Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Mil Casmurros
29-novembro-2008, 12:26
Filed under: Literaturalidades

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

Fiquei fascinado pelo projeto Mil Casmurros de leitura do ‘Dom Casmurro’ feito pela Globo. São mil trechos curtos dessa obra que ainda preciso voltar a ler para realmente gostar, pois só tenho lembranças da chatura que foi lê-la para a aula da Sônia.

O sensacional Idelba lê um trecho. O guei mais lindo do mundo lê o décimo-terceiro sem, pasmem!, crédito! O Rodrigo do Jacaré Banguela outro. Acho que vi o Ina fazer outro. Vi sim… e logo antes da Ana Maria Braga. E do Romário!!

No final, espero ver muitos amigos lendo e curtindo essa idéia tão genial. Já ando vem que tem muita gente legal que leu um trecho. E muita gente desconhecida, o que dá um prazer incrível ver lendo os trechos. De moleques a senhoras, todos participando de um projeto de cultura na internet inovador.

Meu trecho é o 132. Adorei lê-lo. Espero que vocês gostem.

(obs: eu não sei porque, mas não consigo ver se funciona o embed to vídeo… por isso deixei o link acima)

Anúncios


Um apelo
27-novembro-2008, 4:20
Filed under: Diatribes, Politicalidades

 

Moradores de Itajaí, Tiago Berlim e Ricardo Aoki fazem o apelo e eu, humildemente, de tão longe, mas com o coração partido por ver meu país se tornar um de primeiro mundo, com desastres naturais que assolam e destróem, deixo aqui meu pedido:

Doações podem ser feitas nas seguintes contas do Fundo Estadual da Defesa Civil, CNPJ 04.426.883/0001-57:

Banco do Brasil – Agência 3582-3, Conta Corrente 80.000-7
Besc – Agência 068-0, Conta Corrente 80.000-0.
Bradesco – Agência 0348-4, Conta Corrente 160.000-1

O número de mortos ultrapassa 100 em todo estado. São mais de 60 mil desabrigados.

Por favor, ajudem.



A Melhor Banda Desconhecida do Mundo (III)
26-novembro-2008, 3:56
Filed under: Música

Calexico é, aparentemente, uma banda de imenso reconhecimento megasuperindie aqui nos EUA. Só os descobri porque a revista TimeOut! que li no Starbucks antes de entrar pra peça improvisada de Shakespeare. Acabou que o show deles com o The Acorn era a uma quadra do teatro. Acabei indo por curiosidade e fiquei estupefato com a maravilha que é o som deles.

Eles têm inúmeros álbuns, que irei escutar cuidadosamente, escolhendo as melhores músicas para baixar no iTunes. Sim, virei um romântico desenfreado, e só quero ter no meu computador músicas que posso comprar. Para aquelas que não estão à venda ou não consigo achar em lugar algum a não ser na internet, não posso fazer nada. Estarão a tocar no meu lindo iPod em toda sua glória pirata.

Inicialmente chamada de Spoke, lançou seu primeiro álbum, auto-entitulado, em 1996. Seu segundo álbum, ‘The Black Light’, que é algo de sensacional desde o primeiro minuto, foi lançado em 1998 e até o Wall Street Journal o considerou um dos melhores do ano. Eles conseguem uma fusão sensacional de música estritamente mexicana com as influências country-rock do Sudoeste Americano. O resultado é uma incrível míriade de estilos, fluente e bonito, sofrido mas alegre em muitos momentos, com os metais sensacionais da música mexicana, agonizando suas notas em momentos sublimes de puro êxtase musical.

 

O ‘Feast of Wire’, de 2003, é o que mais gostei depois do ‘The Black Wire’. Foi também o primeito grande sucesso ‘comercial’ dos caras, tendo aparecido nas paradas Billboard’s Heatseekers e Independent Album Chart. Gravado o vídeo de ‘Quattro (World Drifts In)’, foi o single do álbum, apesar de não ser, nem de longe, a melhor música. Como normalmente acontece. ‘Güero Canelo’, que é sensacional, esteve merecidamente na trilha no filme ‘Colateral’ do Jamie Foxx e Tom Cruise.

O mais novo álbum é o ‘Carried to Dust’, com muita gente pseudoindiefamosa, como o Sam Beam do Iron & Wine, Douglas McCombs do Tortoise and Pieta Brown. Mais uma vez, recebeu excelentes críticas, e merece ser ouvido depois de ‘The Black Wire’ e ‘Feast of Wire’. Não saberia dizer qual álbum é o melhor desses dois, e é bem capaz do ‘Carried’ tomar o lugar de um deles com o tempo.

