Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


O casamento, o beijo
5-junho-2008, 9:44
Filed under: Abobrinhas, Contos

Sábado foi um dia de descobertas. Tinha uma aposta rolando. Ninguém confiava que iriamos seguir adiante com ele. Ledo engano.

Ju e Pedro são dois extremos de um mundo que sempre nos dá alegres surpresas. Ela é carioca e fez Letras. Ele é paulista (se não for só fala com sotaque escroto) e é economista. Não conheço a história de como eles se conheceram, então me atenho ao fato de serem de dois extremos socio-intelectuais e isso os torna um casal incomum. Quem vier dizer que Economia e Letras são ciências sociais eu mato de porrada. Com um garfo, pra doer mais.

Se casaram naquela igreja de vidro da Lagoa. Quem não conhece, não é do Rio, não sabe de igreja alguma, nunca entrou numa (sorte sua) ou é interminantemente preguiçoso pra pensar e tentar saber se lembra dela, sefu, pois nem o Google Images tem foto dessa joça. Bom, imaginem uma igreja oval com vitrais. Parece bela, né? Afinal, tem a Lagoa de pano de fundo e tal.

Pois é uma igreja que aparenta ser o Maracanã antes da reforma. E olha que a reforma do Maior do Mundo foi uma bela bosta. Azulejos azul claro desbotados, uma tinta igualmente tosca nas paredes, reboco pedindo arrego, se segurando com toda a força divina pra não cair nos fiéis, um orgão que deve ser mais velho que minha recém-falecida vovózinha de 101 anos. Ainda bem que fazia um friozinho, pois os ventiladores instalados nas colunas não funcionavam.

O padre. Velhinho rabugento da porra. Portuga que deve ter vindo pro Brasil a pedido da congregação, se viu preso num dos mais belos lugares do planeta e mesmo assim sente falta da terrinha. Porque fala como se estivesse com a língua presa num vilarejo de Penha Garcia. Queria uma intérprete ao lado dele pra entender metade, só metade, do que ele dizia. E ainda ficava bravo com a falta de améns dessa nossa nova geração herege e pagã. Virava-se para os convidados e um solene ‘amén, gente!’ trazia respostas meia-boca dos presentes.

Fiquei intrigado com tudo o que acontecia que não fazia parte da cerimônia. Como sempre. Jesus – um dos três da igreja – tinha uma túnica que parecia aquela do Galo do Tempo quando fica rosa, sabe? Tinha até uma bandeira do América ao lado dele… bem imagino o barbudo gritando ‘Saaaaaaanguê! Saaaaaaanguê!’.

A solista e a tocadora do órgão (hihihi) pareciam revezar quem estava mais entediada.

James Bond resolveu aparecer na festa. De olhos claros, cabelos loiros e uma gravata borboleta que ninguém botar defeito. Ainda bem que o novo dãbãlou-céven é o Daniel Craig. Senão o cara só seria alguém loiro de olhos claros e gravata borboleta num casamento na Lagoa.

A recepção foi no Jóquei. Quer dizer, no Jockey Club, Salão Placé. Meu RSVP foi esquecido. Bem dernier cri. Dar satisfação anda tão démodé. Adorei as hors d’oeuvre e o single malt que serviram junto com os pastries deliciosos que estavam ao lado do crème brûlée. Très chic. As mesas, lindas com um delicado peau de soie. Só o crème de la crème estava na soirée. Quase fiz um coup d’état quando vi que não tinham café au lait na saída. Deitei-me no chaise longue e dei carte blanche para uma brunette olhar a bête noire, minha agent provocateur e pièce de resistance. Ela ficou toda rouge. Foi um succès fou!

As musiquetas não poderiam ser melhores. Descartados os clássicos d’A Voz. Descartados os funks. Tocou A-Ha. Tocou Oingo Boingo. Porra, sensacional.

Durante uma dessas músicas, ocorreu o beijo. Ele tava demorando pra vir. Tivera sido anunciado há tempos.

