Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


As aventuras do mini viking: Capítulo 14: Meus 10 anos
26-fevereiro-2009, 11:03
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O aniversário de 10 anos de qualquer moleque é – ou ao menos deveria ser – uma data especial. A primeira década de existência. O inicio de dois dígitos de idade que com quase total probabilidade seguirá a vida de todos até o fim. Dificilmente entramos nos três dígitos.

Era uma época nervosa para esse mini Viking aqui. Tinhamos, meses antes, descoberto que a Nova Zelândia seria nossa nova morada. Em específio, a linda capital de Wellington. País longínquo, onde só esse pequeno Viking tinha idéia de onde ficava no mapa. Coisa de sangue, sabe?, visto que a navegação e os mapas sempre fizeram parte desse pequeno nórdico-tupiniquim.

Estudava agora numa escola totalmente em inglês. Fazíamos, eu e meu irmão, tempo dobrado. Comíamos com os funcionários entre as duas turmas, e tivemos uma abertura ao inglês que nos proporcionou imensa tranqüilidade ao nos depararmos com a língua estranha falada nas pequenas ilhas ao sudeste da Austrália.

Era dia 9 de Abril, e como todos os meus outros aniversários anteriores a data não havia mudado ainda. Eu estudava tanto nesse colégio quanto na Cultura Inglesa. Era realmente integral minha imersão no inglês. Na Cultura, numa casa linda ao lado de uma concessionária de bicicletas Giant (lembram a época que ainda havia isso?), eu me divertia vendo e ouvindo filmes em vídeo-cassete sem legenda. Vi ‘Ghost’ umas noventa vezes, e lembrava vários diálogos de cabeça.

Fui parar no boliche do Morumbi Shopping. Nessa época, caso não tenha dito, eu morava em São Paulo. Morava há três anos e alguns meses. Adorava, e ainda adoro, São Paulo. Qualquer demonstração contrária ou é sarcasmo meu ou pura babaquice desse pseudo-carioca aqui.

Tivera recebido informações explícitas da minha mãe antes do meu cumpleaños. ‘Filho, com a mudança esse ano não tem presente grande, tá?’ disse ela. Claro que eu, como bom filho que sempre fui, compreendi com veemência o que fora dito. Chamei poucos amigos, os que ainda sobraram do condomínio e do colégio que largara para me dedicar à língua-mãe da Rainha Elizabeth.

Foi um aniversário legal, com uma comemoração singela e particular. Eu nunca fui de aniversários grandes. Isso sempre foi coisa da cabeça do meu pai. Me diverti bem, joguei meu boliche e curti meus amigos e família. Pra mim estava ótimo.

Tinhamos um Monza vinho que amava. Foi parceiro das inúmeras viajens Sampa-Rio que fizemos em família, sempre ao som do Kid Vinil, a mil nos falantes do carro – para o desespero dos meus pais e nem tanto do meu irmão, que dopado em Dramin jamais acordava pra me ver cantando, non-stop, o K7 do grande mestre do rock do final dos anos 80 e começo dos 90.

O Monza fez a curva para a direita ao entrar na garagem do prédio. Estava um tanto sonolento, querendo dormir logo e acordar para um novo dia de inglês até pedir arrêgo. Estava com a minha mãe só no carro.

Assim que dobramos à esquerda para estacionarmos o carro, percebi que o carro do meu pai, um Monza cinza escuro de modelo mais novo, não estava estacionado. Em seu lugar reluzia algo. Algo amarelo.

Na minha frente estava uma linda bicicleta Giant amarela. Perfeita. Incrível. Meu sonho de consumo toda vez que ia pra Cultura Inglesa e passava pela concessionária.

Olhei pra minha mãe, que sorriu pra mim. ‘Feliz aniversário, meu filho’, ela disse. Só sei que chorei. Chorei muito em seus braços.

