Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Cockney hermanos!
31-agosto-2006, 2:15
Filed under: Esportividades

 

Até onde poderemos levar essa transferência do meu querido West Ham a sério? Eu, do meu lado de torcedor fanático, estou extremamente feliz. Contente pelo meu time pequeno do leste londrino estar nas manchetes do mundo todo após conseguir a assinatura do Carlitos e do Javi.

Vários rumores afloraram depois do anúncio dos dois argentinos. Primeiro, ninguém realmente entendeu como duas estrelas da equipe argentina da Copa assinaram pelo pequeno West Ham. Pequeno, mas que está na Copa da Uefa e tem em seu plantel um time de jovens ingleses que, para muitos, será base da próxima Copa. Sem contar que John Terry, Rio Ferdinand, Michael Carrick, Kieron Richardson, Glen Johnson, Joe Cole, Jermaine Defoe e Frank Lampard, todos da seleção, foram criados nas categorias de base do West Ham e muitos desses jogaram no time principal antes de serem comprados pelos ‘grandes’.

Pra mim, essa tranferência é uma prova do crescimento do clube como negócio. Depois da total reforma de Chadwell Health, centro de treinamento e desenvolvimento considerado o melhor da Inglaterra, agora todos os investimentos irão para a reforma da East Stand, arquibancada leste que é a última a precisar de reforma, para elevar a capacidade do Upton Park, estádio também conhecido como Boleyn Ground, para mais de 40 mil lugares.

West Ham é um dos poucos times da Premiership, e o único dos ‘menores’, que consegue lotar seu estádio em todos os jogos. O apoio ao time é universal no país, onde todos têm o West Ham como ‘segundo time’ pelo seu estilo criativo, sempre agressivo, de jogar futebol. É um time que sempre se orgulhou de criar talentos do país, nunca precisando buscar em outras nações um time bom e talentoso para botar em campo.

Tudo mudou para o clube com a entrada do novo ‘manager’ da equipe, Alan Pardew. Proveniente da equipe de Reading, Pardew, fanático pelo time, trouxe a estabilidade e a competência que faltava à equipe desde a saída do Trevor Brooking, duas temporadas antes da entrada de Pardew. Com isso o time, que tinha sido rebaixado apesar de ter o que muitos consideravam a melhor equipe jovem do país, com Carrick, Cole, Lampard e Defoe em campo, soube se reestruturar, adicionar talentos jovens como Dean Ashton, Paul Konchesky e Danny Gabbidon, e assim voltar à Premiership agraciando o campeonato com um futebol lindo de se ver.

Agora vemos o West Ham crescer e adicionar jogadores como Tevez e Mascherano. Existe a ligação com Kia Joorabchian, o que é lógico, mas também existem outras questão a serem abordadas. Kia tentou comprar o West Ham ano passado. Ofereceu 30 milhões de libras e mais dinheiro para terminar a reforma do estádio e comprar novos jogadores. Não consegui. Mas conseguiu, aparentemente, estreitar seu relacionamento com Terrence Brown, dono da equipe.

O que parece, para muitos, é que Kia, com os problemas dos argentinos no Corinthians, resolveu colocá-los num lugar de destaque, podendo tê-los como líderes de uma equipe que, além de ser uma das mais queridas do futebol inglês, também está numa competição européia. A exposição dos dois será imensa e o West Ham, agora, recebeu do mundo uma curiosidade que só lhe fará bem. Com o professionalismo do Pardew, a qualidade da equipe médica e técnica do time, e os talentos ingleses aliados aos argentinos, o West Ham tem como provar que pode sim ser uma das maiores equipes da Inglaterra.

Update: Novos acontecimentos apontam para uma compra da equipe. Kia já deixou claro que o MSI não está disposto a investir na compra de uma equipe européia. Terrence Brown deixou claro que a compra do Tevez e Mascherano em nada tem a ver com esse processo de compra. Fingimos que acreditamos.

Eu aqui estou felicíssimo. Kia comp presidente do West Ham dá calafrios. Mas Tevez e Mascherano usando o grená e azul me deixa tão feliz que nem penso nisso agora.

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Alguém disse meme?
30-agosto-2006, 9:19
Filed under: Perfil

Doni me fez o convite, e com o maior prazer ponho em palavras um pouco do que sou:

8 pequenas coisas a saber sobre mim

1) Sou extremamente vaidoso. Chame-me de metrossexual. Caguei. Me olho no espelho constantemente e nunca gosto de tudo. Me amo incondicionalmente, não é isso, mas sempre acho que preciso melhorar alguma coisa. Em breve, espero chegar ao peso e massa muscular que tanto desejo, mas perdi por causa do maldito câncer.

