Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


As aventuras do mini viking – Capítulo 9: Mini viking foi enganado
8-agosto-2006, 1:13
Filed under: As aventuras do mini viking

Eu era uma criança linda. Mas linda mesmo. Muito mudou desde então, claro. Fiquei gordo, barbudo, feio em geral. O que importa agora é demonstrar o quão lindo eu era. E imaginem um anjo do céu, perfeito, belo, singelo – era bem mais bonito que ele.

Meu tio Paulo ia se casar. Tinha uns quatro anos. Não vou me preocupar em ligar para ele para descobrir quantos anos de casado ele tem e, assim, fazer a matemáticas correta. Aposto que ele nem lembra quantos anos de casado tem. Não quero embaraçá-lo e emputecer minha tia no processo. Fiquemos com quatro anos. É uma boa idade.

Pois bem. Tinha quatro anos. Meu tio ia casar. Felicidade geral na família. O caçula da minha avó ia se juntar com uma linda mulher, que ia dar-lhe carinho, companhia e afeto pelo resto da vida. Maravilha, né?

Casamento marcado. Eu ia ser aquele molequinho bonitinho que carrega as alianças, ao lado da minha prima Ingrid – igualmente linda, mas que diferente de mim manteve a beleza e agora tem dois moleques lindos também. Fiquei todo feliz. Usar aquele smoking estiloso pra criança, andar carregando o objeto mais precioso da noite e ser bajulado por todos ao meu redor. Nada poderia ser melhor.

Chegou o dia e estava nervoso. Suava em bicas. Imagina a responsabilidade de carregar as alianças, sem poder derrubá-las, e depois entregá-las ao meu tio, no momento mais importante da vida dele? Vixi, estava entrando em pânico. Pensei em chegar na igreja e, na hora h, correr feito um louco, berrando ‘eu não aguento mais! É muita pressão!’ enquanto os convidados ainda chegavam, atrasados, tentando se esquivar da noiva a passos da entrada.

Mas lá fui eu. Nervoso, rebeci de minha mãe (ou meu pai, não vou lembrar agora) a bendita almofada com as alianças. Olho pra elas, e elas pra mim. Parecia o Frodo, olhando fixamente para a aliança, temendo que ela ou me dominasse, ou destruísse o mundo. De qualquer jeito, pensava no pior. Sabia que Murphy seria predominante na noite. Simplesmente sabia.

A igreja começa a encher. E eu lá, completamente imóvel, Segurando a porra da almofada, não deixando as alianças mexerem um milímetro sequer. Não podia cometer tamanha gafe. Imagina só as alianças caindo no meio da igreja e eu lá, parado, olhando meus pais desesperados, rastejando no chão de roupa cara, tentanto catas as alianças. Fiquei paradinho, braços como hastes de titânio.

Chega um ponto que a igreja enche. Suspiro. Sei que está chegando a hora, mas não me sinto preparado. Duvido da escolha do meu tio de me escolher. Sabia que era a mais bonita, meiga e cativante criança que ele conhecia, mas ele não sabia que já era completamente louco. Pensei, mais uma vez, em simplesmente surtar e sair dali, correndo, alianças em punho, e nunca mais ser visto.

Minha mãe me empurra pra entrada da igreja. ‘Oh céus!’, penso eu, ‘agora não tem mais jeito!’ Tinham fechado as portas da igreja, para depois abri-las quando minha tia chegasse. Não tinha mais saída. Estava preso naquele recinto, cheio de gente cheirando a perfume doce, alguns tossindo e outros me olhando com caras de ‘nossa, mas como ele cresceu! Está a cara da mãe!’. Sempre tive a cara do meu pai e os olhos do meu avô. São todos cegos.

Uma música funebre começa a tocar. Olho pra minha mãe, quase chorando já, e penso logo que vamos ter um funeral antes da cerimonia. Meu funeral. Devia ter perdido metade da água do meu corpo até esse ponto. Estava tonto, vendo estrelas. Olhei pro Jesus no fim do corredor e pensei ‘você teve vida fácil. Queria ver você tendo que segurar as alianças do seu tio! Sortudo!’.

Ingrid chega do meu lado e dá aquele sorriso lindo que só ela tem. Achei que iria me acalmar com ela do meu lado. Nada disso. Fiquei é mais apavorado ainda, porque sabia que ela iria rir da minha cara quando eu fizesse merda. Minhas pernas tremiam, achava que ia desmaiar.

