Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Highs and lows
29-março-2008, 9:44
Filed under: Perfil

Sexta-feira, 28 de Março de 2008

11h – Envolto com as obras do meu apartamento novo, em Copacabana, me ponho a pensar num programa de Mestrado em Administração que a FGV montou com a Ohio University há um tempo. Programa maravilhoso, que inclui aulas aqui, em inglês, e dois períodos de internato lá em Athens, Ohio. Lembro de ligar para a coordenadora do curso, mas logo me esqueço. Tenho que passar pra comprar tinta pro piso e ver se as maçanetas estão boas. Não estão, então preciso de novas. E ainda falta a papaiz multipontosuperlockplus que vi.

12h – Ainda fico a espera da Tok & Stok entregar os móveis que encomendei no começo da semana. Cama, rack para o televisor e dvd, além da mesinha de jantar, duas cadeiras, criado-mudo e adereços, comprados e a serem entregues no sábado também.

14h – Chego em casa pra almoçar e ver meus tios, que chegaram de Minas na noite anterior para conseguirem visto para a filha ir aos EUA com meus pais e minha afilhadinha. Meu pai conseguiu quatro viagens com as milhas que tinha. Disney, pelo menos no avião, sairá de grátis. Nada mal. Conversa vai, conversa vem, meu pai menciona o mestrado. Finalmente lembro de ligar para a coordenadora do curso.

14h e quebrados – Me é prometida uma ligação do entrevistador para as 16h e tantos. Já estou de volta ao apartamento, lá pelas 15h e pouco, depois de ser deixado pela minha mãe, atrasadíssima para sua visita à minha avó no hospital, com tudo devidamente comprado e jogado nas mãos habilidosas do pintos, chaveiro e eletricista. Nunca pensei que reformar um apartamento de quarto e sala fosse chegar a isso. Um trabalhão da porra – cujo resultado está sendo simplesmente fantástico.

16h02 – Estou sentado no Cafeína da Constante Ramos, esperando ansiosamente o celular tocar. E ele toca dois minutos depois das 16h. A conversa dura uma hora. Simpatissíssimo, o entrevistador declama os horrores do mestrado. Muito puxado, diz ele. Só tem CEOs e diretores de empresa, diz ele. A média de idade é entre 35 e 45 anos, diz ele. Só executivos de ponta fazer esse curso, diz ele. Você está preparado?, diz ele. Sem a menor sombra de dúvida, digo eu. E entro. Sigo feliz e jubilante por Copacabana, meu novo velho bairro, e ligo para minha tia, visto que minha mãe esquecera o celular em casa.

17h05 – Minha avó faleceu às 14h de Brasília.

17h35 – Chego ao Hospital Espanhol e abraço, muito, muito, muito a minha mãe. Vovó Aurora foi o pilar que estruturou minha mãe. Quem a fez viver uma vida até então de completa adversidade. Uma mulher de fibra, de garra e de imenso coração, que acolheu minha mãe, mesmo não sendo de seu útero, e a trouxe à vida.

18h30 – Preciso comprar passagens para Campinas, onde a primeira aula do mestrado é lecionada. ‘Economic Analysis’. Chique demais. Comprei a passagem do ônibus leito, às 23h45, esperando chegar em Campinas por volta das 7h. Como as aulas começam às 8h, é uma combinação perfeita.

19h40 – Minha priminha linda, recém-entrada na Universidade de Viçosa em Engenharia de Produção, chega no Terminal Rodoviário Novo Rio e seguimos até minha futura ex-casa, na Lagoa. Me preocupo sem razão com o horário. Enquanto isso, meu pai está com a minha mãe, resolvendo aquelas pendências chatíssimas de fim de existência. Quisera eu poder estar ao lado dos meus parentes, ao invés de correndo feito louco para conseguir começar meu mestrado. Mas a vida nos apresenta curvas e nós tomamos as melhores tangentes.

23h15 – Meu pai chega, depois de resolver tudo e, claro, ainda se dispõe (faz questão, até) de me levar, junto com o meu tio, para a rodoviária. Parto com coração dividido entre a angústia da perda e o êxtase da conquista pessoal, profissional e acadêmica.



