Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


The Gathering – Via Funchal, São Paulo
16-março-2006, 6:18
Filed under: Música

Onze da noite, dia 2 de Março de 2006. Converso com o Mano no telefone. Deixamos tudo marcado. Amanhã tenho quimio, de depois tenho que correr para o aeroporto. Marquei um vôo às seis da noite pela TAM. Vou chegar na hora lá. O show é às oito.

Acabo chegando cedo no aeroporto. Não tem ninguém no Terminal 2 do Galeão. Check-in mais do que tranquilo, sento no saguão dos restaurantes para comer algo e ler. Compro o Lance!, The Economist e a Super Mentirora-mas-Interessante. O tempo passa, e sigo para o portão.

Estranho de cara que tem três vôos para o portão 29 em questão de 15 mins entre eles. Penso até que é um sinal de organização do aeroporto – afinal, se conseguem isso a coisa tá muito boa. Mas óbviamente não era o caso, e no último minuto avisam que mudou o portão e aquela penca de pessoas sai andando. Ô, Brasil.

Acho que nunca vou conseguir entender a aglomeração das pessoas na hora de embarcar. Principalmente visto que os assentos são marcados. Pra que a pressa? O avião não decola sem os passageiros, então ficar disputando lugar na fila com idosos, crianças e executivos estressados realmente é algo deveras estúpido.

Vôo tranquilo, apesar de ter atrasado um pouco pela troca de portões. Chego exatamente às 19:03. Ligo o celular. ‘Mano, cheguei. Fudeu cara, não vai dar pra passar no hotel. Vou direto. Como foi de viagem?’

Mano tinha chegado mais cedo, pois pretendia passar o dia com a prima em Sampa, pegar os ingressos com o pessoal da produção e curtir um pouco o dia. Não pude acompanhá-lo por causa da quimio. E nem a prima dele, que teve que cancelar na última hora. Acabou que ele pode descansar tranquilo no Fórmula-1 da 9 de Julho. Aliás, é 70 pratas pra três pessoas, meu povo. Preço sensacional por um lugar bacana, limpinho e muito bem localizado.

Saio do aeroporto e pergunto a um segurança qual o melhor ônibus até o Via Funchal. ‘Taxi?’ pergunta ele. ‘Não rapaz, quero um ônibus. As coisas não são assim’ tento eu, no auge da minha simpatia. ‘Mas o senhor veio de avião…’ tenta em vão o segurança, enquanto já me dirigo para outra pessoa para fazer a mesma pergunta.

Eventualmente chego no maluquinho do isopor perto do ponto de ônibus na frente do aeroporto. Ele me dá todas as direções e chego sem problemas até o ponto, ao lado de uma grande torre de transmissão e de um quartel. Enquanto espero pelo meu ônibus, vejo uns três com ‘9 de Julho’ escrito. Só pra dizer que não vou poder passar no hotel para tomar um banho. Murphy. Sempre ele.

Como os ônibus em São Paulo são piores que os do Rio. Incrível. Parecem todos de trinta anos atrás, e sem manutenção. Não vi sombra de um moderninho como alguns dos daqui, com ar, letreiro eletrônico, bancos acolchoados e tal. Mas tá 2 reáu lá. Aqui já chegou a 2,20 no com ar-condicionado. Pelo conforto, já que está um absurdo o preço, sou mais os daqui.

Com a ajuda de um paulista bacana, pego o ônibus e peço pro cobrador me dizer quando saltar. São Paulo é realmente uma cidade de encruzilhadas infinitas. Um mar infinito de concreto, cortado por algumas avenidas maiores. Depois de pouco tempo, passo por uma padaria que lembro. Pelamordedeus, consigo passar por uma esquina que lembro perfeitamente quando viajava pra lá em outubro passado. Cidade gigante, mas lá estava a padaria pé sujo. Achei sensacional.

Salto e acho a casa da shows tranquilamente. Ligo para o Mano e o encontro na bilheteria. São 19:58. Dois minutos antes da hora prevista para começar o show. Isso é que é planejamento.

Estava com uma mochila. Quando fomos entrar, o segurança da casa pediu para que abrisse. Disse a ele que só tinha roupa, que tivera chegado naquele instante do aeroporto e o chefe do local olhou pra mim e me liberou sem qualquer revista. Poderia estar carregando uma uzi. Pena.

Consigo entrar no banheiro e trocar de camisa. Mascaro a nhaca com desodorante e tasco um novo pano pelo corpo. Lavô tá novo, né?

O show começa com a banda Ashtar. Banda essa cuja vocalista foi responsável por trazer o The Gathering para o Brasil. Devo muito à essa menina. A prima do Mano a conhece, e conseguimos os ingressos sem fila por causa disso. A banda é muito profissa, toda um metal progressivo com muitas influências de música celta, a lá Tuatha de Danann. Tinha uma equipe maior que a banda principal da noite! Dinheiro gera resultado.

Depois de uma hora de show, esperávamos a grande atração da noite. Eu, pessoalmente, não sabia o que esperar. Gosto muito de The Gathering. Aprendi a gostar de verdade no inverno de 2004, quando viajei para o Chile e levei o álbum ‘Souvenirs’. Desde então sou fã. E também estava louco para ver Anneke van Giersbergen ao vivo. Minha angústia foi devidamente recompensada.

Quando entra no palco, ela domina todas as atenções. A banda é muito simpática e se espanta com o calor do público, muito diferente do da Europa que é bem mais frio e parado. Mas ela é um caso à parte.

Anneke é meiga. Anneke é linda. Anneke tem uma voz surrealmente poderosa e bela.

Não dá pra chegar a explicar o quanto ela é cativante. Seu sorriso, eternamente estampado, faz seu rosto brilhar. Seus trejeitos são cativantes. Seu jeitinho de cantar é de deixar qualquer um louco. Sua voz entra em seus ouvidos e não tem como você fechar os olhos e viajar. Depois, quando os abre de novo, ela o abençoa com uma imagem perfeita. Assisti-la cantar foi realmente uma benção.

Show sensacional aquele. Simplesmente sensacional. Todos cantando todas as músicas, os músicos claramente espantados e felizes pela recepção mais que calorosa do país e o desejo fulfilled de conseguir ver uma banda que tanto gosto, numa hora que tanto precisava.

Voltamos cedo, bem cedinho, para o Rio para que eu pudesse fazer minha quimio. A carona demora, chego tardão à clínica, mas pouco me importo. Tenho desculpa boa e a uso. ‘Estava em São Paulo. Me atrasei. Desculpa.’

Obrigado Sulli, pela força. Obrigado Mano, pela companhia. Obrigado pai, pela grana. Vocês me deram umas horas muito especiais. Valeu mesmo.

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