Chorei pelos novos desafios que me aguardavam. Um novo país, com cultura e pessoas diferentes. Chorei pelo presente lindo que meus pais me deram. Chorei por sempre poder confiar neles. Por saber que faziam de tudo para me ver feliz, para prover tudo o que fosse possível. Apesar de todas as incertezas da mudança de país, eu sabia que neles eu podia confiar.

Chorei por ser um mini viking feliz.



As aventuras do mini viking – Capítulo 13: Sexta-feira Santa
11-abril-2008, 7:40
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Era o ano de mil novecentos e oitenta e dois. Um quinta-feira, dia oito de abril. Chovia um pouco. Luis e Márcia, grávida de oito meses e meio, pensavam no que comprar na loja da Sears, agora um shopping center de destaque na Praia de Botafogo.

No dia seguinte era o fim de semana da Páscoa. Todos os familiares já tinham subido para a casa de veraneio na Posse, perto de Petrópolis. Planejava-se um fim de semana tranquilo, pacato. Luis e Márcia tinham um filho já, Rafael, que no auge dos seu ano e quase quatro meses demandava cuidados, e sua sobrinha Marcela tinha quatro meses. Todos estavam na procura de cuidar bem dos pimpolhos, então calma e tranquilidade eram uma necessidade.

Pegaram o Chevette, carro mais confiável da história da minha família (já tivemos, no total, entre todos os familiares, uns oito), e seguiram a caminho da estrada. A subida da serra sempre fez meu irmão passar mal. Então ela tinha ido antes com minha avó e tios. Todos a espera do meu pai e da minha mãe.

Na estrada, como quem não quer nada, eu vou e acabo com qualquer chance de um fim de semana tranquilo.

A bolsa da minha mãe estourou. No reflexo, meu pai correu com ela até o Pró-Matre, na Praça Mauá, onde soube recentemente que geral pari lá. Passo por lá de vez em quando e penso no dia chuvoso em que minha mãe foi recebida.

À noite, preocupados e cansados, meus pais chegaram na maternidade. Minha mãe contara seu problema, e trouxe preocupação dos médicos. Eu tinha risco de morrer, e minha mãe também. A chance de infecção era grande, pelo momento e pelo lugar onde a bolsa estourou.

Meu pai, que até pouco tempo não fumava, imagino que tenha acendido uns quarenta e nove mil cigarros. Sua tensão piorava porque a cada instante que se passava e não recebia notícias, sua cabeça vai inventando coisas e trazendo à tona irrealidades horríveis.

Ainda tinha tentado, como bom filho que estoura a bolsa da mãe no carro, na estrada, me estrangular com o cordão umbilical. Cesária nela!, devem ter dito os médicos. Depois de um rombo e inúmeros pontos necessários, cheguei nesse mundo.

Mundo tão lindo. Tão delicioso. Tão maravilhoso.

Mundo cheio de possibilidades. Cheio de gente incrível. Gente que amo, idolatro, quero tanto ao meu lado.

Aqui estou, vinte e seis anos depois. Esperançoso. Torcendo para que tudo fique bem com a minha vida.



As aventuras do mini viking – Capítulo 12: Viking da cara preta
30-janeiro-2008, 8:43
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Mini viking volta triunfante. Quer dizer, nem tanto. Poucas histórias da minha infância contam com triunfos. Mas pelo menos servem para entreter. Eu acho.

Voltamos ao sítio na Posse. Eu tinha um sítio na estrada da Possêee… e estávamos num belo inverno, cercados de familiares, num clima jovial e prazeiroso da época de São João.

Nunca entendi bem a Festa de São João. Nem bem o porque de sua existência. Só sei que adorava dançar quadrilha, colocar placas de flanela nas minhas calças antigas e pintar bigode e costeleta com o lápis de olho da minha mãe. Engraçado que ser o noivo nunca me interessou muito. Devia gostar de ser o amante. Tem que tê, tem que tê, tem que tê um amante…

Estávamos lá, serelepes e jubilantes, brincando de São João. Na necessidade incessante de piromania dos meus tios, aqueles rojões escrotos comprados em Caxias no Fogão (aquele com símbolo do Flamengo na lateral) estavam presentes. Com toda sua força, qualidade e espantosa variedade de explosões, meus tios os colocaram, lado a lado, para a apresentação final. Le Grand Finale. It’s the end of the world as we know it…

E lá fui eu, pequetitico que só, assistir ao expetáculo. Ávido por um camarote especial, me posicionei estrategicamente atrás do meu tio Sérgio. Tio Sérgio, por sua vez, apontou com gosto o rojão a ser lançado.