2) Sou completamente ateu. É difícil até discutir isso com pessoas. Não acredito MESMO na possibilidade de existir qualquer coisa extra-realidade tácita e visível. Fantasmas, espíritos, astrologia, religião… tudo pra mim é a maior babaquice.

3) Sou considerado bruto e grosseiro por muitos. Decidi, há algum tempo, não ser mais uma pessoa que se esconde. Que esconde sentimentos e posições. Acabo assustando as pessoas com minha sinceridade e muitas vezes as revolto e elas páram de falar comigo por um tempo. Mas pelo menos sabem que what you see is what you get quando falam comigo. Não guardo nada, então não precisam achar que falo uma coisa, penso outra.

4) Sou extremamente carente. Carente pelo toque humano, por um beijo e abraço. Todavia não corro atrás de qualquer rabo de saia. Um beijo carinho e um abraço num (ou de um) amigo, pra mim, já é maravilhoso demais.

5) Perdi completamente qualquer tipo de pré-conceito sobre tudo. Tudo mesmo. Não guardo nada sobre ninguém que não conheço. Não sou ridículo a ponto de dizer que perdoo a tudo e todos – afinal, não sou católico e, com isso, não acho que alcançarei a redenção divina perdoando a todos por tudo. Sempre me imaginei uma pessoa que aceitasse a todos igualmente, mas agora me acho no dever de olhar para o mundo e compreendê-lo, sem nunca julgar nada e ninguém sem antes conhecer bem o suficiente para ter uma posição definitiva e imutável.

6) Sou extremamente inquieto e ansioso. Procuro ter tudo em instantes e me deprimo quando as coisas não ocorrem na velocidade e com a clareza que desejo.

7) Levo a vida com uma leveza absurda. Relevo os fatos da vida que irritam os outros e parto para ser uma pessoa calma e tranquila – sempre. O que deixa a maioria das pessoas completamente neurótica não me dá a menor coçeira. O mundo nunca é cor-de-rosa. Sei disso e levo tudo numa boa. Afinal, a vida é pra ser vivida. Com preocupações exacerbadas, não se consegue viver.

8) Nunca gosto de parecer inculto. Sempre procuro um livro a mais, um filme a mais, um artigo a mais, uma resenha e um ensaio a mais. Cada vez mais quero ir ao teatro, ao cinema, à livraria, à biblioteca. Não aguento ficar sem ter cultura sendo jogada em mim por todos os lados. Preciso disso para me sentir minimamente útil para a sociedade.



Spam
25-agosto-2006, 5:23
Filed under: Diatribes

Os spammers e hackers desse Brasil estão ficando criativos. Mas o grande problema é quando se deparam com alguém com pelo menos alguns neurônios funcionais.

Primeiro é o tópico: ‘Como tu pode deixar…’ Dor estomacal. Depois vem a mensagem: ‘Foi teu amigo q mandou eu te dizer Naum acredito q fizeram issu com sua foto, veja ae … O_o http://www.fotologbr.fromru.com/fotos/img1.scr … Pedem pra tirar issu da net….’

Nem sei por onde começar a criticar o texto. Até acho bem criativo, por seguir a linha de pensamento do miguxês. Q, naum, issu… sem contar o ‘pedem pra tirar…’ Quem pede? Argh, odio português tosco. E a internet faz questão de piorar cada vez mais a maneira como nos comunicamos.

Só admito escrever vc. Simplesmente pelo fato de estarem ao lado um do outro no teclado. É a maior tentação não cometer esse erro. Agora o resto é abominável.

Esses hackers têm que aprender que português mal escrito e tosco simplesmente tira qualquer possibilidade de alguém com um cérebro ativo procurar tal link. O grande problema é que aparentemente a raça de serem pensantes no mundo internético está cada vez mais caminhando para a extinção.

Q xatu issu.



Fuck Pluto
24-agosto-2006, 2:25
Filed under: Abobrinhas

O signo de escopião é tão filho da puta que até o planeta regente deixou de ser planeta. Fizeram downsizing no Sistema Solar. Demoveram Plutão.

Ceres, Caronte e Xena receberam um não da diretoria também. Sedna nem pensa em mandar currículo agora.



As aventuras do mini-viking – Capítulo 10: Pintinho
22-agosto-2006, 1:15
Filed under: As aventuras do mini viking

De volta à Nogueira. Ao meu lindo sítio que agora não é mais meu. Bom, nunca foi meu, era do meu pai e seus irmãos. Mas adorava aquele lugar. Lembro sempre do besouro, da piscina de plátisco – sabe aquela com desenhos de onda em tons diferentes de azul? Então… – que sempre achava grande demais mas que hoje não acolheria meu tornozelo, das correrias, do calor e do frio.

