Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Caê Sigur Rós
29-maio-2008, 3:04
Filed under: Música

Olha, sou muito chato com certas verdades do nosso mundo musical tupiniquim. Muito. Um exemplo clássico é nosso quérido Caêzito.

Não consigo aceitar essa aceitação automática de genialidade de todos aqueles que estiveram na hora certa, no lugar certo da música nacional. A Jovem Guarda é um grande exemplo. O livro do Nelson Motta sobre o Tim é extremamente elucidativo da época. Todo mundo na mesma lanchonete da Tijuca. Tim, Roberto, Erasmo, Jorge Ben. Estavam lá, moleques de rua se passando de músicos. Aí me aparece um Carlos Imperial e o resto é história. Estavam lá na hora certa no momento certo.

Caetano sempre foi algo do tipo pra mim. A magia da Tropicália, do Gil, desse povo intocável, onde tudo que fazem é perfeito, maravilhoso, único, brilhante. Essas imagens irrefutáveis de talento inestimável. De corpo e alma da música brasileira. Sempre achei demais.

E ainda acho que tem muita gente muito mais talentosa que não ganha espaço porque os figurões ainda tomam conta de tudo. A nostalgia dos momentos de rebeldia em épocas de ditadura e da criação da noção de música popular nacional reina. A vontade e necessidade de cultivar mitos reprime aqueles que tentam conquistar seu espaço num cenário que não abre portas pra quem não viveu os anos 60 e 70.

Fui convidado pelo meus progenitores ao show ‘Obra em Progresso’ do nosso querido baiano. Confesso que relutei. Ainda mais porque era semi-final da Copa do Brasil. Mas deveria ter uma parte de mim que já previa o que iria acontecer. Então fui, reticente e, claro, muito instigado pra saber qualé dessa nova fase estranhamente roqueira do Caetano.

Tenho o Cê aqui no iTunes. E gosto de partes. Acho uma abordagem diferente do som que conheço do Caetano. Acho que ele encontrou uma fusão interessante (mas um pouco pretenciosa, como de praxe) pra alcançar um som diferente, mais introspectivo e, sim, denso ao seu som. Porém tocar ‘Smells Like Teen Spirit’ foi brabo. Doeu, magoou. Encontrei razões suficientes pra ver qual era da parada.

Vivo Rio entupido. Entupido de artistas também. Estranho, com o Prêmio Tim (para o qual, sem sucesso, tentei ir também) ao lado, no Theatro Municipal. Devem ter sido só aqueles que não foram chamados.

A banda Cê é interessante. Garotos indies. Completamente indies. Figuras fáceis na Matriz. Devo tê-los visto pelos menos umas novecentas vezes. Tocam bem shoegazeramente. Bem Los Hermanos. Estranho demais enxergar naquela banda a presença do baiano. Ou não.

A entrada no palco é contida, sob forte chuva de aplausos, assobios e gritinhos. Aliás, puxasaquismo tupiniquim é algo patético. Todo fã se acha íntimo do artista, a ponto de mandar piadinhas, gritar pedidos quando está tudo silencioso, chamá-lo de gostoso, lindo, tesão. E o cara lá, só querendo tocar a música dele.

Música essa que começou bem e, pasmem!, acabou melhor ainda. Aparentemente o esquema é mostrar releituras e coisas novas para montar o próximo álbum com a banda Cê. E em momentos Caetano ficou irreconhecível pra mim. Tocou músicas pesadas e densas, com peso de distorção, de baixo agudo e presente, de levada de bateria nos pratos. Uma abordagem sofrida, irada, melancólica. Do jeito que eu gosto de ouvir música.

