Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Um ode
21-maio-2009, 3:26
Filed under: Estrada, Perfil

Ah, querido Rafael, como Londres é melhor que Paris. Sua ilusão me deprime.

Sinto que ainda precisamos sentar um dia, após alguns copos de cerveja, num bar nessa cidade que cisma em ser maravilhosa, para que eu possa exclarecer alguns pontos e deixar ís com pingos. Não há como deixar um post como esse passar em branco. Preciso dizer algumas coisas.

Convincente você até foi. Ao menos tentou ser. Mas você esqueceu muitas coisas, querido Rafael. Esqueceu que Londres não precisa ser lembrada.

Londres sequer existe.

Minha cidade de Westminster é o bólido do qual um apunhado de microcondados formam minha metrópole. É o mais belo sentido do cosmopolitismo. Uma cidade que não existe, que é expandida e criada a partir do nada. Isso é ser eterna. Imortal por nunca ter nascido.

Enquanto os gárgolas de Notre Dame te fazem gozar de pau mole, a resoluta Abbey resplandece em verdes campos, costurada majestosamente pelo Tâmisa, turvo e raivoso. Não é um Sena, todo fresco e calminho. Meu rio tem história de lutas e águas que sempre foram o terror dos inimigos. Minha cidade tem vida até na água.

E você, querido Rafael, fala de Balzac du Paris como se minha cidade não tivesse meu Shakespeare e minha Woolf of London. Enquanto você regojiza nos cabarés, seu pseudoboêmio, lágrimas escorrem dos meus olhos ao pensar no meu Globe Theater of old.

A beleza de Paris é tão efemera que se esvai no momento em que se respira o ar da cidade por mais de dois dias. O que se vê perde espaço para o que se ouve, se sente. Se o Arc de Triomphe é belíssimo, a Trafalgar Square é mais. Se o grande Louvre, que de fato é foda e merece até uma história do Mini Viking, sou mais o British Museum e o Tate Modern, na beira do Tâmisa, com vista para a St. Paul’s, ao lado da Canary Wharf. Perfeito.

Se você, querido Rafael, adora os cafés blasés – tem palavra mais parisiense que ‘blasé’? – e fica, com sua cigarrilha e chafé, lendo Le Monde e conversando com uma magrela de boina e poodle preto no colo, eu vou pro Starbucks em Camden Town e com meu Soy Venti Latte me divirto com os punks e lindos degenerados, performers de rua e meu povo de All-Star no pé. Por que em Londres todos são da metrópole. E a metrópole é de todos.

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6 Comentários so far
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Estou adorando este bate-bola. Mas … Starbucks não! Citou Starbucks, perdeu! É como Hitler ou Cuba :-)

Comentário por Idelber

perdeu no Starbucks, e quando diz “me divirto com os punks e lindos degenerados” pega mal, pega mal pacas. E melhor que os dois é o D’Orse.

Comentário por wilson prata

Quanto preconceito com o pobre Starbucks na esquina dos degenerados com os punks!

Comentário por Bruno

concordo. starbucks, não.
se ainda fosse uma pie and mash shop, ou tomar uma ale num autêntico boozer, você ainda poderia se manter no espírito “londoner to the core”.

mas starbucks, além de todo o resto, é americana. de seattle. predatória, brega e fornecendo um cafezinho overpriced e péssimo. numdá.

Comentário por Lolla Moon

[…] foi com atenção que li o seu texto sobre Londres. Li com tanta atenção que resolvi fazer, aqui, uma defesa da sua cidade. Acho que você cometeu […]

Pingback por Rafael Galvão » Uma pequena defesa de Londres

[…] Um desses momentos únicos em cidades únicas, que só a andarilhação permite. (E que o Bruno não ouça minha […]

Pingback por As 77 maravilhas naturais do mundo - Uma Malla Pelo Mundo




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