Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


As aventuras do mini viking – Capítulo 12: Viking da cara preta
30-janeiro-2008, 8:43
Filed under: As aventuras do mini viking

Mini viking volta triunfante. Quer dizer, nem tanto. Poucas histórias da minha infância contam com triunfos. Mas pelo menos servem para entreter. Eu acho.

Voltamos ao sítio na Posse. Eu tinha um sítio na estrada da Possêee… e estávamos num belo inverno, cercados de familiares, num clima jovial e prazeiroso da época de São João.

Nunca entendi bem a Festa de São João. Nem bem o porque de sua existência. Só sei que adorava dançar quadrilha, colocar placas de flanela nas minhas calças antigas e pintar bigode e costeleta com o lápis de olho da minha mãe. Engraçado que ser o noivo nunca me interessou muito. Devia gostar de ser o amante. Tem que tê, tem que tê, tem que tê um amante…

Estávamos lá, serelepes e jubilantes, brincando de São João. Na necessidade incessante de piromania dos meus tios, aqueles rojões escrotos comprados em Caxias no Fogão (aquele com símbolo do Flamengo na lateral) estavam presentes. Com toda sua força, qualidade e espantosa variedade de explosões, meus tios os colocaram, lado a lado, para a apresentação final. Le Grand Finale. It’s the end of the world as we know it…

E lá fui eu, pequetitico que só, assistir ao expetáculo. Ávido por um camarote especial, me posicionei estrategicamente atrás do meu tio Sérgio. Tio Sérgio, por sua vez, apontou com gosto o rojão a ser lançado.

Cinco… quatro… três… dois… um… PFFFT!

Nada de um céu coberto por fagulhas mágicas de som e luz. Nada da maravilha tecnológica de pirotecnia caxiense. Nada de ninguém ver porra nenhuma acontecer. A não ser eu.

Atrás do meu tio, atrás do rojão, vi a joça explodir ao contrário e uma nuvem de pólvora e fumaça me atingir em cheio. O mundo escureceu. Comecei a entender ali, aos quatro, os ensaios sobre a cegueira. Porque só aos quatro mesmo pra gostar da joça do livro do Saramago.

Pisquei. Olhei pra cima. Terror no rosto do meu tio. Horror no rosto do meu outro tio. Pavor no rosto do meu pai. O mundo rodou mais lentamente. Todos os movimentos eram em câmera lenta.

Virei para a esquerda. Em tons baixo-barítonos (aqueles tons muito mais graves e escrotos que aparecem nas vozes das pessoas em filmes quando tudo está mais devagar) minha avó gritava ‘voooocêsss quuuueeeeimaaaraaam ooo rooostooo dooo meeeu neeeetoooo!!’. Pandemônio se instaurou e Murphy riu.

Me encontrava completamente estático nesse momento. Não entendia nada. Mal sabia que estava, de fato, com o rosto completamente tomado pela pólvora e dejetos pretos. Um perfeito Tião Macalé nórdico.

Vi minha avó quase desmaiar. Vi minha mãe berrar. Vi meus tios e meus pais se desesperarem. Envolto no caos comecei a chorar. Um choro nervoso, sem sentido. Um choro de ver todos nervosos.

Lá veio a toalha molhada. Um banho que tomei de água fria em pleno inverno na Posse. Porra, podiam ter esquentado a água pelo menos. Nunca pensam no meu bem-estar. Malditos. Pensei que fossem me enfiar na piscina. Ainda bem que estava coberta.

Com a minha avó ressuscitada, minha mãe mais calma, meu rosto limpo e todos mais alegres, voltamos às celebrações de São João. Muita música ridícula, muita quadrilha fora do tempo – com direito à tunel onde todos se esbarram e destróem a idéia da brincadeira. Minha roupa ainda estava um pouco suja. Não me importei.

Tinhamos rojões pra acender.



In rainbows in my hand
29-janeiro-2008, 5:27
Filed under: Música

Minha linda (ó, céus, que fofs!) aparece aqui com um pacote deixado pra mim na portaria. Não lembrava de ter pedido nada há tempos, então a própria embalagem já era, por si só, um mistério bom. Na etiqueta, ainda mais estranho, estava uma coroa – símbolo da TNT Post. O remetente era uma tal de Sunset International BV, localizada nas Nederlândias. Vixi Maria, pensei eu.

