Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Red
29-setembro-2006, 11:38
Filed under: Contos

 

Ela era ruiva. Sardinhas e tudo. Amiga dele. Todas sempre são.

Lugar barulhento, meio fora do que ele estava acostumado. Tudo bem, pensou ele. Todo lugar novo é um lugar a se conhecer.

A música vagarosamente se alojou em seus ouvidos. Jamais achava que estaria lá, naquele lugar. Lugar lindo, diga-se. Mas de pessoas diferentes. Um povo ainda estranho.

Tinha ido pra lá com amigos da faculdade. Encontrou pessoas do trabalho e pessoas amigas de colégio. Estava muito contente, rodeados de loucos que ele tanto gostava.

Nunca tinha nem pensado nela, a ruiva, dessa maneira. Era sua amiga e nada mais. Mas nesse dia viu as coisas um pouco diferente.

A maioria dos amigos de colégio tinham saído. Ficaram os do trabalho e da faculdade. E a ruiva resolveu ficar. Beleza, pensou ele. Muito legal.

Perdia a linha dançando frenéticamente ao som de Mamonas Assassinas, o grande Sidney Magal, dentre outros, com seus amigos de faculdade. Samba era lá embaixo. Os anos 80 bombavam aqui – e ele se divertia como nunca. Talvez esse tivera sido um dos dias mais divertidos de toda a sua vida.

Ele olhou pra ela. Não sabia se ela ainda namorava. Imaginava que não. Não custava tentar.

A resposta foi um estranho não. Não parecia sim, nem não. Mesmo assim, ele não pensou duas vezes e fez o que queria. Deu certo.

Semanas depois, tudo foi meio pros ares. ‘Você é muito carpe diem’, disse ela.

Mesmo assim ele teve sua ruiva. Chupa, Doni. Chupa, Ina.

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Amiga, pra que te quero
27-setembro-2006, 2:39
Filed under: Contos

Há muito tempo ele não a via. Tinha viajado, perdido noção do tempo, mas mesmo assim ainda a tinha na cabeça. Resolveu ligar um belo dia para ela.

Enquanto no outro lado da linha o telefone tocava, ele pensava no que diria a ela. Faziam meses que não se falavam. Realmente não havia razão para ele ligar assim, de repente, sem motivo. Mesmo assim ele deixava o telefone tocar.

Atendeu uma voz estranha. ‘Alô? Quem fala? Ah, ela não está. Acabei de me mudar pra cá. É, estou divindo esse apê com ela agora. Vim de Macaé, onde meu pai trabalha… qual o seu nome mesmo? Tá, deixo recado que você ligou pra ela. Tenho que ir pra PUC agora. Beijos!’

Bem, valeu a tentativa, pensou ele. Se essa menina realmente deixar recado, e ela não ligar, quer dizer que não valia a pena mesmo. Só me resta esperar.

No dia seguinte, uma sexta-feira, toca o telefone. É ela, que diz ter uma festa em seu apartamento marcada com o pessoal da faculdade. Convida ele para ir também. Ele prontamente aceita o pedido.

Em momento algum é discutido o tempo que se passou para que os dois voltassem a se falar. Estranho tudo isso, pensou ele. Mas, se vou para uma festa na casa dela, tudo está tranquilo.

A festa tivera sido marcada às sete e meia da noite, para todos poderem ir direto do trabalho. Ele fez questão de aparecer um pouco tarde, para não chegar lá com quase ninguém na casa. Afinal, não sabia ele qual seria o ambiente entre os dois.

Chegando prontamente atrasado em sua casa, um apartamento em Botafogo, a ponto de receber uma ligação dela para confirmar sua ida, ele adentra o ambiente repleto de pessoas que não conhecia. Na festa tinha de tudo, de sujeitos engravatados, com colarinho esgarçado e suado, a pseudos, com suas sandálias portuguesas e bolsas de hemp atravessadas no peito. Finalmente ela vem o receber, sorridente e amigável.

Conversa vai, conversa vem. Ele se sente mais confortável ao lado dela depois de alguns minutos. Pensa até em reatar conversas perdidas no tempo, a fim de conquistá-la mais uma vez. Percebe que tem uma mulher, morena com luzes mais claras, um pouco mais baixa que ele, de olhos castanhos penetrantes e corpo um pouco mais cheio que o normal – simplesmente perfeito em todos os sentidos.

