por seis semanas. Dois ciclos. Perda de cabelo é um fato, mas estranhamente só o da cabeça mesmo. Sombrancelhas nunca e barba quase nunca. Serei um skinhead barbudo. Sensacional.

Enjôos são comuns, mas nunca muito fortes. Os efeitos colaterais são absurdos, então nem vale a pena descrevê-los. De resto, vida normal: academia, praia, cinema, teatro, World of Warcraft. Tudo na mesma.



Minha pequena bailarina
12-dezembro-2005, 12:37
Filed under: Diatribes

Pela primeira vez, ontem, parei para pensar no futuro.

Minha afilhada Ana Luiza, amor da minha vida, se apresentou no colégio ontem. Era uma palhaçinha num espetáculo sobre o circo. Não consegui conter minha emoção.

Desde o primeiro segundo em que entrou no palco, comecei a sentir o choro vindo, daquele que não dá para conter. Fiquei segurando ele até ela sair do palco, e no momento em que não mais a vi, ele veio. Devastador. Chorei muito. Chorei como não tinha há muito tempo.

Chorei porque pensei no quanto quero filhos. O quanto preciso de filhos. Maria Eduarda, Lucas e Melissa. Nessa ordem. Pensei também, pela primeira vez, no fato de querer alguém ao meu lado. Foi a primeira vez em anos que realmente me sinto assim.

Quero alguém para segurar minha mão na quimio. Quero poder olhar nos olhos de alguém e sentir um calafrio inexplicável passar por mim. Quero poder ter alguém para pensar comigo em ter meus três filhos.