RedeTV! FM – 87,7Mhz
26-março-2008, 9:33
Filed under: Abobrinhas

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Alguém já reparou que a RedeTV pega nos rádios cariocas na frequência 87,7Mhz? Toda vez que vejo que a Hora do Brasil tá chegando, e estou cansado dos mesmos álbuns presos no cd player do carro eu lembro que existe essa joça. O primeiro ponto do dial do rádio é a RedeTV.

Antigamente dava até pra se divertir com isso. Passava o TV Fama nesse horário. Nélson Rubens e cia são o que há de mais… bem… digamos… pitoresco na televisão nacional. Sonia Abraão não chega perto. É de uma futilidade incrível, e não me espanta, ao linkar o site do programa, que a identidade visual dele é igual a do Extreme Hollywood, programaço (sic) americano com a mesma temática. Correr atrás de gente famosa é algo de extremo mal gosto. Por isso adoro quando, por exemplo, o Amarante dá uma lição num puto de um jornalista que pouco sabe o que diz. Todos pensam saber tudo sobre a vida dos outros – e a necessidade de julgar pessoas famosas é absurda e incompreensível.

Mas o que mais me impressionou, semana passada, ao pegar a RedeTV! FM no ar, foi ver que no horário que antes era ocupado pelo Nélson e seus aumentos, não inventos, foi o programa de um tal de Gasparetto. Tal de Gasparetto esse que me fez pensar que eu conhecia esse doido. Esse nome me remetia à um louco que se dizia ler pensamentos e entrar na cabeça de pessoas. Mas não consegui juntar o nome à pessoa logo ali, no carro, no meio do trânsito, louco pra chegar em casa.

O programa é o Encontro Marcado. O que mais impressiona a quem coloca treze segundos de atenção ao site é a descrição do apresentador.

‘ Luiz Antonio Gasparetto já não se diz mais espírita há um bom tempo, por acreditar que a religião cria divisões. Embora continue cada dia mais antenado com o astral, uma fonte de inspiração constante em seus estudos sobre a espiritualidade.

Também já cancelou seu registro de psicólogo, o que lhe dá a liberdade de questionar conceitos de forma mais abrangente e experimentar novos meios de ajudar as pessoas. Um de seus prazeres inegáveis é mudar a toda hora.’

Ou seja: ele não é absolutamente nada! Rejeita o rótulo de espírita por não gostar do rótulo de religioso. Não é mais psicólogo porque, bem, vejamos, falar que conversa com espíritos não é bem conduta que se preze qualquer profissional do ramo. Só não é mais psicólogo porque é chacota dentre os mesmos – afinal, ter ‘liberdade de questionar conceitos de forma mais abrangente’ nada mais é que simplesmente não sequir regra científica alguma, e priorizar o que ele bem entender.

Sua voz, mansa e calma, irrita até uma rocha basáltica. Sua frases são proferidas com tamanha esotericidade e de modo tão blasé e efêmero que quase bati com o carro só pra causar algum sentimento no meu célebro, já completamente adormecido e entediado.

Fique estupefato com as perguntas das pessoas. Uma mulher que perdeu a avó mas ainda a sente em sua vida, limando sua sorte e atrasando sua vida sexual. Sim, isso mesmo meu povo. A velha do além tava fazendo com que a neta não ganhasse piroca no fim de semana. De propósito. Velha escrota, né?

Gasparetto logo veio dizer que sabia exatamente do que ela estava falando. Pasmem. Disse que já teve espíritos o segurando, mas que com sabe-se lá que método de expurgação (ir à um pai-de-santo e fazer uma exorcisão, lembro vagamente) isso passaria. Peguntou a ela se ela conhecia um centro de umbanda, ela disse que sim, e ficou-se decidido que o caminho era a macumba. Fantástico.