Abro como quem não quer nada o pacote. Perfeitamente quadrado, do tamanho de… um… vinil… MEUS SANTOS DEUSES É O ‘IN RAINBOWS’!! Arranquei com toda força a embalagem, me deparando com o box set que há tempos pedi e nem lembrava mais que ainda não havia o recebido. Meus olhos se encheram d’água, tremia feito um idiota e lá estava ele – um invólucro lindo, cinza, com ‘in rainbows’ escrito em um tom acinzentado claro. Não sabia o que fazer. Fiquei pasmo, olhando a capa do box set, esperando que algo me fizesse abri-lo. Mas só a surpresa e a felicidade em vê-lo em minhas mãos já se mostrava suficientemente bom na hora.

Ainda sinto aquele tesão indescritível ao abrir um cd. Imaginem o que passou pela minha cabeça quando abri um box set maravilhoso, perfeito, com dois cds, um encarte lindíssimo, um livro de ilustrações e um vinil. Nirvana nunca esteve tão perto.

Toda a proposta do Radiohead, de deixar orgulhoso e de olhos mareados o Adam Smith, foi de dar ao mercado a precificação do seu novo trabalho. E a resposta não poderia ter sido mais impressionante. Sem intermediários, faturaram no lançamento mais que em toda sua carreira pela EMI. É um ponto interessante, mas um exemplo que não pode ser seguido por outros artistas de menor renome e menor fanatismo por parte dos seguidores. Pois não é qualquer banda que consegue o feito do Radiohead.

‘In Rainbows’ não é o melhor trabalho deles. Nada bateria, nem num baterá, o ‘OK Computer’. Mesmo assim é um álbum fantástico, que poderia ter sido menos experimental, mas que renova a posição do Radiohead como uma banda diferenciada, brilhante, inovadora. ‘Weird Fishes/Arpeggi’ é de longe minha predileta.

Impressiona a minha vontade de descobrir um novo álbum assim. De querer abrir o invólucro, apreciar todos os mínimos detalhes. Sou daqueles que procura até nos agredecimentos da banda um veículo de prazer. Não sei como ser diferente. Entendo baixarem músicas (como também faço), mas comprar um cd, ainda não ouvido, de um artista com o qual existe um grande nível de cumplicidade e reconhecimento é uma experiência indecritível.

O box set do ‘In Rainbows’ está me encarando. Ainda falta muito para me sentir satisfeito com sua exploração. Espero que alguns de vocês consigam sentir o que senti, e sinto, ao me deparar com essa obra de arte. É bom demais.



Quem é bi é dois em um?
28-janeiro-2008, 11:55
Filed under: Diatribes

Há uma discussão rolando por aí. Já apareceu na Época, num artigo fantástico do Adriano Silva. Já deu notícia na BBC Brasil. Vira e mexe é papo de mesa de bar. Agora voltou, mas uma vez.

Será que um dia iremos, de fato, deixar de lado o sexo e nos tornarmos bissexuais naturais?

Existe hoje a modinha de meninas se pegarem, junto com outros garotos, na noite. Ou seja, é fácil ver hoje em dia meninas se beijando e depois beijando meninos. Elas dizem que não tem nada demais beijar amiga. Mas só beijam amiga. Eles estranham, mas depois acham o máximo.

O que a reportagem imbecil do Terra não abordou, nem sei se quer, é a tendência, cada vez mais forte, de sublimação do fator sexo pelo fator efêmero da personalidade. Pra mim torna-se mais normal acreditar que, muito em breve, pessoas gostaram de pessoas, sem deixar que o sexo entre no caminho.

José um dia vai gostar do Geraldo simplesmente porque o Geraldo é uma pessoa sensacional, que ajuda, acolhe, diverte e interessa. Pode ser que José perca a vontade de ficar com Geraldo porque Selma, com charme e inteligência diferente do Geraldo, faça José desejar mais ela do que ele. Mas em nenhum momento será questionado o sexo da pessoa em questão. E sim se ela é bondosa, carinhosa, inteligente, simpática, divertida e companheira.