Só sei que o Calexico me parece um Roger Clyne and the Peacemakers mais sério e bem desenvolvido. Senti muita falta do Roger Clyne e dos saudoso The Refreshments, com sua música de imensa influência do Sudoeste Americano e da música mexicana, mas com toques mais jocosos e joviais. Calexico é a música mexicana em todo seu esplendor sofrido e doído. Do jeito que a melhor música do mundo é e deveria sempre ser.

Bem-vindo ao meu mundo de Sigur Rós, Los Hermanos, A Fine Frenzy e The Dear Hunter. Qualidade com sofrimento. Simplesmente demais.



Clichê americano
25-novembro-2008, 12:20
Filed under: Diatribes, Estrada

Sexta-feira passada eu tive a sorte de achar dois lugares absolutamente sensacionais em Chicago – exatamente o que mais queria fazer na cidade. Primeiro foi a descoberta, muito de última hora, de uma trupe de teatro de improvisação chamada ‘The Improvised Shakespeare Company’, que nada mais é que um bando de malucos que, durante quase duas horas, encenam um épico shakespeariano baseado em uma frase jogada pela platéia no começo do espetáculo. Minha resenha do espetáculo virá nos próximos dias.

Depois teve show, a duas quadras, do Calexico – banda do Arizona simplesmente fantástica, com uma grande influência mexicana e um som do caráleo. Será minha próxima Melhor Bandas Desconhecida do Mundo.

Mas o bojo do post de hoje foi algo que já tinha reparado um pouco durante meu fim de semana em Chicago, mas naquela noite tornou-se muito claro devido a um incidente no metrô na volta pro hostel. O negro americano, pelo menos a grande maioria que vi aqui, representa com uma fidelidade que dá medo o clichê urbano tão batido que estamos tão acostumados a ver em filmes, séries e descrições preconceituosas.

Sempre em grupos de três, quatro, andam com aqueles roupas extremamente chamativas e de tamanhos gigantescos, bonés sempre no topo da cabeça, com aba reta, por cima de um gorro de material elástico. São espalhafatoso, berrando com todo mundo que passa, se afirmando em cima de toda e qualquer pessoa, seja ela quem for. Primeiro notei isso no meu primeiro dia no metrô. Inicialmente achei que era uma babaquice do cara que era muito maior do que eu e podia impor sua presença por ser maior. Passou por mim, esbarrou de leve em minha mochila enquanto me ajeitava na plataforma e disse ‘cuidado, ‘cracker’ (termo pejorativo pra brancos aqui nos EUA), que você quase esbarrou em mim!’. Depois lembrei que tinha colocado três dólares no bolso direito, troco de umas compras básicas na lojinha ao lado do hostel, e que tinha sido roubado.

Fora isso, por qualquer lugar que andasse eu via esses grupos de quatro andando com cara de poucos amigos, rindo somente entre si e sempre às custas de alguma pessoa vizinha. Entrei no trem logo após ir ao show do Calexico. Entrei com um número grande de pessoas, dentre elas meninas brancas, alguns negros, dois asiáticos e hispanicos. O retrato perfeito da sociedade americana moderna. Tudo ia bem, todos conversavam, namoravam, dormiam, ouviam música. Duas estações depois, com um barulho que se escutava de longe, entraram cinco, todos vestidos rigorosamente iguais – casacos grandes, pretos, com gorros e/ou bonés, tênis espalhafatosos e calças moleton com logos grandes do fabricante.

Entraram tacando zorra, expulsando um casal de indianos do seu lugar, e começaram o ‘bullying’ – termo que está ficando famoso no Brasil e que conheço desde minha época de Nova Zelândia. Ficaram o tempo todo exarcerbando sua posição de ‘negro do subúrbio’, criticando todos, rigorosamente TODOS os que estavam no vagão por não serem iguais a eles. Um rapaz à minha frente, negro, com iPod no ouvido, amigo do grupo multi-étnico que descrevi, foi esculhachado porque ouvia sua música com calma e tranqüilidade. Chamaram-o de traidor, roqueiro de merda, que não entende o que é ser negro.

Chegaram a sugerir estuprar a menina branca, com cara de menininha, dizendo que adorariam transformar o leite dela em achocolatado. Isso tudo rindo, apontando, gritando, chegando perto de realmente atacar fisicamente as pessoas. O que no começo foi tratado como arruaça pelas pessoas do vagão, em minutos estavam todos num estado de tensão muito grande, enquanto os caras lá ficavam, sem parar, a apontar e gritar na cara dos outros. Entrava um garoto barbudo e gritavam ‘go home, lumberjack!’ (volta pra casa, madeireiro), viam uma asiática e diziam ‘where’s my kung pao chicken, bitch?!’ (cadê minha comida chinesa, piranha). 

Vi os mesmos empurrando um outro negro, mais gordo e com meias rosas e uma echarpe bege, chamando-o de ‘(aquela palavra com n) faggot’ (algo como crioulo viado), a ponto do cara sair na estação seguinte, junto comigo, e esperar o próximo trem passar para ele conseguir seguir viagem. Deu pra ver na cara do coitado a vergonha que sentiu por ser tão clamorosamente atacado. Falei com ele, disse pra não se preocupar com os babacas, e ele me disse algo que talvez nunca mais esqueça: ‘we even have a black president now. But it’s never enough. Blacks have to stand up to everyone, even black folk like me. Since I’m gay, they’ll find a way to hurt you for not being like them. It’s never going to end.’ (temos até um presidente negro agora. Mas nunca será o suficiente. Negros precisam peitar todos, até negros como eu. Já que sou gay, vão achar uma maneira de machucar quem não é igual a eles. Nunca vai acabar.)

E fico imaginando se, de fato, em algum momento haverá uma chance nesse país de pouca divisão entre as raças. Chega a ser caricato a maneira como os negros se diferenciam – as roupas sempre iguais, o andar sempre igual, a atitude de bandido. Muito estranho.



Chicago
21-novembro-2008, 1:50
Filed under: Estrada

Demorei quatro horas a mais pra chegar aqui. A TAM, linda companhia aérea do meu coração, atrasou o vôo do Rio em quase duas horas e perdi a porra da conexão. Ainda sim, consegui pegar o vôo de meia-noite para Washington e de lá seguir para Chicago. Foi uma correria incrível, onde não parei sequer para esperar vôos nas conexões – foi um atrás do outro.

Estou montando um diário em vídeo para todos verem minhas peripécias em terras americanas. Tomara que saiba usar essa joça de iMovie (comprei um Macbook Pro!) para poder fazer algo entretente para todos. Por enquanto, não tenho nem fotos pra mostrar. Não tirei nenhuma.

Cheguei aqui e começou a nevar, bastante, ASSIM QUE SAÍ DO METRÔ. Sorte que o hostel é ao lado da estação. Ainda sim, fazia um frio da porra. 30F ao meio-dia. 

Senti aquele frio cortante, que gosto bastante, e minhas mãos começaram a sentir aquela dorzinha sensacional do vento gelado. Coloquei minhas coisas no quarto e de lá parti direto pra cidade. No vídeo tem umas coisas bem legais. Aguardem.

O que não previ (burro, imbecil, idiota), é que se estava abaixo de zero ao meio-dia, a tendência era piorar né… à noite fez quase -10C, uns 15F, e eu lá, de calça jeans, allstar de meia leve e uma jaqueta da Ellus de chuva, sem muita proteção. Acabei pipocando de loja em loja da Michigan Ave. para poder fugir do frio. Um alento foi ver que tinha muita gente desprotegida como eu na rua. Não me achei tão estúpido.



Dudu
19-novembro-2008, 9:15
Filed under: Diatribes

Chegou ontem a notícia do racismo que o cantor Dudu Nobre e sua família sofreram num vôo da American Airlines. Pra mim não foi tão somente o racismo sofrido, que já é um absurdo por si só, mas a maneira como tudo ocorreu. O absurdo de tudo o que aconteceu.

Estavam todos num avião, presos num tubo de metal a milhares de metros do chão, sem ter pra onde ir, e sofreram abusos inimagináveis. Os xingamentos, as atitudes dos comissários são coisas que me deram ânsia de tão GROTESCO que foram os atos jogados na pobre família.

Isso na semana em que o meu querido Alex Castro vem debatendo o racismo descarado que existe nesse país, no comportamento de cada um, na maneira como lidamos com nossas castas sociais. Fiquei completamente estupefato com a maneira como tudo ocorreu, e como ainda somos capazes de atitudes de vergonhosa falta de moral e caráter.

Sou branco e bem de vida. Nunca posso me julgar capaz de entender o que é que se passa na cabeça de uma pessoa que sofre de atitudes racistas. Tenho muito cuidado para policiar meus movimentos, desde que me dou por gente, para não cometer erros e gafes pois sou, invariavelmente, fruto da sociedade racista na qual estou inserido.

Não tive colegas negros na faculdade. Sempre estranhei e me incomodei com isso. Entraram dois na turma depois da minha, e gostava muito de um, e muito pouco do outro – esse último, pretencioso, orgulhoso e, francamente, muito anti-social pro meu gosto.

Entendo pouco qual é meu raciocíno com relação a questão racial. Não me lembro ter tido, em qualquer momento na minha vida, uma cabeça que relativizava atitudes e movimentos alheios baseado na quantidade de melalina na epiderme de cada um. Tive pais que jamais questionaram a cor de ninguém, e aprendi a falta de importância que isso tem no nosso dia-a-dia e na maneira como lidamos com todos ao nosso redor.