E é assim que me vi gastar o tempo num belo entardecer da semana passada. Me irritando com as palavras estúpidas de Gasparetto, com a estupidez inacreditável do povo brasileiro e me divertindo com os comercias da RedeTV!, que sem imagem são um exercício de imaginação dos bons. Ô, tédio…



Rogério e seu ônibus
24-março-2008, 1:27
Filed under: Contos

Rogério não está bem. Rogério não está feliz. Rogério pensa que a vida seria mais simples. Que tudo se ajeitaria no final.

Mas que final é esse?, indaga Rogério. Seus pensamentos divagam a ponto dele mesmo se esquecer onde está – no ponto de ônibus, em uma cidade que não a dele, esperando não sabe o quê, ao lado de uma senhora de feições tão comuns que parece conhecida. As coisas meio que acontecem com Rogério. Ele nem bem sabe por quê.

Ainda sim ele se põe a pensar nos últimos acontecimentos. No que o levou a esse ponto de ônibus obscuro, no meio do nada. Ele olha para o poste ao lado do ponto, com sua luz incadescente apagando e ligando, randomicamente, e pensa que sua vida está muito próxima disso. Seu amor fugaz, eterno e sublime, sua decepção, profunda e sombria, sua felicidade, repleta de magia, sua deprimencia, completa e tardia.

Os brilhar da luz do poste se extingue. Rogério e a velha se encontram num breu sufocante, temeroso. Rogério olha para os olhos, tão sofridos, calmos e pacatos da senhora e oferece o que lhe sobrou de compaixão.

‘Se a senhora quiser, podemos andar até o ponto seguinte, onde dá pra ver que tem luz. Ali, ó, no final da rua.’ Os olhos de Rogério não conseguem se firmar nos olhos da senhora. Ela apresenta tamanha tranquilidade que desestabiliza Rogério. Sem ter mais o que fazer, ele se volta para o final da rua, onde ainda vislumbra-se alguma luz.

Sombras e barulhos seguem a escuridão. No final da rua, a uns quinhentos metros, vê-se um cachorro, caminhando vagarosamente pelo ponto de ônibus iluminado, cheirando seu assento e rodeando seu sinal. O cão parece olhar para Rogério, e com um uivo de partir a alma de qualquer um se despede, caminhando para o outro lado da rua, dobrando a esquina quase imperceptível e sumindo de sua visão.

Rogério vira-se para a senhora para lhe convidar a ir ao ponto mas ela não mais está lá. Ao invés do corpo gasto e enrugado da pobre senhora está um livro, com marcação definida. O livro é de capa azul, sem nome, e parece velho. Antigo. Sabio.

Ao abri-lo Rogério sente uma brisa atingir seu rosto. Mal é possível enzergar qualquer coisa, mas seus olhos já se acostumaram com a penumbra e, se ele conseguir se concentrar e olhar fixamente as palavras do livro é possível ler algumas passagens. Poucos parágrafos estão na língua que Rogério escuta desde criança. Nunca quis aprender outra, por achar que nunca precisaria saber. Ele vasculha as folhas, vagarosamente, tentando de alguma forma compreender alguma coisa escrita.

Maldita penumbra, pensa ele. Mal consigo enxergar as letras maiúsculas, quiçá as pequenas. No outro ponto há luz. Levo esse livro até lá.

As primeiras pedras portuguesas, caprichosamente colocadas na calçada do ponto, se desmancham quando Rogério nelas pisa e caem num buraco de extrema profundidade. Rogério pula para trás, para o cimento do ponto de ônibus, e por pouco não se vê caindo no buraco agora deixado na calçada pelo seu passo.

‘Preciso ficar aqui’, diz ele. Ninguém aparenta escutar, mas mesmo assim Rogério insiste. ‘Desculpa, viu? Eu só quero ir pra casa!’. O cachorro reaparece da esquina, olha para Rogério, se desloca calmamente até o encontro do ralo da rua com a calçada e se joga nele, desaparecendo como a chuva de verão que assola a cidade.

Rogério olha para a rua a sua frente. Seu cimento escuro e frio. Os olhos de gato da rua parecem o acompanhar. Seu brilho escondido pela falta de iluminação os tornam ainda mais ofuscantes.

