Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Prank
19-fevereiro-2007, 6:01
Filed under: Diatribes

 

A capa da Veja desta semana tem o destaque do crescimento absurdo dos sequestros por telefone. É incrível como eu já tenho pelo menos uns três casos recentes pra contar.

Primeiro foi em 2005, quando estavamos todos da família reunidos numa fragata da Marinha do Brasil durante a posse do meu tio, almirante, da 1° esquadrão da Marinha. Enquanto a cerimonia ocorria sem problemas, como todo acontecimento militar era cheio de pompa, respeito e, acima de tudo, ordem e rigidez. O almirante que deixava o posto de comandante do esquadrão fazia seu discurso de despedida e dava as boas vindas ao meu tio. Meu tio, em sentido de marinheiro, rosto reluzente pelo momento glorioso em sua já gloriosa carreira militar esperava sua vez de fazer o discurso de posse. Minha tia, sempre tão calma, elegante e fina começa a xingar e gritar ao telefone, quebrando um pouco o silêncio do navio. Meu tio, parado, não podia fazer nada a não ser olhar para nós com uma cara de desespero e curiosidade para saber o que tinha acontecido. Minha tia recebera uma ligação dizendo que tinham sequestrado não só meu primo como também minha prima – com direito a nome e local onde eles teriam sido pegos. Isso, depois descobrimos, foi obra involuntária da secretária da minha tia, que ao ser abordada com a seguinte frase ‘tem alguém jovem da família envolvido num acidente aqui’ respondeu ‘O Marcio em Laranjeiras? A Marcela na UERJ?’. Fácil demais. Pouco sabia o babaca que, numa terça-feira às 10 da manhã, minha tia estaria com sua família reunida num barco em Niterói. Depois veio pedir cartões telefônicos pelo trabalho que teve botando medo e irritando minha tia. Vejam só.

No final de janeiro, enquanto viajava para Vitória para ver um amigo e fazer contatos profissionais, minha avó recebeu um telefonema igual. Uma criança gritava ‘vovó! Socorro, vovó! Estão me sequestrando!’. Minha avó pensou em todos os netos e no que mais se assemelhava à voz que escutava. ‘Bruno? É você, meu querido??’. Óbviamente o ladrão adorou e passou a forçar tudo da minha avó. Tadinha, ficou toda preocupada e eu lá, perdendo a linha no rock com meu amigo e a lindíssima Marcela que conheci lá e por quem me apaixonei instantaneamente. Depois de ser acalmada pelos meus pais consegui falar com ela. Perguntei logo ‘vó, a senhora acha realmente que eu, gordo e barbudo desse jeito, gritaria desesperadamente “vovó! Vovó!”?’. Ela riu e tudo ficou bem.

Agora a campeã é a de um amigo meu. Morando sozinho com a namorada, ele recebeu uma ligação dessas. Um menino gritava e gritava, e o bandido o ameaçava de morte. Meu amigo entrou na onde e gritava ‘meu filho! Oh, não! Pelo amor de deus não faça nada com ele! Te dou o que quiser!’. O bandido pediu uma quantia xis, prontamente aceita pelo meu amigo. Depois ele retrucou ‘mas, por favor, não machuca ele não! Preciso de tempo para arranjar o dinheiro!’. Fingindo total desespero, ele continua. ‘Senhor, por favor, preciso de pelo menos umas horas para conseguir esse dinheiro. Enquanto isso, preciso de um favor seu. Meu filho, coitado, tem certas necessidades. Sempre tento fazer o melhor por ele, e peço ao senhor que me ajude nesse momento tão dificil para a minha família. Meu filho não vive sem comer um cuzinho por dia. É o que o deixa feliz. Por favor, me ajude. Dê seu cuzinho pra ele enquanto arranjo o dinheiro. Sei que deves gostar. Peço isso, pelo amor de deus, para amenizar o trauma da criança.’ Claro que o que se seguiu foi um gigantesco acervo de xingamentos do lado do bandido e risos do lado do meu amigo. Podemos viver numa cidade de merda, mas pelo menos nos divertimos.

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