Fazia frio no inverno lá. Lembro disso. Lembro também de um lindo inverno quando tinha uns cinco anos de idade. Tínhamos ido numa feira, daquelas de cidade pequena, e levamos pra casa dois pintinhos – um pra mim, outro pro meu irmão.

Os pintinhos eram lindos. Amarelíssimos, faziam suas coisinhas de pintinho (ou seja, nada) lá na sala, enquanto eu e meu irmão ficávamos assisitindo eles, fixados nos movimentos, nos barulhos e trejeitos daqueles bichinhos adoráveis.

Tava um frio danado, e eu e meu irmão lá, cuidando dos bichinhos enquanto minha mãe, claramente feliz por nos deixar na sala quietos e ocupados por horas, fazia suas coisas no resto da casa. Presumo que ela também estava feliz que fazia um frio do cão e eu não estava pela varanda tentando arranjar minha próxima refeição.

Passaram alguns dias e os pintinhos lá, na caixa de sapato com cobertor, fazendos as coisinhas deles e eu e meu irmão lá, olhando pra eles. Tava virando um tédio desgraçado assistir aqueles bichos fazerem nada. Esperava um cacarejar, sair da caixa e correr por aí, deixando todos em estado de pânico. Queria diversão.

Meu irmão lá, ainda preocupadíssimo com seu bichinho, nem imaginava que eu, ao seu lado, estava num tédio absoluto e queria mais é brincar de outra coisa. Eu olhava para um lado, olhava para o outro e nada. Não achava nada que pudesse me tirar daquele tédio e elevar meu espírito naqueles dias gélidos do inverno serrano fluminense.

Amanheceu um dia e minha cota de olhar para os pintinhos dentro da caixa tinha se esgotado. Queria vê-los livres, brincando por aí. Imaginei uma corrida de pintinhos no quintal de casa, com direito a canja para o perdedor. Tá, não era tão sádico naquela época, mas bem que seria uma excelente idéia tivesse a tido na hora. Queria muito brincar com eles. Queria vê-los voar.

Olha, para uma criança de cinco anos de idade é mais do que natural achar que pintinhos podem voar. Afinal, por que caralhos eles têm aquelas asas? E as penas? Pássaros não são bichos de asas e penas? Portanto é mais do que natural eu, criança de mente fértil de cinco anos, achar lógico que os pintinhos tinham é que voar.

Eu disse que precisava me divertir…

Saio de casa com o pintinho na mão. Ele está tão quentinho, e a manhã dá aquela porrada de frio esperada no inverno. Apesar de todo o frio, o dia está lindo. Céu azul, quase nenhuma nuvem no céu. Nem sei onde estão meus pais. Podem muito bem estar dormindo, ou fazendo o café.

Chego no lado da casa. Tinha um paredão branco até lááááá no alto, só terminando no telhado em forma de acento circunflexo. Achei o lugar perfeito para botar meu pintinho para voar. No paredão branco poderia vê-lo em todo seus esplendor, batendo suas asinhas e demonstrando toda a desenvoltura de um gavião.

Olho pra cima, olho para o bichinho. ‘Priii!’, diz ele. ‘Vamos voar?’, digo eu. ‘Priii??’, diz ele.

O atiro pra cima. Com toda a força que tenho nos meus pequeninos braços. Ele voa, mas voa alto, e minha imagem de vôo começa a se pintar diante dos meus olhos. Até que reparo que existe um zênite no plano de vôo do bichinho.

Ele até tenta, tadinho, manter algum tipo de aerodinâmica. Mas só o vejo cair, cair, cair até se espatifar na minha frente, ao lado dos meus pés. Primeiro veio a dúvida, depois o terror.

Choro sem parar e corro pra dentro da casa, a procura dos braços da minha mãe. Meu pintinho não conseguiu alcançar vôo, como queria, e fiquei bem decepcionado com isso. Aprendi que bichos gordos e amarelos não voam. Garibaldo perdeu toda a magia pra mim naquele dia.

O pintinho do meu irmão durou mais alguns dias. Morreu de frio apesar da luminária e dos cobertores. Meu irmão nunca se recuperou do incidente. Perder seu pintinho, para um menino, é um evento marcante.



Flipping
13-agosto-2006, 11:27
Filed under: Estrada

 

Che Bar. Paraty. Flip. Ensaios de uma noite memorável. E como foi.

