Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Tristão
10-julho-2008, 1:16
Filed under: Contos

Meu adversário caiu sob a ponta da minha lança. Seus olhos, lacrimosos, se puderam a me desfiar, ainda que seu corpo, caído, derrotado, não mais me apresentasse desafio algum. Consegui derrotar o cavaleiro, por fim. Ao cerrar dos seus olhos, assolados pela exaustão, vi um homem belo, sublime em seu suplício final, manchado pela marca do fracasso. Ainda sim senti pouca pena daquele corpo retorcido, e segui meu caminho em direção ao meu objetivo.

Dias e noites de passaram, e estranhos sonhos tive. Momentos lúdicos, separados por tumultuosas imagens de luxúria e perdição. Dormi pouco, com medo de fechar os olhos e ser confrontado por imagens tão arrebatadoras e incitantes.

Encontrei ela sem muito alarde. Sabendo seu papel, ela se entregou a mim. Honra e promessas a serem cumpridas. Parti com ela em meu domínio assim que os primeiros brilhos do astro-rei deram seu gracioso sinal de vida.

Nosso caminho não foi periloso. Pelo contrário, o tédio e o marasmo dominaram todo o percurso até as praias de areia rochosa, a dois dias de distância. Paramos ao final do primeiro dia, numa clareira que me pareceu segura o suficiente para passarmos a noite.

Uma árvore, no extremo direito da clareira, me chamou atenção. Suas frutas de coloração viva me puseram a caminhar em sua direção. Não hesitei em colher inúras daquelas pequenas frutinhas, lindas e delicadas, e tive imenso prazer em consumi-las, uma por uma, num banquete silvestre como jamais tivera imaginado. Ela se pôs a provar as pequenas frutas, e quando nos demos conta tinhamos acabado com todas a linha prole da incrível árvore que agora nos olhava acabada, despida de toda sua cor, imaculada em sua nudez e melancolia.

A noite chegou mais cedo do que esperava. O frio chegou mais forte do que pensava. Tive de dividir espaço com ela, alimentando nossos corpos com o calor alheio. Sonhei imagens incríveis. Cores vívidas, corpos se entrelaçando em uma dança de fantástica coesão e sincronia.

Acordei suando, com meu coração tentando bravamente escapar da minha caixa toráxica em vão. Assustado, virei ao meu lado para ver ela, linda sob a luz de uma noite estrelada e de lua cheia, igualmente acordada e ofegante. Olhei em seus olhos e não me contive.

Nos abraçamos e foi a melhor sensação que já tive em toda a minha vida. Perdi meus sentidos. Simplesmente senti e não pensei. Estávamos lá, a sós, completamente entregues, e nunca fui tão completo e feliz. Foram horas de um êxtase inimaginável. O cheio de sua pele, os murmurros de prazer, seus olhos cintilantes. Eros não teria conseguido proeza tão perfeita como a junção de nossos corpos.

Acordei atordoado. Jamais senti algo parecido. Tudo tão perfeito, tão completo, tão incrível. Me veio a minha promessa. Minha dívida. Não podia deixar de cumpri-la. Minha honra, a honra de outrem, tudo estava em jogo. Relutantemente me pus a seguir o caminho previamente traçado. Lágrimas escorriam de meu rosto quando deixei a rochosa praia a caminho do meu destino final.

A tive todas as noites. Ela virou meu maior desejo, meu significado de vida. Ela era tudo o que queria, tudo o que poderia querer. Não havia dúvida alguma em meu coração. Cada batimento era pra ela, por ela. Semanas se passaram, e cada vez mais desejava estar dentro dela. Não se passava um instante no qual não queria fugir, sumir do mundo com minha eterna amada. O amor de toda uma vida.

A entreguei, sã e salva, e por poucos momentos achei que não mais conseguiria respirar. O fechar das portas, ela de um lado e eu de outro, significou na hora o final da minha vida. Caí e, de joelhos, chorei copiosamente. Não podia conter a dor no meu peito.

Na mesma noite esperei por ela no jardim. Chovia levemente, e minha lágrimas escorreram acompanhadas das doces gotas que caiam do céu. Senti um certo conforto na chuva. Parecia que os deuses choravam comigo. Esperei sem tê-la avisado. Esperei pela esperança de encontrá-la. E ela veio a mim. Não sei como, mas ela veio a mim.

Nos escondemos muito bem. Conseguimos ter um ao outro todas as noites, sempre no calar da madrugada. Nunca soube de ninguém que a tivesse visto escapar dos seus aposentos. Tínhamos um lugar secreto, só nosso, sempre disponível para que pudessemos regojizar no deleite de nossos ofegantes corpos. Três anos se passaram, sem que por um dia sequer eu não a tivesse, plena e entregue.

Fazia sol na semana passada. Estava a só, olhando o lago que abraça o território do palácio. Plantações de trigo jocosamente dançavam com o vento, elevando meus espíritos e anunciando um belo dia de primavera. Estreava novas roupas, de cetim com detalhes em couro. Crianças dançavam alegremente ao redor do jardim, trazendo ainda mais jovialidade ao meu espírito.

A noite chegou, e não soube o que fazer. Não sabia porque estava ali, sentado naquele banco de madeira na margem mais rasa do lago. Abaixo da árvore centenária que abençoava o espelho d’água. Era tão escuro que não consegui sequer ver minha mão. Um leve vento quente soprava e senti meus cabelos esvoaçarem, mesmo que eu não pudesse vê-los. Me pus a pensar no que fazia ali, e por muitas horas não soube porque estava lá, mas também não conseguia sair daquele banco.

Acordei com o primeiros primeiros sinais do dia. Raios enrubesceram o antigo céu escuro, e cobri meus olhos cansados até me acostumar com a claridade. Me levantei, torto e doído, e olhei para o banco no qual tinha dormido. Ainda não entendi, nem entendo, porque eu dormi ali. Caminhei vagarosamente até a entrada da biblioteca, com meus novos trajes estragados por uma noite mal dormida no banco velho e estragado do lago.

Já fazem inúmeros dias que não sei mais o que fazer com as minhas noites. Lembrei dela e de tudo que houve ontem. As memórias vieram a mim quando a avistei de longe, quando descia para o baile de gala. Pisquei algumas vezes quando ela passou por mim, e cordialmente trocamos cumprimentos. Olhamos um para o outro por alguns poucos instantes, e percebi que a conhecia bem e ela a mim. As recoleções vieram como algo esquecido, quase como um sonho lúcido. Tão somente uma reles lembrança de um passado que não reconheço. De alguém que sequer significa mais que uma dívida que paguei com honra e dignidade.

A história de Tristão e Isolda me fez pensar em meu momento atual. Esse sonho lúcido que pareço viver. Ou ter vivido. Ainda não sei.

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