Não gosto de axé porque axé é felicidade instanânea. Você está em casa, com vontade de dar um tiro na testa. Revoltado com o trabalho, com a sua família, com a sua vida. Mas coloca a porra do abadá, vai até o caráleo do Rio Centro, se mete no meio de vinte mil pessoas e sai pulando, gritando, seguindo os ensinamentos da meta-música que tá tocando. Pula pra lá, mexe pra cá, gira pra li, grita acolá. Pula, dança, mexe, remexe. Volta pra casa e lá está a depressão, te esperando como mulher de malandro num sábado à noite.

Caetano me mostrou uma faceta boa do seu repertório. Mostrou que ele abraça essa nova onda de sonoridade. Tinham momentos de puro pós-rock no show dele. Surreal. Momentos de levadas singelas, de toques sutis e prolongados, de distorção amena e ambiental. E ele longe do microfone. E a música crescendo, ampliando, caminhando. Uma porrada de força e som tomando conta do palco. E ele lá, participando daquilo tudo.

Aplausos infinitos. Até eu me via aplaudindo demais aquilo tudo. Gente nas laterais pulava e batia cabeça. Num show do Caetano! Sensacional.

Jacques Morelenbaum me aparece pra ajudar a tornar o show algo de fato inesquecível. Monstro. Simplesmente monstruoso. Semblante cansado, humildade incrível para um mito. A música tocada cresceu, apareceu e nunca mais será a mesma agora que ele se foi. Tocar qualquer coisa ao lado de tamanho talento é um sonho para quem gosta de música.

Jorge Mautner apareceu no final, a pedido dos fãs que o viram na primeira edição da ‘Obra em Progresso’. Simpático, brincalhão, animadíssimo. Ótimo violinista, ele, Jacques e Caetano tocaram músicas de sua autoria no bis. Levaram a casa ao delírio. Se despediram com mil agradecimentos.

Saí de lá com a sensação de que não conheço tão bem esses nossos artistas intocáveis. Que há espaço para deixá-los me conquistar. Próximo na lista é o Buarque. Espero que ele queira tocar com distorção.



Acordei triste hoje
26-maio-2008, 2:35
Filed under: Perfil

Acordei triste hoje. Triste porque me vi sozinho de novo. Realmente sozinho. Sozinho e perdido.

É uma sensação de impotência incrível não saber o que fazer com a vida. Acordar e enxergar um vazio imenso. Uma falta de propósito dominante.

Moro sozinho mas me sinto melhor na casa dos meus pais, mesmo que seja dormindo no escritório. Agora não vejo mais ninguém, nem sei mais quem sou. Não sei o que quero nem o que posso vir a querer.

Ainda há a chance de algo mudar dentro de mim. De que eu seja mais durão, menos sensível. Que eu sofra menos. Sinta menos. Que seja medíocre como todos e releve tudo. Pode ser que isso aconteça. Mas não aposto minha fichas nisso não.

Sinto-me um andarilho por uma linha do tempo. O que passou tá lá atrás, não sei o que se passa no agora e o futuro, nem vislumbro. Turvo e confuso ele se mostra. Enquanto isso, inspiro e expiro, pisco os olhos. Engulo saliva.



Momentos
19-maio-2008, 10:42
Filed under: Perfil

Gato escaldado releva mais fácil? É tão complicado assim querer conseguir decifrar as pessoas? Fico pensando, sozinho, olhando pro céu ou pro teto do meu quarto, e não consigo achar resposta.

Acho que tudo se resume a isso. Não saber e ficar tranquilo por não saber. Ententer que relevar é preciso, que deixar passar é necessário. Mas não consigo.

Não sou do tipo que aceita meias-verdades. Que aceita engodos e releva, sabendo se tratar somente de uma reles mentirinha inofensiva. Mas é muito, muito ofensiva pra mim.

Preciso entender, preciso de raciocínio. Há uma necessidade incrível minha de simplesmente ‘entender’. Conseguir fechar meu pensamento em torno das coisas e conseguir categorizá-las, classificá-las e inseri-las em meus principios, conceitos e, sim, por mais difícil que seja essa palavra, minha verdade.