Começa a se sentir desconfortável com os olhares dela, cada vez mais longos e insinuantes. Vê que ela, ao conversar com pessoas em seu pequeno grupo de cinco pessoas, fala sem tirar seus olhos dele – a porto de ser chamada atenção e de tirar risos dos cinco, que automaticamente olharam pra ele para ver o que é que ela tanto olhava.

Ela, com quem ainda conversava, repara, finalmente, nos olhares penetrantes da morena. Pergunta se ele a conheçe. Ele diz que não.
‘Essa é a nova moradora daqui. Chegou há três meses de Macaé.’ disse ela, sem aparentar desconforto. ‘Ela é meio louca, fica sempre fora de casa até tarde, mas é gente boa. É no mínimo divertido dividir esse apê com ela.’

Ele pensou logo em mostrar indiferença. ‘Ah, foi essa quem atendeu o telefone. O que ela faz aqui? Quando liguei antes e ela disse que estava de saída pra PUC…’

‘Faz psicologia… ou é sociologia? Vou chamá-la pra conversar conoso. Aposto que ela que te conhecer. Não pára de olhar pra cá.’ E lá foi ela, atrás da morena. Ele ficou lá, sem saber muito o que fazer. Agora não sabia se os olhares eram de curiosidade ou de interesse.

Loucas não demonstram seus sentimentos muito bem. Deve ser isso, pensou ele.

A morena chegou, toda sorridente, para cumprimentá-lo. ‘Olá. Então você é o do telefone. Não ligaria a voz à pessoa de jeito nenhum!’ Aproveita para dar-lhe um abraço também. ‘Amigos da minha amiga são meus amigos! E conheço muito sobre você já.’ Ele sua. ‘Já tivemos altas conversas regadas a vinho aqui!’ Ele procura uma saída, mas vê nenhuma.

Ela interrompe a amiga. ‘Pára com isso, vai. Não é verdade que falamos de você sempre. Mas houve umas noites, no começo, quando ela chegou, que você apareceu nas conversas. Coisas passadas.’ Ela toca no braço dele, num movimento de consolo. Ele só olha pra morena, olhos cintilantes, e descobre fácilmente o que é que as duas conversavam. Aquele olhar não enganaria ninguém. Ou ela era realmente completamente louca.

‘Por falar em vinho, eu quero.’ diz ele, com vontade de virar uma garrada de gran reserva de cabernet sauvigno que vira na mesa ao lado da entrada da cozinha.

‘Pode deixar que eu pego.’ diz ela, indo buscar uma taça na cozinha. Ela tinha um apartamento lindíssimo – pequeno, confortável e muito bem decorado.

A morena quebra o silêncio instaurado pela saída dela. ‘Sabe, escutei coisas bem legais sobre você. Ela ficou uma noite sem parar de falar em ti por horas.’

‘É mesmo? Espero que tenha sido só coisa boa.’ Ele realmente não entende essa morena. Não pode ser tão óbvio assim. Ninguém é tão cara-de-pau.

‘Ah, foi só coisa boa.’ Ela ri um jocoso riso, jogando cabelo para o lado, claramente flertando com ele. Na frente dela! Jesus!

Cadê meu vinho?, pensa ele. Isso está ficando absurdo.

‘Ela está namorando agora, sabia?’ solta ela, olhando diretamente nos olhos dele.

‘Sério? Não tinha idéia. Com quem?’

‘Lembra um amigo dela, da faculdade, com quem saía sempre? Aquele que namorava uma loirinha, baixinha e meio chata?’

Ele ri. ‘Não lembro muito bem não, mas não faz diferença eu lembrar ou não dele.’

‘Pois então, ele pegou a loirinha se pegando com outro correu pros braços dessa aqui para enxugar as lágrimas. Se entenderam como nunca e estão juntos há dois meses.’

‘Pô, que legal pra ela. Imagino que esteja feliz.’ Ele queria saber aonde estava indo essa conversa. Bem, já entendia, mais ou menos, mas não tinha certeza absoluta a ponto de tentar algo concreto.

‘Está sim. É tão bonito vê-los juntos. Ficam muito bem.’ Ela enrolou então o cabelo na mão esquerda, jogando os cabelos um pouco cacheados pelo ombro até os seios. Lindos seios. Tinha uma camisa verde, sem manga, e parte do sutiã preto ficava à mostra através do decote.

E o vinho que não chega, pensou ele.