Cinco… quatro… três… dois… um… PFFFT!

Nada de um céu coberto por fagulhas mágicas de som e luz. Nada da maravilha tecnológica de pirotecnia caxiense. Nada de ninguém ver porra nenhuma acontecer. A não ser eu.

Atrás do meu tio, atrás do rojão, vi a joça explodir ao contrário e uma nuvem de pólvora e fumaça me atingir em cheio. O mundo escureceu. Comecei a entender ali, aos quatro, os ensaios sobre a cegueira. Porque só aos quatro mesmo pra gostar da joça do livro do Saramago.

Pisquei. Olhei pra cima. Terror no rosto do meu tio. Horror no rosto do meu outro tio. Pavor no rosto do meu pai. O mundo rodou mais lentamente. Todos os movimentos eram em câmera lenta.

Virei para a esquerda. Em tons baixo-barítonos (aqueles tons muito mais graves e escrotos que aparecem nas vozes das pessoas em filmes quando tudo está mais devagar) minha avó gritava ‘voooocêsss quuuueeeeimaaaraaam ooo rooostooo dooo meeeu neeeetoooo!!’. Pandemônio se instaurou e Murphy riu.

Me encontrava completamente estático nesse momento. Não entendia nada. Mal sabia que estava, de fato, com o rosto completamente tomado pela pólvora e dejetos pretos. Um perfeito Tião Macalé nórdico.

Vi minha avó quase desmaiar. Vi minha mãe berrar. Vi meus tios e meus pais se desesperarem. Envolto no caos comecei a chorar. Um choro nervoso, sem sentido. Um choro de ver todos nervosos.

Lá veio a toalha molhada. Um banho que tomei de água fria em pleno inverno na Posse. Porra, podiam ter esquentado a água pelo menos. Nunca pensam no meu bem-estar. Malditos. Pensei que fossem me enfiar na piscina. Ainda bem que estava coberta.

Com a minha avó ressuscitada, minha mãe mais calma, meu rosto limpo e todos mais alegres, voltamos às celebrações de São João. Muita música ridícula, muita quadrilha fora do tempo – com direito à tunel onde todos se esbarram e destróem a idéia da brincadeira. Minha roupa ainda estava um pouco suja. Não me importei.

Tinhamos rojões pra acender.



As aventuras do mini-viking – Capítulo 11: Afogaram o mini-viking
15-novembro-2006, 1:16
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Assim que nasci fui morar no Grajaú. Engenheiro Richard, edifício Tatiana. É um com azulejos azuis. Super bonitinho. Bem no começo da rua. Passem lá.

Morava no 101. Era um apartamento excepcional. Quatro quartos, ampla cozinha e sala, suíte gigantesca. Tudo grande e lindo – fruto do esforço de meus pais para nos dar uma vida do caráleo desde o início de nossas vidas.

Ao lado de casa, na quadra seguinte, fica o Grajaú Tênis Clube. Vivi muitos momentos de felicidade, brincadeiras e peripécias lá. E foi lá onde fui afogado.

Tinha sido levado por minha quérida mãe para aprender a nadar. Como pais preocupados, queriam que seu filho soubesse nadar desde cedo – para, claro, não se afogar de bobeira por aí, nessas praias e piscinas da vida. Então me inscreveram aos oito meses de idade numa aula de natação.

Aulas de natação para crianças bem pequenas são, no mínimo, bonitinhas. Aquelas crianças mínimas, sendo seguras carinhosamente por professores preocupados e gentis, batendo suas mãoszinhas na água, fazendo ‘gugu, dadá’ e rindo pra cacete. É uma linda visão mesmo.