Verdade cada um tem a sua. Mas pra mim é deixar o real transparecer. É não ser fechado demais, não se esconder por detrás de tantas prerrogativas. É se abrir mais. Ser mais honesto não só consigo mesmo mas com os outros – com quem importa pra você.

É conseguir se mostrar vulnerável e não achar que esconder e se distanciar das coisas com extrema facilidade é normal. Que tudo pode ser passageiro. Que foi eterno enquanto durou.

Talvez o problema seja meu. Talvez seja eu quem erra ao esperar demais das pessoas. Ao puxar transparência, seriedade, honestidade e franqueza. Talvez eu precise saber aceitar que todo mundo mente. Que mentirinhas são parte da vida.

Ik haat engodinhos. Ik haat meias-verdades. Não vou mudar. Não acho que estou errado.

Talvez eu só precise ser menos sentimental.



Memando meme memada
17-maio-2008, 2:22
Filed under: Abobrinhas

Roubei isso do Cabra, que roubou da Luma

1 – Por que você resolveu criar o blogue?

Egocentrismo, vontade de expor idéias, necessidade de escapar um pouco do mundano, vontade de me expressar, mesmo que de forma tão pueril.

Rafa falou bem quando disse que o que mais importa não é a razão pelo começo, e sim a razão por continuar escrevendo. Acho que continua um misto das coisas acima, mas também me sinto amparado sabendo que pessoas que nem conheço dividem minha vida. Gosto da sensação que dá saber que tem tanta gente ali, tão perto e tão longe.

2 – O que te dá mais prazer em blogar?

Reconhecimento. Seja ele através de elogios, comentários positivos, brincadeiras. Adoro quando alguém vira e diz ‘você escreve muito bem!’ ou ‘nossa, como isso se parece com a minha vida’. Dá um prazer incrível.

3. Indique um blogue bom e um que você não gosta e porque.

São tantos os que não gosto que nem imagino colocá-los aqui. São aqueles que de alguma forma entraram na pastinha que guardo ali no Firefox mas que vão embora sem o menor remorso.

Gosto de todos esses aqui ao lado esquerdo. Ou pode ser o direito se eu mudar de layout em breve. O que é difícil. Gostei desse layout.

4. Qual o tipo de música e quais suas bandas favoritas?

Tudo menos axé, pagode, sertanejo brasileiro e forró. Tendo mais pro rock (e todas suas variantes), erudita e folk. Já fui de ter bandas prediletas. Agora gosto de muita coisa de muita gente. Los Hermanos e Foo Fighters se destacam, pois gosto de tudo.

5. Qual o assunto que você gosta mais de postar?

Minha vida. Todas suas nuancias, com meus desejos, minhas dores, minhas expectativas, meus temores.

6. Seaquinevasseceusavaesqui?

Gosto de snowboard.

7. Você é casado, solteiro, separado, enrolado, desquitado, chutado, viúvo ou outros?

Gostaria de estar enrolado.

8. Por que você deu este nome ao seu blogue?

Porque me define.

9. Qual o último blogue que visitou?

O do Cabra, pra ter o que postar.

10. Por que resolveu participar deste meme?

Ando fazendo posts ahead of time. Esse foi feito na terça pra ser lançado agora, no sábado. Como tenho turnê com o Catch Side não posso me dar o luxo de escrever de lan houses e afins.

Estou gostando desse controle temporal. Caso apareça algo de imediato, eu posto. Enquanto isso, me divirto e me programo.



Alivio
15-maio-2008, 12:12
Filed under: Abobrinhas

De distrofia muscular eu não morro



Compasso político
13-maio-2008, 10:25
Filed under: Abobrinhas

Acho que já fiz esse joço aqui, o Political Compass. Mas não lembrava do resultado. Acho que fiz há algum tempo quando alguém do board do West Ham pediu pra todo mundo se colocar na matriz política do compasso.