Imagino que um dia teremos uniões mais estáveis justamente porque pessoas procurarão quem mais os completam – e convenhamos que isso será muito mais fácil a partir do momento que o sexo não entra como prerrogativa principal para a interação entre pessoas. Se fala sobre a modinha gay, que é bacana explorar a homossexualidade pra ver qual é, mas mesmo essa moda declara algo interessante.

Será que está imbuído em cada um de nós uma noção de homem e mulher ou isso nos é ensinado e a partir disso fazemos uma clara distinção? Eu acho que não.

Será que nossa repulsão, como sociedade, à união entre duas pessoas do mesmo sexo não é simplesmente e somente algo que trazemos de nossos berços? Discordo tanto que tenho certeza que em poucas gerações, como bem disse o Adriano Silva, isso sequer será questionado na sociedade.

Nunca vi nenhum problema em pessoas do mesmo sexo terem qualquer tipo de relacionamento. Não só entendo como acho lindo ver um casal feliz – e nunca me importei se ambos são XX ou XY. Quem sou eu para criticar, julgar ou discordar de duas pessoas claramente felizes e contentes, fazendo bem uma para a outra? Haverá um dia em que a moral e a ética da pessoa contará muito mais para sua aceitação social que o sexo da pessoa com quem ela escolhe dividir sua cama.



Kit milagroso
24-janeiro-2008, 9:42
Filed under: Diatribes, Politicalidades

 

Uma das melhores idéias que vi nos últimos tempos está sendo questionada (quem diria) pela Igreja – a ponto dessa mesma ameaçar entrar na Justiça.

Um envelope denominado ‘Kit Saúde da Mulher’, contendo uma camisinha masculina, uma feminina e pílulas do dia seguintes serão distribuidas aos foliões em Recife e Paulista, em Pernambuco. Uma idéia genial, capaz de ajudar milhares de mulheres que, praticando sexo sem proteção, possam se encontrar numa difícil posição assim que acordarem de seus torpores alcoólicos. Uma iniciativa que deveria se tornar padrão em todos os estados do Brasil é não só questionada como ameaçada pela Igreja Católica.

Com base na estúpida idéia de que isso seria uma afronta à vida, a pastoral da Saúde, liderada por um certo Vandson Holanda, diz que esse kit é um ‘caminho para a cultura da morte’. Olha só, querido, em primeiro lugar o Estado é LAICO. Não pode, nem nunca deve, se sujeitar aos anseios e reclamações de instituições religiosas. Segundo, não é uma ‘cultura da morte’ ajudar mulheres desprevinidas e desinformadas a conseguir previnir doenças e uma gravidez que possa destruir a estrutura da vida delas. É uma afronta ao bom senso (conhecem isso?) tentar lutar, em vão se ainda existe espaço para esperança que esse país tem alguma coisa de bom ainda, contra uma medida que ajudará tantas pessoas numa época em que é muito mais propício o sexo casual e desprotegido e a gravidez indesejada.

O aborto é responsabilidade da mulher, com todos os seus prerrogativos pessoais e emocionais. Não cabe a nenhum de nós, e muito menos à uma instituição religiosa, ditar como cada um deve seguir sua vida. Por mais que isso seja socar em ponta de faca, eu ficarei aqui, até chegar no osso, lutando contra a estupidez da Igreja Católica e enaltecendo iniciativas como essa dessas prefeituras, ainda acreditando que esse Estado nosso possa sim ser minimamente laico – rejeitando as loucuras de arfantes crentes e, com a coerência e parcimônia dignas de um Estado são, propor soluções como essa em questão sem pestanejar.



Heath Ledger morto
22-janeiro-2008, 8:04
Filed under: Diatribes

O Heath Ledger foi encontrado morto hoje. Cacete. Disseram que pílulas foram encontradas perto do seu corpo. Mais um. O número de atores que morrem por motivos menos que justificáveis cresce muito. Alguns dizem que é pressão da profissão. Outros que são atores problemáticos, que não acharam saída para seus demônios.