Meus pais chegaram lá no clube, felizes da vida para assitir a aula inaugural de natação desse pimpolho aqui. Sentaram-se nas arquibancadas, um pouco longe da piscina, sim, mas que mesmo assim tinha visão privilegiada da água. Entrava eu, poucos momentos depois, carregado pelo meu professor.

Cara de gente boa, magrinho, sarado como qualquer professor de natação. Acenou para meus pais e me mostrou, todo orgulhoso. Meus pais sorriram de volta e se abraçaram. Seria um momento muito bacana esse – eu aprendendo, todo bobinho, a nadar.

Ele vagarosamente me colocou na água, para eu sentir a temperatura e me acostumar. Dei uma chiadinha, de leve, mas logo logo estava me divertindo pracas naquela água. Sempre adorei água, em qualquer forma.

Começaram então os pequenos exercícios. Mexe daqui, move dali. Tudo muito bonitinho para meus pais, cada vez mais calmos, felizes e, convenhamos, entediados.

Eis que meu professor me pega e calmamente começa a me afogar. Sim, isso mesmo, me zuni pra debaixo d’água e me segura lá, por alguns segundos, antes de me liberar para respirar. Imaginem a cara do meu pai. Terror, pânico, susto.

E eu lá, sendo submergido vagarosamente, algumas vezes, ficando cada vez mais tempo no mundo aquático azul piscina do Tênis Clube. Meu pai não aguentou. Reclamou com a minha mãe, chiou, esperniou. Minha disse que era assim mesmo.

O professor já tinha feito isso com o Rafael. Era pra acostumar a criança num ambiente onde precisasse segurar a respiração. Disse ele que era natural, que já tínhamos feito isso no ventre das nossas mães. Aquilo era só uma regressão básica à melhores épocas de feto.

Meu pai não aguentou. Levantou-se e saiu de lá, a caminho de casa. Não aguentaria ficar vendo uma hora daquilo. Pra ser sincero, quando tiver filhos, também será minha mulhar que irá levá-lo pra ser afogado numa piscina dessas da vida. Tá louco.



As aventuras do mini-viking – Capítulo 10: Pintinho
22-agosto-2006, 1:15
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De volta à Nogueira. Ao meu lindo sítio que agora não é mais meu. Bom, nunca foi meu, era do meu pai e seus irmãos. Mas adorava aquele lugar. Lembro sempre do besouro, da piscina de plátisco – sabe aquela com desenhos de onda em tons diferentes de azul? Então… – que sempre achava grande demais mas que hoje não acolheria meu tornozelo, das correrias, do calor e do frio.

Fazia frio no inverno lá. Lembro disso. Lembro também de um lindo inverno quando tinha uns cinco anos de idade. Tínhamos ido numa feira, daquelas de cidade pequena, e levamos pra casa dois pintinhos – um pra mim, outro pro meu irmão.

Os pintinhos eram lindos. Amarelíssimos, faziam suas coisinhas de pintinho (ou seja, nada) lá na sala, enquanto eu e meu irmão ficávamos assisitindo eles, fixados nos movimentos, nos barulhos e trejeitos daqueles bichinhos adoráveis.

Tava um frio danado, e eu e meu irmão lá, cuidando dos bichinhos enquanto minha mãe, claramente feliz por nos deixar na sala quietos e ocupados por horas, fazia suas coisas no resto da casa. Presumo que ela também estava feliz que fazia um frio do cão e eu não estava pela varanda tentando arranjar minha próxima refeição.

Passaram alguns dias e os pintinhos lá, na caixa de sapato com cobertor, fazendos as coisinhas deles e eu e meu irmão lá, olhando pra eles. Tava virando um tédio desgraçado assistir aqueles bichos fazerem nada. Esperava um cacarejar, sair da caixa e correr por aí, deixando todos em estado de pânico. Queria diversão.