O mundo começou a ficar escuro. Pensei logo que iria acordar no CTI do Souza Aguiar, perto de bater as botas. Percebo logo que é meu primo Márcio me cobrindo com seu casaco. Suspiro mais uma vez.

Minha mãe nos urge a começar a caminhar. ‘Devagar! Passos coordenados! Passo, pára! Passo, pára!’ Já nem sabia mais aonde estava. O mundo era uma míriade de cores, formatos e barulhos. Só sabia que tinha que segurar com todas as minhas forças aquela almofada. Isso não podia esquecer.

E aquela música tocando. Entrando e chacoalhando minhas entranhas. Comecei a sentir azia, dor em todos o meu sistema digestivo. Achei que fosse perder meu bile em segundos. Ando, páro, ando, páro. O altar me parece mais para meu sacrifício do que para celebrar a união de duas pessoas em matrimônio.

Finalmente o altar chega. Páro e viro, jubilante por ter conseguido ultrapassar mais uma barreira na minha longa missão rumo à entrega das alianças. Meu tio estava do outro lado do altar, esperando, e me deu uma piscada. Senti a pressão e soltei um punzinho. De leve. Ninguém reparou.

Música alta. Tremo e quase derrubo a almofada. Dou um gritinho. Ninguém escuta de novo. Suspiro.

Chega minha tia. Linda. Maravilhosa. Perfeita. E eu lá, desidratado, louco pro padre terminar aquele troço o quanto antes possível.

Blá, blá, blá, blá. É tudo o que ouço. Olho pros meus lados e minha avó está chorando. Minha bisavó quase dormindo. Meus pais, em ambos os lados do altar, parecem prestes a desmaiarem de tédio. Como é chato esse troço, penso eu. E eu lá, ainda segurando aquela porra de almofada.

Finalmente vejo todos darem uma refrescada. ‘Chegou a hora’, pensei mais uma vez. Tinha me acostumado a pensar várias coisas. ‘Quem é aquela velha me olhando?’, ‘porque minha avó não pára de chorar?’ e ‘quando é que começa a festa?’ foram algumas das coisas que passaram pela minha cabeça durante o tédio eterno do dia.

Me endireito. Endureço. Páro de pensar e simplesmente olho, orgulhoso, para meu tio, que está prestes a dizer aquelas palavras antes de botar o anel do dedo da minha tia. Tantas horas de espera, tanta tontura, tanto suor perdido – tudo se resumia a esse momento. Esse maravilhoso momento de glória que estava reservado só pra mim.

Se fode aí, Murphy! Seguei bonito essa almofada! As alianças estão perfeitamente alinhadas! Sou o DEUS dos seguradores de almofadas! Vou ganhar uma estátua no Olimpo!

Quando o padre finalmente pede as alianças, dou meu passo triunfal em direção ao meu tio e lhe mostro a almofada. Levanto-a até perto de suas mãos. Tenho, finalmente, vontade de chorar. Esse era meu momento. Só eu e ele. A igreja inteira nos assistindo. Meus quinze segundos de fama.

Meu tio olha pra mim e, com um largo sorriso, chacoalha a cabeça e tira do bolso de dentro do paletó alianças. Fico branco. Mais pálido que um cadáver de uma semana.

Baixo minhas mãos. Olho para a almofada. Olho para as alianças. Seguro a almofada com uma das mãos e tento pegar as alianças. Presas à almofada com uma linha de linho.

Minha decepção foi absoluta. Vi meu tio retirar as alianças de verdade e colocá-las no dedo da minha tia. Vi minha tia pegar a outra aliança dele e colocar em seu dedo. E eu lá, olhando para a almofada, incrédulo.

Tive meu último pensamento do dia naquela hora. Depois nada mais importou. ‘Desgraçado!’

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1 Comentário so far
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Hahahahahahahaha!Simplesmente hilário!Muito bom!Saudades de ti menino!
Bjokas
Ingrid Derossi | Homepage | 08.08.06 – 12:08 pm | #

Po, me deixou no suspense até o final.
Esperto seu tio, hein?
Viva | 08.08.06 – 11:21 pm | #

Fiquei ate com pena do mini viking,hehehehehhehehe
Muioto boa essa historia!
Bjs
Deby | 08.11.06 – 8:37 am | #

Muito bom o texto.Perfeito…
joao | 11.15.06 – 5:15 pm | #

Comentário por Bruno




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