De longe aparece um barulho. Um ruído, quase imperceptível. Rogério logo ouve o som do motor. É um ônibus. Chegara a sua saída. O livro ainda se encontra na mão de Rogério. Sua capa áspera roça contra as mãos delicadas do escritor.

As luzes potentes do ônibus dobram a esquina. Ele passa pelo ponto iluminado no final da rua mas mesmo assim nehuma sombra é vista. Somente as luzes, se movimentando no pavimento negro.

Rogério faz sinal. Ergue seus braços e desafia as luzes a parar. Vê naqueles dois focos brilhantes a esperança de sair da escuridão. De encontrar seu caminho. De chegar ao seu destino final.

As luzes se aproximam. Parecem acelerar. Se tornam ainda mais claras. Um zumbido toma conta dos ouvidos de Rogério. Ele põe as mãos para proteger os ouvidos. Seu livro cai no cimento do ponto. As luzes estão tão perto que é impossível manter os olhos abertos.

Elas estão a metros dele. Gigantes, perfeitas, medonhas. Rogério suspira seu último suspiro. Se curva diante do som e da luz. Se entrega, em posição fetal, ao inevitável.

A ausência de som e luz é eterna.



Tributo Los Hermanos
21-março-2008, 2:46
Filed under: Música, Perfil

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Em pé: Leandro (Napolitanos) e Bernardo (Nizamba)
Sentados: Fred (Columbia) e Pedro (3Steps)

É hoje, meu povo. O tributo ao Los Hermanos. Um projeto meu, de coração, que finalmente verá a luz do dia.

Um tributo não precisa ser para ninguém morto, como já sugeriram. Um tributo não precisa ser nada mais que uma homenagem à uma banda que fez tanta gente tão feliz tantas vezes. Esse tributo é um grande ‘obrigado, Hermanos’.

Apareça, quem puder e quiser. Às 21h começa a brincadeira. Mário Mamede, baterista do Moptop, estará lá como DJ ajudando a festa. 22h começam os shows.

– Napolitanos: ‘Condicional’, ‘Casa pré-fabricada’, ‘Tá bom’, ‘Tenha dó’, ‘Fingi na hora rir’;
– Nizamba: ‘Último romance’, ‘Retratro pra Iaiá’, ‘Samba a dois’ e ‘Morena’;
– 3Steps: ‘Todo Carnaval tem seu fim’, ‘Além do que se vê’, ‘O vencedor’, ‘De onde vem a calma’;
– Cinzel: ‘O velho e o moço’, ‘O vento’, ‘Cara estranho’, ‘Deixa o verão’, ‘Santa Chuva’;
– Filhos da Judith: ‘Conversa de botas batidas’, ‘Anna Julia’, ‘Primavera’, ‘Quem sabe’;
– Columbia: ‘A flor’, ‘Sentimental’, ‘Bom dia’ e ‘Pierrot’.

Estatísticas interessantes da votação:

– 18 das 20 músicas mais pedidas no orkut estarão no Tributo.
– Foram mais de 600 votos;
– As duas mais votadas são do álbum ‘Ventura’;
– ‘Último Romance’, do Amarante, foi a música mais votada;
– As mais votadas de cada álbum foram: ‘Último Romance’ do ‘Ventura’, ‘Retrato pra Iaiá’ do ‘Bloco do Eu Sozinho’, ‘Condicional’ do ‘Quatro’ e ‘Quem Sabe’ do ‘Los Hermanos’. Todas do Rodrigo Amarante.
– ‘Anna Júlia’ ficou em 31° lugar na votação.
– O álbum ‘Ventura’ tem 12 músicas no top25, ‘Bloco do Eu Sozinho’ tem 5, ‘Quatro’ tem 5, e ‘Los Hermanos’ tem 3;
– Foram votadas impressionantes 61 músicas;
– Das top25, 13 foram compostas pelo Rodrigo Amarante e 12 pelo Marcelo Camelo;
– Amarante também tem a mais votada, três das cinco mais votadas e seis das dez mais votadas.

Soube extra-oficialmente que 150 ingressos estão sendo vendidos diáriamente desde o começo das vendas. Esse Tributo tem tudo para ser simplesmente antológico.

