Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


As aventuras do mini-viking – Capítulo 10: Pintinho
22-agosto-2006, 1:15
Filed under: As aventuras do mini viking

De volta à Nogueira. Ao meu lindo sítio que agora não é mais meu. Bom, nunca foi meu, era do meu pai e seus irmãos. Mas adorava aquele lugar. Lembro sempre do besouro, da piscina de plátisco – sabe aquela com desenhos de onda em tons diferentes de azul? Então… – que sempre achava grande demais mas que hoje não acolheria meu tornozelo, das correrias, do calor e do frio.

Fazia frio no inverno lá. Lembro disso. Lembro também de um lindo inverno quando tinha uns cinco anos de idade. Tínhamos ido numa feira, daquelas de cidade pequena, e levamos pra casa dois pintinhos – um pra mim, outro pro meu irmão.

Os pintinhos eram lindos. Amarelíssimos, faziam suas coisinhas de pintinho (ou seja, nada) lá na sala, enquanto eu e meu irmão ficávamos assisitindo eles, fixados nos movimentos, nos barulhos e trejeitos daqueles bichinhos adoráveis.

Tava um frio danado, e eu e meu irmão lá, cuidando dos bichinhos enquanto minha mãe, claramente feliz por nos deixar na sala quietos e ocupados por horas, fazia suas coisas no resto da casa. Presumo que ela também estava feliz que fazia um frio do cão e eu não estava pela varanda tentando arranjar minha próxima refeição.

Passaram alguns dias e os pintinhos lá, na caixa de sapato com cobertor, fazendos as coisinhas deles e eu e meu irmão lá, olhando pra eles. Tava virando um tédio desgraçado assistir aqueles bichos fazerem nada. Esperava um cacarejar, sair da caixa e correr por aí, deixando todos em estado de pânico. Queria diversão.

Meu irmão lá, ainda preocupadíssimo com seu bichinho, nem imaginava que eu, ao seu lado, estava num tédio absoluto e queria mais é brincar de outra coisa. Eu olhava para um lado, olhava para o outro e nada. Não achava nada que pudesse me tirar daquele tédio e elevar meu espírito naqueles dias gélidos do inverno serrano fluminense.

Amanheceu um dia e minha cota de olhar para os pintinhos dentro da caixa tinha se esgotado. Queria vê-los livres, brincando por aí. Imaginei uma corrida de pintinhos no quintal de casa, com direito a canja para o perdedor. Tá, não era tão sádico naquela época, mas bem que seria uma excelente idéia tivesse a tido na hora. Queria muito brincar com eles. Queria vê-los voar.

Olha, para uma criança de cinco anos de idade é mais do que natural achar que pintinhos podem voar. Afinal, por que caralhos eles têm aquelas asas? E as penas? Pássaros não são bichos de asas e penas? Portanto é mais do que natural eu, criança de mente fértil de cinco anos, achar lógico que os pintinhos tinham é que voar.

Eu disse que precisava me divertir…

Saio de casa com o pintinho na mão. Ele está tão quentinho, e a manhã dá aquela porrada de frio esperada no inverno. Apesar de todo o frio, o dia está lindo. Céu azul, quase nenhuma nuvem no céu. Nem sei onde estão meus pais. Podem muito bem estar dormindo, ou fazendo o café.

Chego no lado da casa. Tinha um paredão branco até lááááá no alto, só terminando no telhado em forma de acento circunflexo. Achei o lugar perfeito para botar meu pintinho para voar. No paredão branco poderia vê-lo em todo seus esplendor, batendo suas asinhas e demonstrando toda a desenvoltura de um gavião.

Olho pra cima, olho para o bichinho. ‘Priii!’, diz ele. ‘Vamos voar?’, digo eu. ‘Priii??’, diz ele.

O atiro pra cima. Com toda a força que tenho nos meus pequeninos braços. Ele voa, mas voa alto, e minha imagem de vôo começa a se pintar diante dos meus olhos. Até que reparo que existe um zênite no plano de vôo do bichinho.

Ele até tenta, tadinho, manter algum tipo de aerodinâmica. Mas só o vejo cair, cair, cair até se espatifar na minha frente, ao lado dos meus pés. Primeiro veio a dúvida, depois o terror.

Choro sem parar e corro pra dentro da casa, a procura dos braços da minha mãe. Meu pintinho não conseguiu alcançar vôo, como queria, e fiquei bem decepcionado com isso. Aprendi que bichos gordos e amarelos não voam. Garibaldo perdeu toda a magia pra mim naquele dia.

O pintinho do meu irmão durou mais alguns dias. Morreu de frio apesar da luminária e dos cobertores. Meu irmão nunca se recuperou do incidente. Perder seu pintinho, para um menino, é um evento marcante.

Anúncios

1 Comentário so far
Deixe um comentário

Todo mundo tem uma estória de pintinho pra contar. Mas a forma como você conta a sua, é impagável.
Viva | Homepage | 08.22.06 – 6:19 pm | #

quem nao se superou foi você…que viu o bicho morrer estatelado na sua frente! e ainda lembra dessa estoria…
yer bro | 08.23.06 – 1:28 pm | #

moral da história: só tire seu pinto do cobertor se souber q vai decolar.
MarKinhos | Homepage | 08.23.06 – 5:09 pm | #

Hahahahahaha… perfeito, Markinhos, perfeito…
Bruno | Homepage | 08.23.06 – 8:25 pm | #

Tadinho, rsrsrs. Perder o pinto é qualquer coisa. Beijocas
Yvonne | Homepage | 08.24.06 – 6:17 am | #

Comentário por Bruno




Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: