Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Shingo
14-novembro-2008, 1:54
Filed under: Abobrinhas, Perfil

Existia um japonês na minha turma de colégio na Inglaterra chamado Shingo Masuda. Uma figura como poucos que conheci. Espevetado, ia contra toda e qualquer idéia de comportamento ‘natural’ de japonês – xingava, era rude, brincalhão, não respeitava ordem nenhuma nem era um garoto movido a regras e tradições.

Vivia dizendo que nunca fora tão feliz quanto quando morava no Quênia. Que não havia país melhor no mundo. A diversidade, o clima, a natureza e a liberdade do país africano, dizia ele, o deixavam morrendo de saudade da savana.

Tentei ter uma banda com o Shingo. Acho que ele queria tocar bateria. Mas sua hiperatividade, junto com uma total falta de coordenação, tornaram nossa empreitada uma tarefa impossível. Ainda sim quis muito que ele participasse dos ensaios, e ele ficava lá, enchendo a paciência e sendo engraçado, enquanto, aos 14 anos de idade, tentávamos ser rockstars.

Lembro muito bem da mansão onde ele morava. Seu pai era geólogo, e tinha, pra mim, o computador mais sensacional que já tinha visto. Ele fazia análises de terreno, imagino eu que de algum lugar perto da Inglaterra, e ficávamos lá, estáticos, esperando minutos até que aparecesse uma tela com gráficos de última geração do solo bretão. O pai dele era um cara austero, mas extremamente simpático e que fazia, lembro bem, um chocolate quente sensacional. A mãe dele quase nunca aparecia, e a irmã era muito pequena para que fizessemos algo que não jogar almofadas nela quando ela aparecia, curiosa, na sala onde estávamos todos a assistir um filme antes de irmos dormir em nossos respectivos sacos de dormir. Tinha um roxo que até hoje uso.

Ela era um dos meus grandes amigos. Quando se foi, junto com a família, de volta pro Japão, prometemos trocar emails (a maior novidade!) e nunca nos distanciarmos. Em questão de seis meses ninguém mais sabia do que tinha acontecido com o Shingo.

A não ser a quantia incrível de onze pedras no rim que ele descobriu, aos 15. Comia tudo com sal demais. Deu no que deu. E seu cabelo, quando chegara no Japão, estava azul. Pessoas, e os professores, do novo colégio, tradicionalíssimo da cidade em que estava, diziam que ele estava com o demônio. Ele ainda fazia questão de ficar ouvindo música nas aulas e levar suas baquetas (dizia ele que estava tocando até direito naquela época) para batucar na sua carteira.

Nunca vou me esquecer da frase que ele me ensinou a falar e escrever em japonês: bokuno chinco wa sabitemas. Meu pinto está enferrujado.

Achei essa foto de um Shingo Masuda no Google. A única que tinha.

shingo

Pelo visto quem enferrujou o pinto foi ele.

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2 Comentários so far
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Que grande post, Bruno. :)

Comentário por Rafael

cara, nem froidendo esse cara eh o Shingo….tas louco? Ou sera que eh mesmo? Como vc sabe? rsrs

Comentário por yerbro




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