Meu irmão lá, ainda preocupadíssimo com seu bichinho, nem imaginava que eu, ao seu lado, estava num tédio absoluto e queria mais é brincar de outra coisa. Eu olhava para um lado, olhava para o outro e nada. Não achava nada que pudesse me tirar daquele tédio e elevar meu espírito naqueles dias gélidos do inverno serrano fluminense.

Amanheceu um dia e minha cota de olhar para os pintinhos dentro da caixa tinha se esgotado. Queria vê-los livres, brincando por aí. Imaginei uma corrida de pintinhos no quintal de casa, com direito a canja para o perdedor. Tá, não era tão sádico naquela época, mas bem que seria uma excelente idéia tivesse a tido na hora. Queria muito brincar com eles. Queria vê-los voar.

Olha, para uma criança de cinco anos de idade é mais do que natural achar que pintinhos podem voar. Afinal, por que caralhos eles têm aquelas asas? E as penas? Pássaros não são bichos de asas e penas? Portanto é mais do que natural eu, criança de mente fértil de cinco anos, achar lógico que os pintinhos tinham é que voar.

Eu disse que precisava me divertir…

Saio de casa com o pintinho na mão. Ele está tão quentinho, e a manhã dá aquela porrada de frio esperada no inverno. Apesar de todo o frio, o dia está lindo. Céu azul, quase nenhuma nuvem no céu. Nem sei onde estão meus pais. Podem muito bem estar dormindo, ou fazendo o café.

Chego no lado da casa. Tinha um paredão branco até lááááá no alto, só terminando no telhado em forma de acento circunflexo. Achei o lugar perfeito para botar meu pintinho para voar. No paredão branco poderia vê-lo em todo seus esplendor, batendo suas asinhas e demonstrando toda a desenvoltura de um gavião.

Olho pra cima, olho para o bichinho. ‘Priii!’, diz ele. ‘Vamos voar?’, digo eu. ‘Priii??’, diz ele.

O atiro pra cima. Com toda a força que tenho nos meus pequeninos braços. Ele voa, mas voa alto, e minha imagem de vôo começa a se pintar diante dos meus olhos. Até que reparo que existe um zênite no plano de vôo do bichinho.

Ele até tenta, tadinho, manter algum tipo de aerodinâmica. Mas só o vejo cair, cair, cair até se espatifar na minha frente, ao lado dos meus pés. Primeiro veio a dúvida, depois o terror.

Choro sem parar e corro pra dentro da casa, a procura dos braços da minha mãe. Meu pintinho não conseguiu alcançar vôo, como queria, e fiquei bem decepcionado com isso. Aprendi que bichos gordos e amarelos não voam. Garibaldo perdeu toda a magia pra mim naquele dia.

O pintinho do meu irmão durou mais alguns dias. Morreu de frio apesar da luminária e dos cobertores. Meu irmão nunca se recuperou do incidente. Perder seu pintinho, para um menino, é um evento marcante.



As aventuras do mini viking – Capítulo 9: Mini viking foi enganado
8-agosto-2006, 1:13
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Eu era uma criança linda. Mas linda mesmo. Muito mudou desde então, claro. Fiquei gordo, barbudo, feio em geral. O que importa agora é demonstrar o quão lindo eu era. E imaginem um anjo do céu, perfeito, belo, singelo – era bem mais bonito que ele.

Meu tio Paulo ia se casar. Tinha uns quatro anos. Não vou me preocupar em ligar para ele para descobrir quantos anos de casado ele tem e, assim, fazer a matemáticas correta. Aposto que ele nem lembra quantos anos de casado tem. Não quero embaraçá-lo e emputecer minha tia no processo. Fiquemos com quatro anos. É uma boa idade.

Pois bem. Tinha quatro anos. Meu tio ia casar. Felicidade geral na família. O caçula da minha avó ia se juntar com uma linda mulher, que ia dar-lhe carinho, companhia e afeto pelo resto da vida. Maravilha, né?

