Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Clichê americano
25-novembro-2008, 12:20
Filed under: Diatribes, Estrada

Sexta-feira passada eu tive a sorte de achar dois lugares absolutamente sensacionais em Chicago – exatamente o que mais queria fazer na cidade. Primeiro foi a descoberta, muito de última hora, de uma trupe de teatro de improvisação chamada ‘The Improvised Shakespeare Company’, que nada mais é que um bando de malucos que, durante quase duas horas, encenam um épico shakespeariano baseado em uma frase jogada pela platéia no começo do espetáculo. Minha resenha do espetáculo virá nos próximos dias.

Depois teve show, a duas quadras, do Calexico – banda do Arizona simplesmente fantástica, com uma grande influência mexicana e um som do caráleo. Será minha próxima Melhor Bandas Desconhecida do Mundo.

Mas o bojo do post de hoje foi algo que já tinha reparado um pouco durante meu fim de semana em Chicago, mas naquela noite tornou-se muito claro devido a um incidente no metrô na volta pro hostel. O negro americano, pelo menos a grande maioria que vi aqui, representa com uma fidelidade que dá medo o clichê urbano tão batido que estamos tão acostumados a ver em filmes, séries e descrições preconceituosas.

Sempre em grupos de três, quatro, andam com aqueles roupas extremamente chamativas e de tamanhos gigantescos, bonés sempre no topo da cabeça, com aba reta, por cima de um gorro de material elástico. São espalhafatoso, berrando com todo mundo que passa, se afirmando em cima de toda e qualquer pessoa, seja ela quem for. Primeiro notei isso no meu primeiro dia no metrô. Inicialmente achei que era uma babaquice do cara que era muito maior do que eu e podia impor sua presença por ser maior. Passou por mim, esbarrou de leve em minha mochila enquanto me ajeitava na plataforma e disse ‘cuidado, ‘cracker’ (termo pejorativo pra brancos aqui nos EUA), que você quase esbarrou em mim!’. Depois lembrei que tinha colocado três dólares no bolso direito, troco de umas compras básicas na lojinha ao lado do hostel, e que tinha sido roubado.

Fora isso, por qualquer lugar que andasse eu via esses grupos de quatro andando com cara de poucos amigos, rindo somente entre si e sempre às custas de alguma pessoa vizinha. Entrei no trem logo após ir ao show do Calexico. Entrei com um número grande de pessoas, dentre elas meninas brancas, alguns negros, dois asiáticos e hispanicos. O retrato perfeito da sociedade americana moderna. Tudo ia bem, todos conversavam, namoravam, dormiam, ouviam música. Duas estações depois, com um barulho que se escutava de longe, entraram cinco, todos vestidos rigorosamente iguais – casacos grandes, pretos, com gorros e/ou bonés, tênis espalhafatosos e calças moleton com logos grandes do fabricante.

Entraram tacando zorra, expulsando um casal de indianos do seu lugar, e começaram o ‘bullying’ – termo que está ficando famoso no Brasil e que conheço desde minha época de Nova Zelândia. Ficaram o tempo todo exarcerbando sua posição de ‘negro do subúrbio’, criticando todos, rigorosamente TODOS os que estavam no vagão por não serem iguais a eles. Um rapaz à minha frente, negro, com iPod no ouvido, amigo do grupo multi-étnico que descrevi, foi esculhachado porque ouvia sua música com calma e tranqüilidade. Chamaram-o de traidor, roqueiro de merda, que não entende o que é ser negro.

Chegaram a sugerir estuprar a menina branca, com cara de menininha, dizendo que adorariam transformar o leite dela em achocolatado. Isso tudo rindo, apontando, gritando, chegando perto de realmente atacar fisicamente as pessoas. O que no começo foi tratado como arruaça pelas pessoas do vagão, em minutos estavam todos num estado de tensão muito grande, enquanto os caras lá ficavam, sem parar, a apontar e gritar na cara dos outros. Entrava um garoto barbudo e gritavam ‘go home, lumberjack!’ (volta pra casa, madeireiro), viam uma asiática e diziam ‘where’s my kung pao chicken, bitch?!’ (cadê minha comida chinesa, piranha). 

Vi os mesmos empurrando um outro negro, mais gordo e com meias rosas e uma echarpe bege, chamando-o de ‘(aquela palavra com n) faggot’ (algo como crioulo viado), a ponto do cara sair na estação seguinte, junto comigo, e esperar o próximo trem passar para ele conseguir seguir viagem. Deu pra ver na cara do coitado a vergonha que sentiu por ser tão clamorosamente atacado. Falei com ele, disse pra não se preocupar com os babacas, e ele me disse algo que talvez nunca mais esqueça: ‘we even have a black president now. But it’s never enough. Blacks have to stand up to everyone, even black folk like me. Since I’m gay, they’ll find a way to hurt you for not being like them. It’s never going to end.’ (temos até um presidente negro agora. Mas nunca será o suficiente. Negros precisam peitar todos, até negros como eu. Já que sou gay, vão achar uma maneira de machucar quem não é igual a eles. Nunca vai acabar.)

E fico imaginando se, de fato, em algum momento haverá uma chance nesse país de pouca divisão entre as raças. Chega a ser caricato a maneira como os negros se diferenciam – as roupas sempre iguais, o andar sempre igual, a atitude de bandido. Muito estranho.

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