Ela finalmente aparece com o vinho. E de mãos dadas com seu namorado. Cabelo preto, mais de um e noventa, magro. Feio como um javali atropelado.

‘Eis seu vinho. Só sobrou o de rótulo branco.’ Justamente o gran reseva. Êba, suspirou ele.

Vinho com propriedades na medida certa. Vernús, gran sereva da vinícula Santa Helena, do Chile. Nota mental: estocar esse vinho em casa quando comprar uma adega daqueles que se vê na Ambient Air.

Como a adega ainda não veio, o vinho continua na memória.

‘Você já conhece?’ ela o demonstra pra ele. Apertam as mãos, amigávelmente, e a conversa continua em amenidades, sempre com piadinhas dele, e risos, alguns claramente por educação, de todos.

Ninguém estava tomando o vinho, então ele fez questão de terminar a garrafa toda, para seu deleite. Ao término da garrafa, a festa já estava chegando ao seu fim. Algumas pessoas já estavam semi-acordadas nos sofás, prestes a cairem no sono, enquanto outras já se dirigiam à dona da festa para agradecer a hospitalidade e irem para suas respectivas casas.

Ela vira pra ele, o interrompendo enquanto contava uma das coisas engraçadas de uma viagem à Europa. ‘Desculpa te interromper. Vou ter que me despedir de todos agora. Fiquem aí conversando. Não quero que vá agora. Chegou muito tarde, então vai ser o último a sair! Não o vejo há tempos, e ainda temos muito a conversar.’ Ela saiu com seu namorado em direção à porta.

Os dois que sobraram ficaram conversando amigavelmente. Entraram em assuntos como política, sociologia (era esse o curso dela, não psicologia), até esportes. Ela gostava muito de vôlei, vindo de Macaé era o esporte que conseguia acompanhar sempre. A cidade tem, ou tinha, não sei, uma equipe forte de vôlei. Ela até tinha participado de algumas seletivas para a equipe júnior do time, mas nas peneiras finais tinha sido desclassificava por ser baixa demais e não jogar bem de líbero.

Em certo momento da conversa, durante uma risada linda e natural, ela o segura no antebraço, talvez para acentuar a risada, talvez não. Ele não tinha certeza. A certeza que teve é que não havia hora melhor de dar o bote, visto que após a risada, ainda com um rosto sorridente e alegre, eles trocaram os olhares mais intencionais da noite.

Ele a beijou com vontade. A morena em momento algum mostrou-se surpresa. O dominou por completo, agarrando-lhe e o levando para a parede da sala. Pouco importante de haviam pessoas ainda na casa, que com total certeza estaríam olhando os dois agora. O que importava era o momento. E que momento.

Depois do fogo inicial, vendo a atenção de todos focada diretamente neles, deram uma segurada na onda e ficaram entre carícias e beijos carinhosos no sofá até que todos os convidados saíssem e só os quatro, agora dois casais, estivessem no apartamento.

Ficaram de papo até seis, sete da manhã do sábado. Riram, brincaram, terminaram o resto das bebidas da casa. Ele ainda achou outra garrafa de Vernús, e fez questão de terminá-la sem parcimônia.

O quarto da morena era meio zoneado. Tinham roupas limpas na cadeira, roupas sujas embaixo da mesma. Sua cama, para alegria geral da nação, era de casal. Tiveram uma noite – manhã, na verdade – perfeita. Se descobriram e se entenderam muito bem. Ao meio-dia ele estava se despedindo da morena e do casal, que estava preparando um macarrão na cozinha. Ele não estava com fome.

Preferiu andar até sua casa. Deixou seu carro ao lado do apartamento. Domingo voltou para buscá-lo. E se encontrou mais uma vez com sua morena.

Passaram-se dois meses. Ela terminou a faculdade, foi para Washington morar na casa de familiares (ou amigos de família, ele nunca lembra) e tentar fazer mestrado em ciências políticas. Hoje se falam raramente, sempre por email.



Bronze também tem seu valor
25-setembro-2006, 2:30
Filed under: Abobrinhas

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É uma quarta-feira de um dia um pouco chuvoso. O dia parece não ter fim. Pior é que nem jogo de futebol decente tem na televisão à noite. Tudo parece escrever um fim de dia moroso e entediante.

Toca o telefone.

Ele atende. Percebe uma voz feminina do outro lado da linha. Não a reconhece, mas pelo modo em que a voz fala com ele, tem certeza que ela o conhece.