Casamento marcado. Eu ia ser aquele molequinho bonitinho que carrega as alianças, ao lado da minha prima Ingrid – igualmente linda, mas que diferente de mim manteve a beleza e agora tem dois moleques lindos também. Fiquei todo feliz. Usar aquele smoking estiloso pra criança, andar carregando o objeto mais precioso da noite e ser bajulado por todos ao meu redor. Nada poderia ser melhor.

Chegou o dia e estava nervoso. Suava em bicas. Imagina a responsabilidade de carregar as alianças, sem poder derrubá-las, e depois entregá-las ao meu tio, no momento mais importante da vida dele? Vixi, estava entrando em pânico. Pensei em chegar na igreja e, na hora h, correr feito um louco, berrando ‘eu não aguento mais! É muita pressão!’ enquanto os convidados ainda chegavam, atrasados, tentando se esquivar da noiva a passos da entrada.

Mas lá fui eu. Nervoso, rebeci de minha mãe (ou meu pai, não vou lembrar agora) a bendita almofada com as alianças. Olho pra elas, e elas pra mim. Parecia o Frodo, olhando fixamente para a aliança, temendo que ela ou me dominasse, ou destruísse o mundo. De qualquer jeito, pensava no pior. Sabia que Murphy seria predominante na noite. Simplesmente sabia.

A igreja começa a encher. E eu lá, completamente imóvel, Segurando a porra da almofada, não deixando as alianças mexerem um milímetro sequer. Não podia cometer tamanha gafe. Imagina só as alianças caindo no meio da igreja e eu lá, parado, olhando meus pais desesperados, rastejando no chão de roupa cara, tentanto catas as alianças. Fiquei paradinho, braços como hastes de titânio.

Chega um ponto que a igreja enche. Suspiro. Sei que está chegando a hora, mas não me sinto preparado. Duvido da escolha do meu tio de me escolher. Sabia que era a mais bonita, meiga e cativante criança que ele conhecia, mas ele não sabia que já era completamente louco. Pensei, mais uma vez, em simplesmente surtar e sair dali, correndo, alianças em punho, e nunca mais ser visto.

Minha mãe me empurra pra entrada da igreja. ‘Oh céus!’, penso eu, ‘agora não tem mais jeito!’ Tinham fechado as portas da igreja, para depois abri-las quando minha tia chegasse. Não tinha mais saída. Estava preso naquele recinto, cheio de gente cheirando a perfume doce, alguns tossindo e outros me olhando com caras de ‘nossa, mas como ele cresceu! Está a cara da mãe!’. Sempre tive a cara do meu pai e os olhos do meu avô. São todos cegos.

Uma música funebre começa a tocar. Olho pra minha mãe, quase chorando já, e penso logo que vamos ter um funeral antes da cerimonia. Meu funeral. Devia ter perdido metade da água do meu corpo até esse ponto. Estava tonto, vendo estrelas. Olhei pro Jesus no fim do corredor e pensei ‘você teve vida fácil. Queria ver você tendo que segurar as alianças do seu tio! Sortudo!’.

Ingrid chega do meu lado e dá aquele sorriso lindo que só ela tem. Achei que iria me acalmar com ela do meu lado. Nada disso. Fiquei é mais apavorado ainda, porque sabia que ela iria rir da minha cara quando eu fizesse merda. Minhas pernas tremiam, achava que ia desmaiar.

O mundo começou a ficar escuro. Pensei logo que iria acordar no CTI do Souza Aguiar, perto de bater as botas. Percebo logo que é meu primo Márcio me cobrindo com seu casaco. Suspiro mais uma vez.

Minha mãe nos urge a começar a caminhar. ‘Devagar! Passos coordenados! Passo, pára! Passo, pára!’ Já nem sabia mais aonde estava. O mundo era uma míriade de cores, formatos e barulhos. Só sabia que tinha que segurar com todas as minhas forças aquela almofada. Isso não podia esquecer.