O esquema é deveras simples. Pra cima é totalitário, pra baixo libertário. Pra esquerda, dã, de esquerda e pra direito é de direita.

O Alex me instigou a fazer esse troço pra ver qualé da parada.

Sempre me considerei, e ainda me considero, um sócio-democrata. Acredito na democracia, na que considero ser a melhor forma de governar qualquer estado encontrada até hoje. Se aparecer algo de melhor no futuro, espero de braços abertos. Mas tenho sim uns questionamentos de esquerda mais forte que os de direita. Não confio nos partidos de direita – especialmente o de nome tão absurdo: Democráticos. O antigo PFL é e sempre será sujo. Extremamanete sujo.

Do nosso lado esquerdo a coisa também não é tão legal, mas alguns players se safam. O PSOL é patético, mas o Chico Alencar é bacana. O PCdoB é ridículo, mas a Jandira é sempre minha primeira candidata a quelquer cargo que ela queira ocupar aqui no Rio. O PT é totalmente de centro, se é que ainda realment exista esquerda ou direita hoje a não ser os extremos – geralmente burros e cegos às necessidades políticas atuais, que são todas centradas.

Não sei se quando se fica velho, torna-se mais de direita. Só sei que eu fiquei numa posição, pra mim, mais que respeitável. Bem perto de Ghandi e Nelson Mandela. Boa companhia.



Segredos e esqueletos
11-maio-2008, 11:51
Filed under: Perfil

Bruno Medina, na sexta, postou sobre segredos contatos no o site Post Secret, sobre o qual ele escreveu: “Fico aqui pensando em como seriam as relações humanas caso o conceito de conduta social ou moralidade fossem facultativos. Trocando em miúdos, o que viria à tona se nossas ações estivessem dissociadas das conseqüências pré-estabelecidas? Talvez cheguemos a conclusão de que, ao olhar para o próximo, o que enxergamos é apenas um esboço, uma versão construída ou censurada do que se têm por dentro.”

Pra mim isso mostra a fragilidade do pensamento humano. No quanto nos apegamos à coisas estúpidas e o quando somos suscetíveis a pré-conceitos e paradigmas sociais. Não que eu me isente de tais pensamentos, mas tenho noção que devo procurar expurgar todo e qualquer conceito não-inerente à minha personalidade – jogar fora tudo aquilo que só me é familiar porque a sociedade assim impõe no meu dia-a-dia.

Esse site demonstra uma clara fotografia do que é escondido por trás das imagens e dos atos mundanos que nos forçamos a ter. De vontade de matar o chefe a estupro, todos têm a necessidade de esconder seus demônios para poder se defrontar com a sociedade sem tanto medo. Sou um pouco contra esse esquema americano de liberdade irrestrita de expressão. Crimes hediondos não podem ser relativizados dessa forma. Alguém escrever ‘esquartejei minha filha’ e ninguém fazer nada é estúpido e completamente insultante pra mim.

Procuro não ter esqueletos no meu armário, mas isso nem sempre é possível. O que a educação e a vivência me mostraram é que torna-se cada vez mais fácil, pra mim, poder reagir com muito mais parcimônia e pensamento crítico do que, digamos, uma semana atrás. Consigo saber qual é meu momento de fraqueza e assim posso, do meu jeito, mudar e reagir de acordo com o que sei que é o melhor caminho a seguir. Tenho me policiado e consigo de fato melhorar minha vida assim.

Além do que, faço questão de deixar minha vida como um livro aberto – qualquer um que quiser ler, está com carte blanche para descobrir o que quiser. Estar disposto a se mostrar e se abrir, pra mim, é um caminho para que não se guarde segredos, mentirinhas. Poder estufar o peito e dar a cara a tapa sem medo é saber suas limitações e virtudes, propagando para os outros, confiante em si mesmo, que não há nada que você possa temer. Que não há nada a esconder.