Brad Renfro também morreu, exatamete uma semana atrás, ainda sob causas não-determinadas. Só que ele tinha histórico de abuso de drogas, com visitas à justiça. Seu velório teve participação maciça de seus fãs. Ainda sim não se vê com freqüencia dois atores, ainda jovens, se matando assim.

River Phoenix, Chris Farley… gente demais se deixando levar pelas drogas e problemas – seja lá quais forem. Nunca consegui, nem acho que um dia conseguirei, entender o suicídio. Não entendo a possibilidade de chegar a ponto de me matar. Por nada. Não importa o problema, é fichinha comparado ao valor que dou à minha vida.

Uma pena que tantos atores (e pessoas menos famosas no mundo todo) não pensem assim.

In memoriam.

(updeite)

Há possibilidades de que a morte do ator possa ter sido acidental. A autópsia não revelou nada também.



O ano em que mais um filme brasileiro não foi ao Oscar
22-janeiro-2008, 7:14
Filed under: Abobrinhas

Será que é tão difícil assim entender o porque do filme ‘O ano em que meus pais sairam de casanão ter ido para a premiação máxima do cinema mundial? Eu, por exemplo, pouco entendi a nomeação do filme – quer dizer, entendi bem, claro, visto que a maioria esmagadora dos ‘experts’ que votaram no filme eram paulistas e, portanto, renegaram por completo um filme bem mais impactante e oscarável – na minha singela e igonorantchi opinião, claro.

A comissão que escolheu o filme foi formada pelos jornalistas Ana Paula Sousa e Pedro Butcher, os diretores de cinema Hector Babenco e Bruno Barreto e os críticos Rubens Ewald Filho e Leon Cakoff. ‘O Ano…‘ desbancou outros 17 filmes inscritos, incluindo ‘Tropa de Elite‘. Carioca, o ‘Tropa de Elite‘ do Padilha foi jogado para escanteiro devido a uma politicagem ridícula – que privilegiou um filme que demonstrou um ‘mais do mesmo’ no que diz respeito à pinacoteca brasileira.

O Ano…‘ nada mais é que mais um filme sobre a ditadura. Contado sob o ponto de vista de um menino, é interessante, bem filmado, um pouco dramático e cômico ao mesmo tempo – ingredientes básicos para um bom filme. Mas é sobre a Ditadura. De novo. Mais um. É como se o Brasil só pudesse filmar essa época e o Nordeste pobre. Tá difícil ver um filme decente sobre ricos fazendeiros de Rondônia. E fica mais difícil ainda quando os únicos roteiros filmados são justamente aqueles que se utilizam desses mesmos dois pré-requisitos.

Cidade de Deus‘ veio pra apresentar uma visão mais realista da bandidagem e da história de uma incrível injustiça social na criação do complexo habitacional lá em Jacarepaguá. Além disso, só mesmo as mazelas do semi-árido pra levar alguma coisa nossa à maior premiação do cinema mundial (leia-se americano, má vá lá). Mulheres farroupilhas até tentaram, mas não deu também.

Fica a dúvida que, se ‘Tropa de Elite‘ tivesse sido nomeado pelo Brasil, tamanha foi a polêmica que era bem capaz do rolo ter achado seu caminho para a Academia. Mas isso nunca saberemos. Por mim o maior erro foi ter forçado a barra ano passado e terem lançado a película em Jundiaí, no cinema Moviecom Maxi 3, em sessão única às 16h30 só pra ter tempo de ser considerado pro prêmio. Deveriam é ter deixado o filme ser considerado para o Oscar de 2009. Ou não, né? Dizem que filmes violentos não entram no Oscar. Sei não.

O que fica é a decepção de, mais uma vez, não termos um filme representado. E do Wagner Moura não ter tido a exposição necessária, com a não-nomeação do ‘Tropa‘, e assim tentado um lugar dentre os melhores atores do ano. Porque sua representação do Capitão Nascimento foi algo de expetacular.



Maxwell, jump!
20-janeiro-2008, 11:38
Filed under: Abobrinhas

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