E aquela música tocando. Entrando e chacoalhando minhas entranhas. Comecei a sentir azia, dor em todos o meu sistema digestivo. Achei que fosse perder meu bile em segundos. Ando, páro, ando, páro. O altar me parece mais para meu sacrifício do que para celebrar a união de duas pessoas em matrimônio.

Finalmente o altar chega. Páro e viro, jubilante por ter conseguido ultrapassar mais uma barreira na minha longa missão rumo à entrega das alianças. Meu tio estava do outro lado do altar, esperando, e me deu uma piscada. Senti a pressão e soltei um punzinho. De leve. Ninguém reparou.

Música alta. Tremo e quase derrubo a almofada. Dou um gritinho. Ninguém escuta de novo. Suspiro.

Chega minha tia. Linda. Maravilhosa. Perfeita. E eu lá, desidratado, louco pro padre terminar aquele troço o quanto antes possível.

Blá, blá, blá, blá. É tudo o que ouço. Olho pros meus lados e minha avó está chorando. Minha bisavó quase dormindo. Meus pais, em ambos os lados do altar, parecem prestes a desmaiarem de tédio. Como é chato esse troço, penso eu. E eu lá, ainda segurando aquela porra de almofada.

Finalmente vejo todos darem uma refrescada. ‘Chegou a hora’, pensei mais uma vez. Tinha me acostumado a pensar várias coisas. ‘Quem é aquela velha me olhando?’, ‘porque minha avó não pára de chorar?’ e ‘quando é que começa a festa?’ foram algumas das coisas que passaram pela minha cabeça durante o tédio eterno do dia.

Me endireito. Endureço. Páro de pensar e simplesmente olho, orgulhoso, para meu tio, que está prestes a dizer aquelas palavras antes de botar o anel do dedo da minha tia. Tantas horas de espera, tanta tontura, tanto suor perdido – tudo se resumia a esse momento. Esse maravilhoso momento de glória que estava reservado só pra mim.

Se fode aí, Murphy! Seguei bonito essa almofada! As alianças estão perfeitamente alinhadas! Sou o DEUS dos seguradores de almofadas! Vou ganhar uma estátua no Olimpo!

Quando o padre finalmente pede as alianças, dou meu passo triunfal em direção ao meu tio e lhe mostro a almofada. Levanto-a até perto de suas mãos. Tenho, finalmente, vontade de chorar. Esse era meu momento. Só eu e ele. A igreja inteira nos assistindo. Meus quinze segundos de fama.

Meu tio olha pra mim e, com um largo sorriso, chacoalha a cabeça e tira do bolso de dentro do paletó alianças. Fico branco. Mais pálido que um cadáver de uma semana.

Baixo minhas mãos. Olho para a almofada. Olho para as alianças. Seguro a almofada com uma das mãos e tento pegar as alianças. Presas à almofada com uma linha de linho.

Minha decepção foi absoluta. Vi meu tio retirar as alianças de verdade e colocá-las no dedo da minha tia. Vi minha tia pegar a outra aliança dele e colocar em seu dedo. E eu lá, olhando para a almofada, incrédulo.

Tive meu último pensamento do dia naquela hora. Depois nada mais importou. ‘Desgraçado!’



As aventuras do mini viking – Capítulo 8: Aguçado paladar
28-junho-2006, 1:12
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Tínhamos um sítio em Nogueira, distrito de Petrópolis, quando era menor. Ainda me lembro da piscinha de plástico, aquela que mais parecia um tanque mal-feito, mas que divertia meio mundo nas tardes quentes de verão. Lembranças eternas daquele lugar. Muitas histórias para contar.

Essa é possívelmente uma das aventuras mais antigas desse mini viking. Tinha uns dois anos. Adorava fazer absolutamente nada naquela casa – ficar sentado na varanda, dormir na rede, espiar o quintal verde e lindo agraciado pela bela bola de fogo do céu que nos provém vida e nutrição. Esses eram meus exatos pensamentos. Mesmo.