Sentados numa mesa ao redor de musicistas de jazz cubanos, ao lado de Yamandú Costa, servidos pelo perfeito sósia do Ney Matogrosso (que insisti, no começo, de chamar de Ney Latorraca) – e depois sermos agraciados com a bondade e a generosidade etílica do sósia do guitarrista do Calypso, chamado, óbviamente, de Calypso, que não sabemos o nome e nem queremos. Clima perfeito, companhia perfeita… Bruna e Meritxell, o que seria dessa noite sem vocês…

Lá estava eu, uísque numa mão, Monte Cristo na outra… a fumaça e a bebida, aliadas ao mais perfeito som cubando – Buena Vista Social Club – me faziam viajar para o Caribe, mergulhando nas límpidas águas da linda ilha, sofrida e feliz, respirando o ar deles, sentindo o som deles, sendo um deles. Me senti o revolucionário esquecido, perdido nos anais do tempo, louco para ser descoberto ali, na pequena e charmosa cidade do sul fluminense.

Depois lembrei que era um capitalista neo-liberal. Perdeu toda a graça.



As aventuras do mini viking – Capítulo 9: Mini viking foi enganado
8-agosto-2006, 1:13
Filed under: As aventuras do mini viking

Eu era uma criança linda. Mas linda mesmo. Muito mudou desde então, claro. Fiquei gordo, barbudo, feio em geral. O que importa agora é demonstrar o quão lindo eu era. E imaginem um anjo do céu, perfeito, belo, singelo – era bem mais bonito que ele.

Meu tio Paulo ia se casar. Tinha uns quatro anos. Não vou me preocupar em ligar para ele para descobrir quantos anos de casado ele tem e, assim, fazer a matemáticas correta. Aposto que ele nem lembra quantos anos de casado tem. Não quero embaraçá-lo e emputecer minha tia no processo. Fiquemos com quatro anos. É uma boa idade.

Pois bem. Tinha quatro anos. Meu tio ia casar. Felicidade geral na família. O caçula da minha avó ia se juntar com uma linda mulher, que ia dar-lhe carinho, companhia e afeto pelo resto da vida. Maravilha, né?

Casamento marcado. Eu ia ser aquele molequinho bonitinho que carrega as alianças, ao lado da minha prima Ingrid – igualmente linda, mas que diferente de mim manteve a beleza e agora tem dois moleques lindos também. Fiquei todo feliz. Usar aquele smoking estiloso pra criança, andar carregando o objeto mais precioso da noite e ser bajulado por todos ao meu redor. Nada poderia ser melhor.

Chegou o dia e estava nervoso. Suava em bicas. Imagina a responsabilidade de carregar as alianças, sem poder derrubá-las, e depois entregá-las ao meu tio, no momento mais importante da vida dele? Vixi, estava entrando em pânico. Pensei em chegar na igreja e, na hora h, correr feito um louco, berrando ‘eu não aguento mais! É muita pressão!’ enquanto os convidados ainda chegavam, atrasados, tentando se esquivar da noiva a passos da entrada.

Mas lá fui eu. Nervoso, rebeci de minha mãe (ou meu pai, não vou lembrar agora) a bendita almofada com as alianças. Olho pra elas, e elas pra mim. Parecia o Frodo, olhando fixamente para a aliança, temendo que ela ou me dominasse, ou destruísse o mundo. De qualquer jeito, pensava no pior. Sabia que Murphy seria predominante na noite. Simplesmente sabia.

A igreja começa a encher. E eu lá, completamente imóvel, Segurando a porra da almofada, não deixando as alianças mexerem um milímetro sequer. Não podia cometer tamanha gafe. Imagina só as alianças caindo no meio da igreja e eu lá, parado, olhando meus pais desesperados, rastejando no chão de roupa cara, tentanto catas as alianças. Fiquei paradinho, braços como hastes de titânio.

Chega um ponto que a igreja enche. Suspiro. Sei que está chegando a hora, mas não me sinto preparado. Duvido da escolha do meu tio de me escolher. Sabia que era a mais bonita, meiga e cativante criança que ele conhecia, mas ele não sabia que já era completamente louco. Pensei, mais uma vez, em simplesmente surtar e sair dali, correndo, alianças em punho, e nunca mais ser visto.

Minha mãe me empurra pra entrada da igreja. ‘Oh céus!’, penso eu, ‘agora não tem mais jeito!’ Tinham fechado as portas da igreja, para depois abri-las quando minha tia chegasse. Não tinha mais saída. Estava preso naquele recinto, cheio de gente cheirando a perfume doce, alguns tossindo e outros me olhando com caras de ‘nossa, mas como ele cresceu! Está a cara da mãe!’. Sempre tive a cara do meu pai e os olhos do meu avô. São todos cegos.