Fui ensinado a ser cordial, educado e respeito com todos. Não deixo de tratar meus pais de senhor e senhora. Não deixo de pedir direções na rua a qualquer pessoa sem tratá-los de senhor e senhora, quando mais velhos, ou de ‘amigo’ quando aplicável.

Acho a cor negra de pele incrivelmente bonita. Aquela pele negra azul petróleo lindíssima, que me dá uma inveja incrível de não ter. Como também acho asiáticos interessantíssimos. Lembro vividamente de uma amiga de pais indianos na Inglaterra que era, pra mim, disparada uma das pessoas mais lindas que já vi em toda a vida. Sempre enxerguei as diferenças físicas de cada pessoa como um quê a mais para me interessar por ela, nunca me distanciar ou fazer julgamentos precipitados sobre a mesma.

Não consigo passar numa rua e mudar de calçada porque tem alguém de certo tom de pele vindo na minha direção. Me dá nojo só de pensar que isso passe pela cabeça de tanta gente. Só fui assaltado uma vez, e roubado outra única vez. Em ambas a quantidade de melanina no organismo dos meliantes era menor que a minha.

Todas as minha empregadas eram de maior coeficiente de melanina que eu. Sempre tive claro na minha cabeça o respeito por todas elas, pelas ordens e hierarquia que todas exerciam sobre mim – sempre serviram mais de babá do que efetivamente de empregadas. Me decepcionei muito com duas delas, pelas atitudes levianas e pelos furtos. Foi como se um membro da família me traísse. Na verdade, foi exatamente um membro da família me traindo.

Em casa nunca tivemos ordens de divisão do espaço da casa para empregadas. Nunca tivemos horários a serem seguidos por elas. Tinham liberdade (que coisa horrível de descrever, como se fosse uma benção dada pela minha família) para tudo. Ainda sim entendo o que é ter uma empregada 24/7 em casa. Por isso mesmo sempre houve uma grande preocupação do meu progenitor de seguir fielmente a CLT, com folgas, INSS e todo e qualquer outro benefício garantido por lei às ‘assistentes de casa’.

Tenho problema em falar ‘empregada’. Falo sempre ‘a menina que trabalha na casa dos meus pais’. Por mais que seja algo realmente bobo, pois sempre somos empregados de alguém seja lá em que for que trabalhemos, mas a conotação negativa que essa palavra tem pra mim me faz sempre partir pro politicamente correto – algo que tenho ojeriza de fazer. Não sou de floreios, nem se ficar cheio de dedos quando falo sobre qualquer coisa, mas isso me deixa um tanto desconfortável. O mesmo acontece quando quero descrever alguém que não conheço o nome para outra pessoa.

Me pego sempre dizendo algo como ‘aquele altão, de blusa vermelha’ sem sequer pensar no que estou dizendo ao invés do clássico ‘tá vendo aquele negão? Então…’. Acho abominável alguém ser descrito tão somente pela melanina em sua pele. Quando descrevemos alguém desprovido de muita melanina, é sempre um ‘tá vendo aquele menino de cabelo pro lado? Aquele ali, ao lado da menina de mochila rosa. Então…’. Por quê caráleos não é tão fácil descrever todos assim?!

Faço isso sem reparar, mas me pego a pensar depois que, sim, me acho uma pessoa do cacete por não passar pela minha cabeça esse tipo de pensamento. Por eu ser alheio aos maneirismos tão fudidamente escrotos dos brasileiros que se julgam tão abertos e liberais. Por eu nunca ter questionado a opção sexual alheia. Por achar todo mundo bonito, cada um da sua maneira. Por eu ter raiva dos que juldo ruins e adorar os que julgo bons, sem passar pela questão da pele de cada um.

Fico dando voltas em cima do mesmo tema quando me deparo com situações como essa do Dudu e família. Realmente me espanta ainda sermos capazes de passar por uma pessoa e fazer gestos, barulhos, agredir verbalmente e fisicamente tão somente pela quantidade de uma proteína na pele alheia. É de uma falta de bom senso e visão que, pra mim, não resta nada a não ser temer.

Temer que nunca seremos capazes de evoluir. Temer que ainda há quem diga, estufando o peito, que o Brasil é um país lindo, multicultural, onde todo mundo tem ‘um pé na África’ e, por isso, não há racismo. Temer que jamais conseguiremos simplesmente deixar de falar de raça, e somente tratar dos problemas de igualar as divisões sócio-econômicas grotescas que existem nesse país.

Sem pensar em raça. A melanina é um componente tão ínfimo do corpo humano. Por que não entendemos isso?



Que venha 2009
17-novembro-2008, 11:14
Filed under: Diatribes

Porque 2008 foi uma merda.