‘Alô?’ diz ele, sem muita preocupação. A verdade é que raramente ele atende a telefonemas que não estão gravados em seu celular. Hoje, de repente por causa do tedioso dia que se desenrolava, ele queria mesmo era poder falar com alguém.

‘Erm, oi você, tudo bom? Lembra de mim? Sou aquela amiga da sua amiga que você encontrou naquele aniversário’ disse ela, com uma voz um pouco nervosa. ‘Lembra que moro em São Paulo? Pois então, estou de férias no Rio e resolvi ligar…’

Ele nem lembrava que ela tinha o telefone dele. Teria ele o dado? Teria ela pego com a sua amiga? Bem, pouco importava.

‘Pô, que bom isso… estava sem o que fazer hoje. O que sugeres? O pessoal tá reunido em algum lugar?’ Nessa hora qualquer coisa passa pela cabeça dele, menos o óbvio.

‘É, bem, na verdade não falei com ninguém ainda…’ diz ela, agora com a voz quase rouca de tão travada.

Wait a fucking minute, pensa ele. Sensacional isso. Que sorte ter deixado o celular ligado e estar na sala!

‘É mesmo? Ótimo isso… então, onde você mora?’ Não era hora de ficar cheio de rodeios. Ele foi logo perguntando o lógico.

‘Estou na casa da minha prima no Flamengo. Você vem me buscar?’

‘Claro. Me dá meia-hora pra me arrumar e chegar aí. Tá bom?’

‘Sem problema. Assim também me dá tempo de tomar um banho.’

‘Antes de desligar, posso fazer uma pergunta?’

‘Pode sim.’

‘Sou qual tentativa da noite?’

Silêncio. Depois de alguns segundos de espera, ela fala.

‘A terceira.’ Ela ri do outro lado da linha.

‘Beleza. Chego em meia-hora. Beijos.’

‘Beijos. Tchau.’



Pobre Topo
21-setembro-2006, 2:28
Filed under: Diatribes

Topo Gigio marcou minha infância. Adorava aquele ratinho. Pra vocês verem como gostava dele, não lembrava dele contracenar com o Agildo Ribeiro. Gostava só do rato. Das cenas dele sozinho.

Era uma criança emotiva. Chorava sempre que via uma pessoa na rua, pedindo dinheiro. Me perguntava porque as pessoas ficam nessa situação, porque não podemos todos ajudar todos e previnir esse tipo de coisa… ainda penso nisso, mas de uma forma diferente.

Topo Gigio me facinava porque representava a luta da pessoa, na total solidão, em ser feliz. E é sério isso. Acho que não passava um programa do Topo sem chorar, imaginando a solidão do pobre bichinho. O via sempre tentando ser feliz no mundo escuro dele, no quartinho minúsculo que o abrigava, e chorava.

Cada vez que o via dançando, imagina isso como um escape criado por ele para fazer sua vida fazer sentido. Via isso como a tentativa inútil de uma pessoa completamente na merda, sem possibilidades de melhorar qualquer faceta de sua vida, se enganando em acreditar que cantando e dançando as coisas melhoraríam. Mas não melhoravam. Ele sempre acordava naquela caminha minúscula, naquele mundo preto sem fim.

Topo Gigio me ensinou o valor da amizade. A vontade de todos nós sermos rodeados de pessoas que gostamos para discutir política, religião e música, ouvir conselhos, procurar amores, chorar num ombro querido. Topo, até hoje, me faz refletir no valor que existe em procurarmos um estado de espírito elevado, feliz e contente com a vida – sempre alicerciado nas amizades que nutrimos. Porque ser feliz e contente, sozinho num mundo escuro, é pura enganação.



The river festival
19-setembro-2006, 2:40
Filed under: Abobrinhas

Esperei das 14 às 19 para comprar os ingressos. Consegui 18 sessões. Tenho que comprar no ingresso.com outras 4 (do Roxy, que não faz parte do grupo Estação) e 6 estão indisponíveis ou ainda não chegaram ao festival.

No total, espero conseguir assistir aos 28 filmes que escolhi. Ainda pretendo pegar mais sessões, visto que vi agora que esqueci alguns que queria ver.

Quem quiser saber em quais sessões irei, peçam por email que envio um xls com tudo direitinho. Assim podemos combinar algumas sessões.

E depois começa o Rio Cena Contemporânea, que esse ano promete sensacional. Êba. Cultura rules.