Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Baronetti – A Missão
10-abril-2006, 2:18
Filed under: Abobrinhas

Era um dia quente. Muito quente. Apesar de já se passar da meia-noite, o ar era estafanta, úmido, desesperadoramente sufocante.

Ele chega sorrateiro, meio envergonhado, ao templo da perdição. Não queria estar ali. Fora levado por motivos de força maior. Sabem como é. Caminhando vagarosamente, tentando não ser visto, gritam seu nome…

‘Bruno! Aqui!’ Os gritos vieram de uma voz doce, linda.

Ele avista Patrícia, amiga de longa data que já estava entranhada lá dentro, perto da entrada do templo. O chamava efusivamente, quase se sufocando de tanto nervosismo. O fato de estar espremida entre dois negões de cinco metros de circunferência não ajudava também.

‘Entra logo! Estamos na fila há vinte minutos e nem entramos! Fala lá com o segurança e com a Bombom!’ Estranhas palavras permeavam em sua mente. Bombom? Eu hein…

Dando a volta na entrada, ele se depara com um mar de pessoas de cheiros caros, roupas idem, à procura de um lugar dentro do tempo. O segurança o chama para entrar pelo lado da fila. ‘Convidado do Pedro e da Tatá?’ pergunta ele. ‘Erm, sim… isso mesmo.’ A resposta sai baixa, quase sussurrada. A vergonha era tanta que ele não queria que sua voz fosse escutada. Já bastava estar lá, divindo o mesmo ar que um povo estranhíssimo.

Um pivete chega do lado dele. ‘Olha só,’ diz ele, ‘um gringo careca querendo entrar!’ Ele vira-se e solta: ‘Gringo nada rapaz. Xispa!’ O moleque foi visto em Guadalupe três dias depois, com olhar de horror ainda estampado em seus olhos de futuro meliante.

Bombom, mulata bonita recheada de crachás, rádios e passes ‘vips’ aponta para um segurança. Num movimento brusco, porém me-ti-cu-lo-sa-men-te calculado, ele se dirige ao segurança perto da fila de pessoas cheirando à perfume caro. Bastou um olhar, uma mudança sutil de sua mão para que a mensagem fosse passada com perfeição.

‘Deixa o careca entrar.’ O segurança não entendeu quando ele riu bastante. Bastava mudar o artigo e seria tão diferente a frase…

Esquivando-se como pode, ele finalmente chega perto de seus conhecidos. O recebem com carinho. Beijos daqui, abraçõs dali. Por pouco tempo ele se sente um pouco mais tranquilo. Eis que o negão de circunferência avatajada solicita com carinho que ele se mexa e siga para a porta de entrada para o templo. E lá vai ele, coitado, indo desperdiçar dinheiro como tantos outros acéfalos dessa cidade tudo menos maravilhosa. Só que ele não se considera um acéfalo. Longe de ser considerado remotamente normal, pelo menos algum tipo de pensamento, por mais obscuro e estranho, ronda sua pobre careca. E personalidade (todas elas) não lhe falta.

Entram seus amigos. Os vê com certa melâncolia adentrar as portas do templo. Não tem mais volta, pensou ele. Agora é entrar e se entupir de cafeína para aguentar a noite.

A porta atrás do balcão ao lado da porta pede sua identidade. Prontamente atendida, começa a teclar no tecladinho as teclas que correspondem ao seu nome. Olha a tela, olha a careca, pára e suspira. ‘Desculpa senhor, mas temos um problema.’

Era só o que me faltava, grita ele internamente. Murphy não desiste! O que será que aconteceu? Que novo imbróglio apresentar-se-á em sua vida, tornando-a um inferno sem fim? Porque tanto sofrimento? Porque tanta vergonha? Porque tanta DOR?? Tá, nada disso passou em sua cabeça. Ele só sorriu e pediu para chamarem o gerente.

A porta perto da porta ligou em seu super radinho do tempo da perdição para o gerente. Disse que em breve ele estaria com ele, e no meio tempo sugeriu que ele se enfiasse num lugar impossível entre a fila de acéfalos para esperar o indivíduo aparecer para lhe agraciar com sua presença. Como cidadão calmo, pacato e educado, ele fica expremido à espera do dito cujo.

Quinze minuto e nada, como esperado. Seus amiguinhos, percebendo sua ausência lá dentro, colocam a cabeça para fora da porta e perguntam o que está acontecendo. Ninguém sabe, ou ninguém quer dizer. Máfia nefasta, pensa ele. Mato todos quando isso acabar! Esse segurança, coitado, metido no meio disso tudo como porta-voz da gerência será poupado. Mas só ele. Começo com essa vadia da porta…

Mais tempo de passa, e Bombom vira sua amiga. Conversam horrores sobre o estado da política nacional, termodinâmica e os efeitos da política errônea de Bush no cenário socio-economico mundial. Isso tudo enquanto ela distruibuía passes vips, escolhia quem era digno de adentrar seu templo e conversava com os negões gigantescos. Prendada ela.