Marcelo não conseguiu perder peso. Tentou, tadinho. Mas não deu. Traçou uma meta, se furnicou pra alcançá-la mas, no fim do mês de março, continuava sem conseguir atingir seu objetivo. Resultado, o que tivera dito no começo do mês valia. Ninguém mandou dizer que me tascaria um beijo se não chegasse à sua meta. Perdeu e se viu forçado a pagar.

Tinhamos brincado demais o mês inteiro. Troca de emails, comentários sarcásticos, sacanagens alheias. Tudo na tentativa de deixá-lo ainda mais sem graça e preocupado. Eu estava de boa. Sempre estive. Não considerava a aposta nada demais.

Olha, sempre sou chamado do mais gay da turma, galera, patota. Tenho gosto por muita coisa fresca. Tenho opiniões cercadas de embasamentos que normalmente se retringem às pessoas de tendências homossexuais. Nunca tive problema com isso. Aliás, sinto que nasci com esse parafuso preconceituoso a menos, felizmente. Nunca vi razão nenhuma pra discordar da opção sexual alheia. Nunca achei errado, feio, uma afronta. Entendo perfeitamente o que atrai um homem a outro.

Homens são mais amigos. Menos cheios de merda. Menos mentirosos. Quisera eu ter tesão por homens. Porque acham que homossexuais homens são chamados de gays? Gay, em inglês, quer dizer feliz, alegre. Somos todos deprimidos, oprimidos, frustrados e infelizes. Gays são, por definição ortográfica e gramatical, pessoas felizes e alegres. E não é uma classificação tola, sem sentido. Eles realmente aparentam ser bem mais contentes que nós heteros. Devem saber algo que não sabemos.

Marcelo se fudeu porque brincou com o fogo errado. Fogo de palha apaga rápido. Brincar comigo não. Nunca tive nem nunca terei problema em receber beijos de entes queridos. Pelo contrário. Sou carente, e qualquer forma (não invasiva, né Paul LaFontaine) é bem-vinda. Abraços, beijos, carinhos. Tô dentro.

Ele tava nervoso, tadinho. A primeira vez que qualquer homem deve ser difícil mesmo. Pior que era a minha também, mas estava tranquilo. Estavamos dançando, jovialmente. Marcelo não dança. Fernando menos. Mas tava tocando rock, né. Dá pra mexer o esqueleto um pouco. Gloria Gaynor e The Village People só eu danço. E muito. Um dos momentos mais legais do meu ano foi ter platéia enquanto cantava, em alto e bom som, ‘Como uma Deusa’ no Galeria Café às 4h e pouco. Sensacional.

Quando menos esperava, lá veio ele. Foi rápido, engraçado, nervoso. Parecia que ele tinha 12 anos. Fernando não acreditou. Arregalou os olhos e entrou num estado de euforia como não via desde que esse metaleiro pulou e dançou ao som da Bartucada em Guarapari. Nos abraçamos, gritamos, pulamos, comemoramos. Foi hilário, emocionante, fantástico.

Aí o filho da puta vai e me troca por uma biscate morena. Canalha. Homens são todos iguais mesmo.

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4 Comentários so far
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Ah, Bruno, essse cachorro não merece a sua mágoa. Você tem razão esses homens são todos iguais. E aqui eu me solidarizo com você. Esse Marcelo é um cafajeste.

Comentário por Rafael

Detalhe, o referido James Bond tb se chama Daniel. :)Será coincidência?

Outro detalhe: esqueceu de mencionar que o buquê da noiva passou por suas mãos. Se vc tivesse ficado com ele, o Marcelo seria seu :P

Comentário por Werther

gente, quem é essa morena?
não sou eu??? Tenho dormido na casa desse FDP (tá vendo, marzulo?) e nada? rien de rien?
ok ¬¬

Comentário por simone

Hehehe, bem vindo ao clube dos que descobriram que homens são todos iguais.

Comentário por Viva




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