Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Um estranho no ninho
14-setembro-2007, 9:38
Filed under: Diatribes

Quarta representei a família num momento difícil – a missa de sétimo dia de uma das melhores amigas da minha mãe que, como tantas outras, voi vítima de câncer e padeceu cedo demais. Minha mãe está viajando, meu pai também, então coube a mim representar a todos lá na igreja. E é sobre a experiência que quero falar.

Entrar numa igreja pra mim, hoje, já é algo esquisito demais. Acho até bonita a arquitetura, e a de São Paulo Apóstolo, que fica aqui perto em Copacabana, é bem simples e elegante. Não é opressora nem tem imagens de morte e sofrimento pra todos os lados. Pelo menos não vi.

Mas aí começou a missa. Sentei diretamente atrás do grupo de amigas da minha mãe, quase todas presentes, pra oferecer meu apoio, mesmo que meramente presencial, e vi no sofrimento delas algo que também remete, e muito, ao sentido que criei para essa religião. O padre, depois de uma leitura de algum salmo, iniciou um sermão que foi, pra mim, justamente a razão de todo meu ateísmo ter começado.

‘É na perda que encontramos a religião. Quando não sobra nada, sempre teremos a fé. No desamparo, sabemos que existe o conforto da religião, o conforto de deus, para nos confortar.’

Vi o que me dá calafrios de pensar hoje. É justamente a cegueira da fé que mais me fez virar ateu. É a falta de questionamento, a falta de busca por uma verdade, a falta de vontade de buscar sentido nas coisas que se contenta em apioar-se na fé pra tudo. Fé é justamente a falta de questionamento, de procura por respostas. É deixar-se acreditar no que é dito a ti sem perguntar – e, consequentemente, sem nenhuma resposta. Vi as amigas da minha mãe, tadinhas, sofrendo, aflitas, justamente porque a sua religião impôs isso. Existe um medo e um terror da morte na religião católica que contradiz o fato de todos, a princípio, saberem que vão para um lugar melhor depois de sair ‘desse plano’.

Os cânticos, a voz do padre ecoada na nave, sendo em breve seguida por confirmações e pedidos dos fiéis me remeteu à um culto. E é exatamente isso, né. Um culto.

O culto é definido, no Priberam, com dicionário português online, como ‘homenagem que se presta à divindade; religião; veneração, adoração’. É descrito no Wiki como ‘o ato central de identidade cristã através da história’. Só que pra mim é uma falsa compreensão do cultu, em latim.

O Dictionary.com, on the other hand, consegue traduzir o que, pra mim, é uma clara definição de culto: ‘a religion or sect considered to be false, unorthodox, or extremist, with members often living outside of conventional society under the direction of a charismatic leader.’

(uma religião ou crença considerada falsa, inortodoxa ou extremista, com membos comumente vivendo fora da sociedade convencional sob a direção de um carismático líder)

Como nossa sociedade é tudo menos convencional, até isso se aplica. Tudo o que envolve o culto cristão – do louvor à um deus inoperante, da entrega à um homem cuja palavra ninguém pode dizer que é históricamente verdadeira, em cânticos depressivos, reprimidos, fúnebres, que não fazem bem algum a ninguém. Me senti um peixe fora d’água, completamente embasbacado com o processo de submissão e com o andar da missa – agora vista, depois de muitos anos, do lado de fora.

Fiquei me lembrando de todas as frases decoradas, as repostas mecânicas para o padre. E cada vez mais me sentia desconfortado com aquilo tudo. Me virava para assistir as pessoas, entregues à algo que não funciona.

No momento da ‘paz de Cristo’, pude, dentro do processo da missa, cumprimentar do jeito que queria desde o começo as pessoas presentes. Mas não consegui proferir as palavras. Simplesmente sorria e abraçava as amigas da minha mãe. Uma delas, que acredito não ser religiosa, só desejou ‘muita paz’ pra mim. Gostei. Nas rezas, lembrei de todas as palavras, imbuídas e gravadas no meu córtex desde pequeno, mas me vi indiferente à tudo aquilo. Uma outra amiga da minha mãe virou e me disse: ‘obrigado por ter vindo. Ela está bem, num lugar melhor’. Me espanta a ingenuidade, a certeza total de incertezas absolutas.

Lalinha está realmente melhor – porque parou de sofrer. Descansou e fechou um ciclo de vida maravilhoso, que deve ser lembrado e relembrado para todos sempre. Assim manteremos a memória dela viva. E essa memória, sem dúvida, é a perpetualidade da sua vida.

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