Desde já agradeço, e muito, a todos os membros de todas as bandas que se despuzeram a participar desse evento, que gastaram tempo e dinheiro ensaiando, que estiveram comigo, lado a lado, montando essa homenagem, com tanto carinho e dedicação. Devo tudo isso a vocês.

E, finalmente, muito obrigado Los Hermanos. Minha banda predileta. A primeira banda de rock nacional pela qual me apaixonei perdidamente. Ainda não tive a oportunidade de apertar a mão de cada um de vocês, mas saibam, do fundo do meu coração viking, que eu devo muito a vocês. Vocês fizeram meus momentos de alegria mais alegres. Fizeram meus momentos de tristeza serem mais sofridos. Fizeram minhas angústias mais profundas e meus sonhos mais lúcidos.

Esse tributo é pra vocês. Por vocês. Muito obrigado.

Updeite: 1200 pessoas gritaram, berraram, pularam, dançaram, cantaram junto com as bandas. Foi um prazer incrível dividir meu sonho com vocês. Muitíssimo obrigado a todos que compareceram, e espero poder prover-lhes outras homenagens como essa no futuro próximo. Foi o melhor show que já produzi – e devo tudo isso às bandas, ao público, ao Circo e aos Hermanos. Mais uma vez, obrigado!



Rendezvous with the end of it all
19-março-2008, 5:34
Filed under: Literaturalidades

Arthur C. Clarke se despede de todos nós, tendo criado o que é, talvez, o maior legado científico-literário da história da humanidade. Sem contar que ele trouxe à tona a idéia de satélites geoestacionários – que revolucionaram a comunicação global e hoje só sabemos da notícia dele tão rapidamente por culpa dele mesmo.

Em 1945, Clarke percebeu que, numa certa órbita ao redor da linha do Equador, a cerca de 36 mil quilômetros de distância, os satélites que ali residiam ficariam o tempo todo sobre o mesmo ponto da superfície da Terra. Seus estudos em física e matemática no King’s College de Londres deram os frutos necessários. Sua experiência com radares na Segunda Guerra deve também ter ajudado. O que torna Clarke ainda mais fascinante foi o simples fato dele me fazer pensar. Pensar, refletir, e me imergir por completo em teoremas físicos, em projetos e programas de astrofísica que nunca teria tido a oportunidade de me aproximar se não fossem as palavras dele, contidas em livros inacreditavelmente interessantes e bem-escritos.

O escritor concluiu que, com apenas três satélites em posições estratégicas na órbita geoestacionária (hoje também chamada por alguns de “órbita de Clarke”), seria possível estabelecer um sistema de telecomunicação que atingisse todos os lugares do mundo. A idéia geral foi aplicada para proporcionar a revolução nas telecomunicações marcada pelas transmissões ao vivo via satélite.

Rendevouz with Rama‘ foi o primeiro livro que li do ACC. Um corpo celeste é descoberto perto de Júpiter e nomeado com o nome da deusa hindu Rama. No século XXII os cientistas esgotaram os deuses gregos e romanos). O asteróide 31/429 é descoberto em 2131 e uma análise de sua trajetória revela que ele se move extremamente rápido e que vem da vicinitude uma estrela que deve ter deixado há 200,000 anos atrás. Sua rotação de quatro minutos e seu tamanho gigantesco também são um problema. Imagens de um satélite revelam seu tamanho cilíndrico de 16km de diâmetro e 50km de comprimento.
Uma equipe é mandada ao encontro da nava (daí o título ‘Rendevouz with Rama’), e conseguem alcançar a nave na órbita de Vênus. Entende-se que a nave passará a menos de vinte mil kilômetros do Sol, para depois nunca mais ser vista. Os mais de vinte tripulantes da equipe de reconhecimento, liderados pelo Comandante Norton, entram em Rama e exploram seu vasto interior. A natureza e o propósito da nave são um enigma indecifrável.

O livro termina com uma chamada a outros dois – apesar de Clarke, no momento de tê-lo escrito, disse que não pensava em sequências. ‘Rendezvous’ ganhou prêmios e transformou o Clarke na referência de literatura de ficção-científica que ele é hoje.