Uma música funebre começa a tocar. Olho pra minha mãe, quase chorando já, e penso logo que vamos ter um funeral antes da cerimonia. Meu funeral. Devia ter perdido metade da água do meu corpo até esse ponto. Estava tonto, vendo estrelas. Olhei pro Jesus no fim do corredor e pensei ‘você teve vida fácil. Queria ver você tendo que segurar as alianças do seu tio! Sortudo!’.

Ingrid chega do meu lado e dá aquele sorriso lindo que só ela tem. Achei que iria me acalmar com ela do meu lado. Nada disso. Fiquei é mais apavorado ainda, porque sabia que ela iria rir da minha cara quando eu fizesse merda. Minhas pernas tremiam, achava que ia desmaiar.

O mundo começou a ficar escuro. Pensei logo que iria acordar no CTI do Souza Aguiar, perto de bater as botas. Percebo logo que é meu primo Márcio me cobrindo com seu casaco. Suspiro mais uma vez.

Minha mãe nos urge a começar a caminhar. ‘Devagar! Passos coordenados! Passo, pára! Passo, pára!’ Já nem sabia mais aonde estava. O mundo era uma míriade de cores, formatos e barulhos. Só sabia que tinha que segurar com todas as minhas forças aquela almofada. Isso não podia esquecer.

E aquela música tocando. Entrando e chacoalhando minhas entranhas. Comecei a sentir azia, dor em todos o meu sistema digestivo. Achei que fosse perder meu bile em segundos. Ando, páro, ando, páro. O altar me parece mais para meu sacrifício do que para celebrar a união de duas pessoas em matrimônio.

Finalmente o altar chega. Páro e viro, jubilante por ter conseguido ultrapassar mais uma barreira na minha longa missão rumo à entrega das alianças. Meu tio estava do outro lado do altar, esperando, e me deu uma piscada. Senti a pressão e soltei um punzinho. De leve. Ninguém reparou.

Música alta. Tremo e quase derrubo a almofada. Dou um gritinho. Ninguém escuta de novo. Suspiro.

Chega minha tia. Linda. Maravilhosa. Perfeita. E eu lá, desidratado, louco pro padre terminar aquele troço o quanto antes possível.

Blá, blá, blá, blá. É tudo o que ouço. Olho pros meus lados e minha avó está chorando. Minha bisavó quase dormindo. Meus pais, em ambos os lados do altar, parecem prestes a desmaiarem de tédio. Como é chato esse troço, penso eu. E eu lá, ainda segurando aquela porra de almofada.

Finalmente vejo todos darem uma refrescada. ‘Chegou a hora’, pensei mais uma vez. Tinha me acostumado a pensar várias coisas. ‘Quem é aquela velha me olhando?’, ‘porque minha avó não pára de chorar?’ e ‘quando é que começa a festa?’ foram algumas das coisas que passaram pela minha cabeça durante o tédio eterno do dia.

Me endireito. Endureço. Páro de pensar e simplesmente olho, orgulhoso, para meu tio, que está prestes a dizer aquelas palavras antes de botar o anel do dedo da minha tia. Tantas horas de espera, tanta tontura, tanto suor perdido – tudo se resumia a esse momento. Esse maravilhoso momento de glória que estava reservado só pra mim.

Se fode aí, Murphy! Seguei bonito essa almofada! As alianças estão perfeitamente alinhadas! Sou o DEUS dos seguradores de almofadas! Vou ganhar uma estátua no Olimpo!

Quando o padre finalmente pede as alianças, dou meu passo triunfal em direção ao meu tio e lhe mostro a almofada. Levanto-a até perto de suas mãos. Tenho, finalmente, vontade de chorar. Esse era meu momento. Só eu e ele. A igreja inteira nos assistindo. Meus quinze segundos de fama.

Meu tio olha pra mim e, com um largo sorriso, chacoalha a cabeça e tira do bolso de dentro do paletó alianças. Fico branco. Mais pálido que um cadáver de uma semana.

Baixo minhas mãos. Olho para a almofada. Olho para as alianças. Seguro a almofada com uma das mãos e tento pegar as alianças. Presas à almofada com uma linha de linho.

Minha decepção foi absoluta. Vi meu tio retirar as alianças de verdade e colocá-las no dedo da minha tia. Vi minha tia pegar a outra aliança dele e colocar em seu dedo. E eu lá, olhando para a almofada, incrédulo.

Tive meu último pensamento do dia naquela hora. Depois nada mais importou. ‘Desgraçado!’