Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Rogério e seu ônibus
24-março-2008, 1:27
Filed under: Contos

Rogério não está bem. Rogério não está feliz. Rogério pensa que a vida seria mais simples. Que tudo se ajeitaria no final.

Mas que final é esse?, indaga Rogério. Seus pensamentos divagam a ponto dele mesmo se esquecer onde está – no ponto de ônibus, em uma cidade que não a dele, esperando não sabe o quê, ao lado de uma senhora de feições tão comuns que parece conhecida. As coisas meio que acontecem com Rogério. Ele nem bem sabe por quê.

Ainda sim ele se põe a pensar nos últimos acontecimentos. No que o levou a esse ponto de ônibus obscuro, no meio do nada. Ele olha para o poste ao lado do ponto, com sua luz incadescente apagando e ligando, randomicamente, e pensa que sua vida está muito próxima disso. Seu amor fugaz, eterno e sublime, sua decepção, profunda e sombria, sua felicidade, repleta de magia, sua deprimencia, completa e tardia.

Os brilhar da luz do poste se extingue. Rogério e a velha se encontram num breu sufocante, temeroso. Rogério olha para os olhos, tão sofridos, calmos e pacatos da senhora e oferece o que lhe sobrou de compaixão.

‘Se a senhora quiser, podemos andar até o ponto seguinte, onde dá pra ver que tem luz. Ali, ó, no final da rua.’ Os olhos de Rogério não conseguem se firmar nos olhos da senhora. Ela apresenta tamanha tranquilidade que desestabiliza Rogério. Sem ter mais o que fazer, ele se volta para o final da rua, onde ainda vislumbra-se alguma luz.

Sombras e barulhos seguem a escuridão. No final da rua, a uns quinhentos metros, vê-se um cachorro, caminhando vagarosamente pelo ponto de ônibus iluminado, cheirando seu assento e rodeando seu sinal. O cão parece olhar para Rogério, e com um uivo de partir a alma de qualquer um se despede, caminhando para o outro lado da rua, dobrando a esquina quase imperceptível e sumindo de sua visão.

Rogério vira-se para a senhora para lhe convidar a ir ao ponto mas ela não mais está lá. Ao invés do corpo gasto e enrugado da pobre senhora está um livro, com marcação definida. O livro é de capa azul, sem nome, e parece velho. Antigo. Sabio.

Ao abri-lo Rogério sente uma brisa atingir seu rosto. Mal é possível enzergar qualquer coisa, mas seus olhos já se acostumaram com a penumbra e, se ele conseguir se concentrar e olhar fixamente as palavras do livro é possível ler algumas passagens. Poucos parágrafos estão na língua que Rogério escuta desde criança. Nunca quis aprender outra, por achar que nunca precisaria saber. Ele vasculha as folhas, vagarosamente, tentando de alguma forma compreender alguma coisa escrita.

Maldita penumbra, pensa ele. Mal consigo enxergar as letras maiúsculas, quiçá as pequenas. No outro ponto há luz. Levo esse livro até lá.

As primeiras pedras portuguesas, caprichosamente colocadas na calçada do ponto, se desmancham quando Rogério nelas pisa e caem num buraco de extrema profundidade. Rogério pula para trás, para o cimento do ponto de ônibus, e por pouco não se vê caindo no buraco agora deixado na calçada pelo seu passo.

‘Preciso ficar aqui’, diz ele. Ninguém aparenta escutar, mas mesmo assim Rogério insiste. ‘Desculpa, viu? Eu só quero ir pra casa!’. O cachorro reaparece da esquina, olha para Rogério, se desloca calmamente até o encontro do ralo da rua com a calçada e se joga nele, desaparecendo como a chuva de verão que assola a cidade.

Rogério olha para a rua a sua frente. Seu cimento escuro e frio. Os olhos de gato da rua parecem o acompanhar. Seu brilho escondido pela falta de iluminação os tornam ainda mais ofuscantes.

De longe aparece um barulho. Um ruído, quase imperceptível. Rogério logo ouve o som do motor. É um ônibus. Chegara a sua saída. O livro ainda se encontra na mão de Rogério. Sua capa áspera roça contra as mãos delicadas do escritor.

As luzes potentes do ônibus dobram a esquina. Ele passa pelo ponto iluminado no final da rua mas mesmo assim nehuma sombra é vista. Somente as luzes, se movimentando no pavimento negro.

Rogério faz sinal. Ergue seus braços e desafia as luzes a parar. Vê naqueles dois focos brilhantes a esperança de sair da escuridão. De encontrar seu caminho. De chegar ao seu destino final.

As luzes se aproximam. Parecem acelerar. Se tornam ainda mais claras. Um zumbido toma conta dos ouvidos de Rogério. Ele põe as mãos para proteger os ouvidos. Seu livro cai no cimento do ponto. As luzes estão tão perto que é impossível manter os olhos abertos.

Elas estão a metros dele. Gigantes, perfeitas, medonhas. Rogério suspira seu último suspiro. Se curva diante do som e da luz. Se entrega, em posição fetal, ao inevitável.

A ausência de som e luz é eterna.

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