Gentry Lee se juntou ao autor para outros três livros, além de outros dois lançados sem a consultoria de Clarke. Tive o prazer de ler ‘Rama II‘ e ‘The Garden of Rama‘, que agora me olham, na estante, com ares de tristeza e melancolia. ‘Rama Revealed‘, quarto e último livro feito com Clarke, agora me espera, na Amazon, quietinho, e vou comprá-lo ainda hoje para ler o quanto antes. Talvez nunca senti tanta vontade de ler um livro.

Arthur era um gênio. Um cérebro fantástico, capaz de criar mundos e teorias inacreditáveis – e soluções imensuravéis para o bem-estar humano. Um daqueles que pra sempre gravarão seus nomes na história da humanidade. Devo a ele não só a noção de informação irrestrita que tenho, como também devo a ele a felicidade que tive ao entrar em todos os mundos e todas as suas palavras, de ‘2001‘ a ‘The Songs of Distant Earth‘. Leiam ‘The Star‘, talvez a melhor short story dele, de grátis.

Perdi Sir Gygax e Sir Clarke na mesma semana. Meu(s) mundo(s) nunca mais será(ão) o(s) mesmo(s).



Estupidez tupiniquim
18-março-2008, 1:11
Filed under: Diatribes

Sentado no saguão do Hospital Espanhol, onde minha querida avó de 101 anos está internada desde a quinta passada – justamente dia de seu aniversário. Não bastasse o ambiente escroto, ainda tenho de aturar conversas alheias que preferia nunca ter ouvido.

Na televisão, passa a chamada do Jornal Nacional. William Bonner, no seu casual cabelo Richard-Gere-tem-uma-mecha-branca-acima-da-testa, anuncia uma chamada: ‘Menina de 12 anos é encontrada acorrentada em sua casa em Goiânia. Mãe é responsável por essa atitude barbárica’.

Uma nojenta sessentona, com cara suja e olhar de imbecil, resolve abrir a boca. Olha pra o filho, um jumento de camisa regata branca, short branco e havaiana. O pai-de-santo da Praia do Joá.

‘Se foi acorrentada é porque deve ter merecido. Ninguém é acorrentada sem merecer!’

Uma velha decrépta, vestida de uma desculpa de vestido hediondo branco, que rezei por qualquer deus para que não conseguisse vislumbrar sequer a menor possibilidada de transparência, por menor que fosse, vira-se para a anta que proferiu a primera frase.

‘Ah, isso com certeza! Deve ter sido impossível de criar, essa daí. E tenho certeza que não é a única. Muitas mães devem fazer isso com suas filhas rebeldes. E com razão.’

‘É mesmo,’ diz a primeira vaca, ‘fácil é dizer que é errado. Queria ver ter de lidar com uma filha assim! Bobear vão até prender a mãe! Quer ver?’

Vaca velha resolve soltar mais umas pérolas. ‘É mesmo. Aposto que vão prendê-la. Mãe quer dar disciplina e vira monstro. Esse é o Brasil.’

E pronto. Simples assim. Esse é o Brasil.

Não é difícil ver porque o Alex levantou questionamentos sobre a pesquisa do Ibope. Não é difícil enxergar o nível para o qual nos rebaixamos como sociedade. Estupidez já não serve mais. Passamos do limite.

Estamos completamente fudidos.



O que não entendo
17-março-2008, 1:25
Filed under: Diatribes

Não consigo entender esse facínio pelo Big Brother. O que há de tão absurdamente interessante em assistir, até (pasmem) 24h por dia, a vida de pessoas escolhidas a dedo pela emissora de televisão na qual passa o programa – escolha essa que deve se basear primeiro na falta completa de neurônio e/ou bom senso do candidato.

Fico impressionado ao ver como esse programinha mobiliza tanta gente. O quanto ele é querido por muitas pessoas ao meu redor – e o quanto ele é alimento de conversas longas e frutíferas (pros outros). Eu, no entanto, fico lá, completamente boquiaberto ao ver pessoas ao meu redor discutindo o que fulano falou pra beltrano, como cicrana falou mal de jagúncio por trás de suas costas e por aí vai.