Cinquenta minutos se passaram e necatipitibiriba. Seus amigos já estão do lado de fora do templo, tendo cancelados seus passes e decidido não mais ficar lá. Ele até se sentiu mal por estar estragando a noite de seus amiguitos. Mas algo dentro dele o fazia ficar ali, procurando explicações para o absurdo causo que se desenvolvia há quase uma hora. Pensava em processar o templo. Iria alegar que skinheads são descriminados lá. Bombom ia adorar…

Ficou finalmente frente à frente com o gerentão. Bombom apontou para dois homens trajados de ternos e disse com um deles ele deveria falar. Um grande, outro pequeno. Um com ar gracioso, pomposo, quase real. Pele de ébano lisa, brilhosa. O outro parecia um perdido dentro do pano, desconfortável no papel exercido naquela hora. Pele de caatinga. Meninas conversavam com ambos. Algum problema se desenvolvia, seu faro aguçadíssimo detectada.

Ele se dirigiu ao gigante ébano, e foi diretamente dirigido ao Sr. Caatinga. Cazé era seu nome. Ar calmo, quase cansado, e uma educação forçada. Perfeita para sua posição no templo.

Pediu desculpas pela demora, alegando que o Juizado de Menores estava o alugando há mais de duas horas, e que as meninas ao seu lado tínham sido pegas e estavam sendo levadas prontamente para Guantánamo para interrogação. Aparentemente a nova política é que patricinhas menores de idade são um perigo para a sociedade igual aos terroristas. Ele concorda em gênero, número e grau.

Depois do exército americano carregar as duas meninas, gritando e esperniando, dando dor de cabeça à todos, Cazé virou-se para ele e explicou a situação. ‘Deu algum problema com seu nome e identidade.’ Uma hora para saber o mesmo que sabia há uma hora. ‘Vou ver no sistema qual é o problema e já volto.’ E lá se foi Cazé, demonstrando até certa preocupação. Falsa, claro, mas muito bem interpretada. Digna de Oscar.

Enquanto Cazé não voltava, os amigos desistiram daquilo tudo e foram embora. Ele ficou triste mesmo por ter estragado a noite deles. Mas uma pequena parte, ele admite, ficou feliz por tê-los tirado de lá. Por mais que estivessem revoltados com o lugar, revolta versus dinheiro desperdiçado naquele local ridículo tem vencedor fácil.

Quando olhava o relógio do celular pela enésima vez, e tínham se passado treze segundos depois da última vez – uma e trinta e dois e quarenta e nove segundos da manhã – Cazé volta sorridente. ‘Não há problema nenhum com seu nome senhor.’ Sua voz era de um amigo de longa data. ‘A menina da recepção (leia-se PORTA FILHA DUMA PUTA) deve ter digitado sua identidade errôneamente e bateu num cliente travado aqui no sistema. Como é padrão chamar a gerência nesses casos, foi isso que ela fez. Desculpe o transtorno. Onde estão os outros?’

‘Desistiram de esperar, coleguinha.’ Ele não estava nem um pouco feliz nessa hora, mas sua educação ímpar o impedia de destruir aquele cangaceiro imbecil. Seus punhos brancos e o suor que jorrava de sua careca quase o desmascararam.

‘O senhor não que entrar?’ Era até engraçada calma e simpatia dele. Irritariam até um defunto.

‘Valeu chapa,’ disse ele, ‘mas acho que a noite acabou para mim e meus bródis, né leske?’

‘Tome esse cartão aqui então,’ disse enquanto entregava a ele um cartão do templo com seu nome e assinatura, ‘e quando quiser voltar para cá, fale diretamente comigo que lhe darei uma noite agradabilíssima, cheia de riquinhas prostituídas e muito hip-hop na veia.’

E então ele seguiu, incrédulo, de volta para seu carro. Ligou para o amigo e pediu desculpas. Ainda vai pagar um almoço para ele pelo problemão causado. Deve a ele pelo menos isso.

Alguém quer um cartão suuuuper vip para a Baronetti?

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2 Comentários so far
Deixe um comentário

O pior é que você já tinha cantado a pedra desde o início, suspeitando que a noite seria ruim. Mas desse jeito, nem a mais fértil das imaginações: será que ele achou que você era um pitboy-skinhead?

To rindo até agora do moleque de Guadalupe.
Viva | 04.10.06 – 9:58 pm | #

mto engraçado…tragicômico na verdade…..porém não me surpreende nem um pouco… ser VIP é foda né
yer bro | 04.11.06 – 1:47 pm | #

Comentário por Bruno

aaaaaa
eu quero o cartãooo
aAauahuah

Comentário por Ricardo




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