Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Rafael, Rafael…
24-maio-2009, 3:51
Filed under: Estrada, Perfil

Ô Cabra, que bonito você ter tirado tempo da sua agenda tão cheia de compromissos de eleição de políticos para escrever uma defesa sobre a minha cidade européia. Gostei de muita coisa que você disse, e sinto também uma necessidade grande em discorrer um pouco mais das coisas que foram ditas.

“…seria bobagem tentar comparar as francesas, com sua elegância e seu talhe esbelto, às inglesas — que pobre gente feia aqueles ingleses, não é?”

No primeiro momento, para o leigo e míope, as londrinas podem sim parecer feias comparadas às parisienses. Mas se você esperasse a espessa fumaça do seu cigarro se esvair, e fizesse a correção cirúrgica para sua visão desprivilegiada veria que há muita beleza nas inglesas – seu attire mais moderno, seu pioneirismo na moda, seu olhar cool e simpático, convidativo. Se fosse Paris ficariamos sempre nas esguias fumantes, cuja tosse, do único alimento que elas julgam ter fora a nouvelle cousine, se ouve aos milhares pelas ruas da Cidade Luz.

“Eu, no entanto, teria preferido falar de uma das pequenas delícias de Londres que você deixou passar: o costume de deitar e comer nos parques, como o Green ou o Hyde.”

Se não fosse pelo restante do seu post, imaginaria que, de fato, você estivesse falando bem dos parques londrinos – tão majestosos, acolhedores e bem cuidados. Achava que você fosse comentar o quão mais históricos eles são, pelos movimentos seculares que transcorreram neles, pela incrível história que todos carregam e pela maravilhosa abertura que eles provém, dando espaço a todos que desejam curtir um momento de paz e tranqüilidade numa cidade tão sensacionalmente ocupada e viva.

“Acho que os ingleses fazem isso porque, ao contrário dos parisienses, não têm uma cidade bonita pela qual flanar, mas cada um se vira com o que tem — e que povo melhor para suportar as adversidades do que o inglês? Vamos então deitar nos parques, olhar para as flores em volta e esquecer que além de suas grades está uma cidadezinha feia, mas simpática.”

Engraçado usar a simpatia dos parques, tão democráticos e convidativos, como fugas da feiura da cidade londrina é esquecer que os lindos parques londrinos são fonte de paz para muitos numa cidade ocupada demais. Afinal, Londres não é chamada do coração do mundo por nada, né Cabra… mas legal mesmo é Paris, com sua arquitetura igual, sem espaço para o moderno, onde o Balzac poderia existir hoje e escrever exatamente o mesmo sobre o povo e a cidade.

“Não há deles nenhuma declaração de amor à capital inglesa, nenhuma vontade de passear por seus becos e suas ruelas, nenhuma percepção da cidade como criatura e criadora de um povo, como Balzac percebe em Paris. Sim, eles também eram gênios — e por serem gênios sabiam que Londres não valia a pena.”

Não é que não valia a pena. Eles nunca precisaram é descrever sua linda cidade o tempo todo. Não precisavam exaltar toda a sua magia e encanto. Ao contrário do seu querido Balzac, que o tempo todo precisava colocar Paris no centro de tudo. Sinto uma certa falta de confiança do Balzac na beleza e importância da sua cidade. Afinal, quem faz questão de, o tempo todo, exaltar algo ou está escondendo muita coisa ou precisa se assegurar se que, de fato, ele realmente acredita isso. Sinto uma imensa dúvida… talvez seja só eu.

“Então eu falaria de outras coisas. Falaria de Jack, o Estripador, por exemplo. Falaria da polícia que mata brasileiros no metrô. Ou lembraria de Drácula, de Mr. Hyde, de Frankenstein — Londres é um cenário perfeito para esse tipo de história.”

Por ser cosmopolita e abrangente, por aceitar todos os credos, cores e nacionalidades, Londres é palco de todos os tipos de história mesmo – afinal, não cedemos ao Nazismo, não fomos tomados por um baixinho num egotrip tremendo. Sempre lutamos contra o que há de errado, e fomos palco de muitas histórias, boas e ruins. Isso é o que acontece com uma cidade aberta e acolhedora. Onde pessoas se conhecem e são conhecidas.

“…eu falaria da forma como Londres se apega pouco ao passado, como os prédios modernos se misturam com predinhos atarracados cor de cocô. Londres parece tanto com São Paulo em alguns aspectos. Principalmente na feiúra tão absoluta que a gente pode até confundir com beleza. Londres não tem motivos para preservar sua arquitetura horrorosa, e seria essa qualidade que eu exploraria.”

Comparar Londres à São Paulo é de uma trememenda má vontade. A Cidade de Westminster é de uma beleza que transpõe qualquer dúvida. O centro financeiro conseguiu se modernizar com o tempo, auxiliando os lindos prédios vitorianos com movimentos modernos de incrível arquitetura – o London Eye, O2 Arena, The Gerkin… nós evoluimos, não deixando com que a modernidade e a tecnologia fossem escondidas das nossas vidas cotidianas.

“Quanto a Trafalgar Square, além de uma questão de gosto, sua única qualidade mesmo é que dali você consegue ver a sua bela “Abbey” — ao contrário do Arco de Napoleão, que embeleza a Champs Elysées com a sua visão.”