É no mínimo curioso entender que essa necessidade e, portanto, vontade humana de espiar a vida dos outros é trabalhada num programa de televisão onde quem está de fora é inserido na brincadeira e acaba se tornando, consequentemente, em cobaias maiores do que aquelas presentes no confinamento da casa sensacional do Projac. Todos são jogados no caldeirão e são cozidos lentamente e voluntariamente, afim de torcer, votar, vibrar, sofrer e xingar pessoas altamente inúteis para nossas vidas. Pessoas sem brilho, sem valor, sem conteúdo, mas que mesmo assim atraem a atenção (e o dinheiro, diga-se) de milhões e milhões de brasileiros.

Pode até ser que muita gente vota mais de uma vez num personagem da casa, mas mais de sessenta milhões de votos, dentre internet, wap e telefone é algo completamente absurdo. Um terço da população, em números incientíficos, prestaram atenção na vida de um bando de gente que, nas CNTPs nunca estariam nem de longe no escopo do espectro visual de cada um. Pessoas pelas quais, imagino, até rejeitaríamos por inúmeras razões.

Ver o quanto se torna necessário para todos a audiência desse programa é que entendo, claramente, a vontade da emissora em partir para edições infinitas de um produto que rende aos seus cofres cifras inimagináveis. É tolo querer conter a vontade do povo, visto que dizem que o povo é a voz dos deuses (são tantos existentes que fica difícil dizer qual é o ‘um’), né, e acho incrível como é normal para todos participar da vida alheia como se tal pessoa, lá dentro da casa, que nunca viu sua cara nem nunca veria em uma vida inteira, merecesse seu julgamento tão invasivo e fácil.

Não suporto o Big Brother. E olha que tentei ver algumas vezes. Nunca consegui. Me pareceu curioso quando o sarado inventou uma boneca. Até essa edição, só soube de verdade quem ganhou todas as edições porque é simplesmente inevitável saber. E de todos que ganharam lembro do Kléber, de um chamado Caubói, do Jean e do Alemão – cujo nome também não sei.

Não acho o programa um estudo legal de relacionamento humano. Se pegassem pessoas que colaborassem para tal estudo, até poderia virar algo mais legal. Agora, um bando de gente saradinha e semi-bonita em média, sem absolutamente nada de importante a dizer em momento algum, e sem qualquer tipo de noção de como se relacionar mais do que meramente superficialmente com outras pessoas não conseguem, nem querendo, agregar absolutamente nada a ninguém, até lá dentro da casa mesmo.

E por mais que tente não acho legal nada relacionado ao programa. A fama ridícula e desnecessária de seus membros. As fotos patéticas em um site da emissora com poses sensuais e ‘picantes’. A caroça de um indivíduo baladeiro e preiba de Sampa aparecendo em todos os jornais de domingo d’O Globo no caderninho da loja de varejo que vende de talheres de plástico a televisores de plasma.

Não consigo entender o interesse geral da nação por essas pessoas. Não entendo como é que, ano após ano, a audiência consegue subir e, claro, o faturamento da emissora crescer exponencialmente. Não consigo entender como é que se acredita, dentro da emissora, que um programa sobre pessoas sem valor vai ser tornar algo criativo e proveitoso – não só financeiramente. Porque artísticamente o programa é trevas.

Não consigo acreditar que tais pessoas presas na casa conseguirão sobreviver a dois anos de reconhecimento geral da população a não ser que seus passes sejam comprados por emisssoras de televisão – como aconteceu com o Kléber, a Grazi e aquela Siri. E mesmo assim cadê o Kléber?

Não consigo precificar meu tempo. Por isso prefiro não gastá-lo vendo inutilidades imbecis. Porque inutilidades úteis, como House, Hell’s Kitchen, The Big Bang Theory e aqueles programinhas toscos de opinião esportiva são sensacionais. Entender o que se passa na cabeça das pessoas para se interessarem, de verdade, de coração, pela vida de pessoas presas na televisão é demais pra mim.

Simplesmente não entendo.