Champs Elysées só é bela porque é anca. De resto, não tem nada a oferecer além de cinemas antigos e McDonald’s e Burger Kings. É a falácia parisiense de manter a arquitetura intacta enquanto toda e qualquer influência contemporânea é tomada e usada.

“Ah, Bruno, meus tempos de boemia se foram com meus verdes anos. Mas confesso que, entre um cabaré e um teatro, é no cabaré que meus devaneios recaem primeiro. Mas não é esse o caso. O problema aqui está no fato de que, quando uma cidade precisa recorrer a um teatro demolido há séculos para encontrar uma razão que justifique a sua existência, ela tem problemas sérios. Como você pode preferir um teatro inexistente a um cabaré que ainda hoje pode lhe oferecer o paraíso?”

Se pra você o paraíso são meretrizes trajadas de roupas que deixaram de ser excitantes há dois séculos. Eu prefiroa arte eterna do Bill, até o feliz do Webber me satisfaz mais que velhas que não sabem mais seu lugar no mundo jogando suas pernas e plumas ao ar como se estivessem nos anos 20 e abafando. De fato, entre as plumas e meias de rede de pescador eu sou muito mais o que você chamou de ‘fleuma britânica’, um bom terno ou brincos, espetos e botas dos punks.

“Mas acho que entendi o que você quis dizer com seus punks degenerados. O problema é que esse foi outro equívoco, porque pelo visto você não conhece os imigrantes que dançam street music no Boulevard Rochechouart nas tardes de sábado, ou as multidões de esquisitinhos que se aglomeram na porta do Elysée Montmartre, ou ainda os patinadores em frente ao Palais Royal.”

Seus imigrantes são tunisianos, costadomerfinenses, nigerianos… pessoas que falam a língua da cidade. Raros são aqueles que se aventuram por essa cidade que não aceita ninguém direito. E enquanto meus performers de rua estão ali para conquistarem seu espaço, os seus estão ali pra sobreviver nuam cidade que não os aceita por terem pele e religião diferente da de Luis VIII.

“E, embora eu esteja aqui tentando te ajudar na defesa dessa cidade agradabilíssima que é Londres, eu preciso repetir o que já disseram o Idelber, o Wilson e a Lolla: citar a Starbucks como vantagem londrina é se ajoelhar no chão e pedir perdão pelas bobagens que acabou dizer. Em vez disso, nós poderíamos defender Londres dizendo que café não presta, que bom mesmo é chá, e melhor ainda é o chá das cinco. Mas pobre de uma cidade que não pode ter orgulho do seu café.”

Minha comparação com o Starbucks significava a veia cosmopolita e aberta da minha cidade. O fato de saber que posso confiar no moderno e não sentir vergonha disso. Mas para vocês que fogem do que é moderno e, caráleo, até gostoso!, falar dos pubs seria demais.

Porque os pubs são justamente o que Paris nunca será. Um lugar de confraternização de pessoas distintas, todas a fim de um momento alegre e jovial, uma música legal, uma cerveja gostosa (podemos não ter café, mas de cerveja vocês não podem se gabar, né Cabra?) e, porra, convivência com pessoas simpáticas! E o final dos dias de um pubs são motivos de alegria, com pedidos mil de jarras de cerveja, que mesmo quentes são motivo de regojizo, ao invés dos cafés parisienses que já expulsaram meu pai à força durante um gole ou outro do café ruim que eles servem porque passara das 23h.

Um dia a nojentisse de Paris se entranhará em ti. O dia que você viver por mais de uma semana em Londres você verá o quão melhor a cidade é. Waterloo não foi por acaso. Um dia você aprende.

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2 Comentários so far
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Ô Bruno, não me leve a mal, mas as porradas amorosas do Rafael estão melhores – porque os argumentos também. Nesta sua resposta, no início é só defesa, os argumentos parecem mais briga de garotos – quem cuspir na linha xingou a mãe do outro. Depois melhora, e muito, quando fala dos pubs (lembrados, na verdade, pelo Rafael) e dos imigrantes. Aí sim Londres mostra todo o seu cosmopolitismo. É a cidade mais aberta para o mundo. Dizer que a arquitetura de Paris é toda igual é passear por suas ruas a bordo de um ônibus de turismo. Embora os prédios do Boulevard Sebastopol possam à primeira vista parecer com os de qualquer rua de Invalides, são completamente diferentes. E cada vez que você passa por eles são mais diferentes ainda. Cada arrondissement tem sua própria personalidade. Já nos bairros residenciais de Londres, com suas casas iguaizinhas, com seus jardinzinhos na frente, nem a grama do vizinho é mais verde que a minha. Mas são mesmo duas grandes cidades. Uma é prosa, a outra poesia.

Comentário por Felipe Araujo

Pô Bruno, faltou classe na sua resposta, classe de reconhecer algumas coisas que são simplesmente incontestáveis, a beleza das francesas por exemplo, e supor que Balzac escrevia tanto sobre Paris por falta de confiança na cidade, também foi… vazio…
Sinceramente, não conheço nenhuma das duas, mas tenho mais vontade de morar em Londres do que em Paris, principalmente pelo cosmopolitismo que você citou, pela modernidade, entre outros motivos… mas sua defesa ficou devendo, ficou mesmo parecendo, como o Felipe disse, briga de garotos, aliás, de um garoto contra um homem…

Comentário por Thiago




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