Minha mãe foi dar um pulo na cozinha e me deixou na sala. Precisava de um refresco para aquela manhã quente e úmida. Eu já estava completamente despido, com brotoejas brotando a torto e direito – sempre fui bastante alérgico a tudo. Inclusive meu próprio suor. O calor nunca foi meu amigo.

Eu, semi nu, olhava para os lados. Nada pra fazer. A casa estava vazia por alguma razão. Deviam todos estar na piscina, se deliciando de uma água refrescante naquele verão. E eu ali, bizuntado de hipoglós em todas as juntas, sofrendo com o calor infernal que assolava meu pobre corpinho gordo.

Na total falta de esperança de achar algo para fazer enquanto minha mãe não voltava, decidi então ir para a varanda. Quem sabe não achava a vista um alento para meu já enlouquecedor tédio. Quebrar coisas já tinha perdido a graça. Pintar paredes sempre foi coisa do meu primo Márcio. Queria algo novo.

Eis que avistei algo deveras estranho ao entrar na varanda. Ao lado da rede, onde sempre dormia maravilhado com o conforto prestado por aquele pano branco, vejo um negócio escuro, quase preto. Cheguei mais perto e vejo tal negócio se mexer para longe de mim. Isso muito me intrigou. Criança de dois anos + tédio + curiosidade = alguma merda.

Não tinha, naquela época, ainda desenvolvido completamente meu paladar. Estava ainda numa fase transitória, de depois provaria ser eternamente transitória, onde qualquer coisa poderia ter um gosto bom. Eu só precisava dar uma provadinha. Acho que toda criança já passou por isso. Eu ainda me encontro nessa fase. É interessante, tenho que admitir.

Minha mãe, retornando jubilante da cozinha, devidamente refrescada com uma bebida que escolhera, entra na sala e constata o óbvio: não estou mais ali. Acostumada com minhas presepadas, dá uma olhadinha aqui, uma acolá, e repara que fui para a varanda. Estou sentadinho, quietinho, olhando pro nada.

Me conhecendo melhor que eu mesmo, minha mãe já espera algo de errado. Era mais do que improvável me encontrar, a qualquer hora do dia, sem fazer nada. Especialmente sentado, olhando para o nada. Podia até gostar da varanda, mas o mais esperado é que já estivesse quase saindo do sítio para dar uma voltinha pela vizinhança.

Ela se aproximou, olhou em volta, viu que estava realmente paradinho, sem me mexer. Me chamou. Eu virei. Não entendi o olhar de terror dela naquela hora.

Tinham umas patinhas pretas se mexendo pra fora da minha boca.

Com mãos ágeis como uma puma, ela arrancou o besouro da minha boca, o jogou longe e tratou logo de lavar com sabe-se lá o que a boca de quem vos escreve. E eu, no meio disso tudo, não entendi absolutamente nada. Mas estava sentindo falta daquela balinha preta que mexia na minha boca.



As aventuras do mini viking – Capítulo 7: Fiquei careca de saber
29-setembro-2005, 1:11
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Morávamos no Portal do Morumbi, maravilhoso condomínio de nove prédios, quatro quadras de tênis, duas polivalentes, três piscinas, sauna, clube e um campo. Ah, e dois pequenos bosques. Um com uma cachoeira.

Bom, cá estava eu, pequeno viking de oito anos, indo pra casa do clube quando cai um temporal daqueles. Ainda bem que estava voltando da natação, então só iria me molhar mais um pouco. Como chovia naquela hora. Tempestades em São Paulo, por alguma razão, parecem ser maiores do que as daqui do Rio.

Pois bem, já estabelecemos o fato que chovia canivetes. Estava saindo do clube. Ouvi um barulho. Um miado desesperado.

Naquela época não tínhamos bichos em casa. Trauma do meu pai. Imagina ter que cuidar de cães, gatos, galinhas, marrecos e um chimpanzé – sim, um chimpanzé – sozinho na sua infância. Teria trauma também.

Sigo o miado para achar, escondido entre duas latas de lixo, completamente ensopado, um lindo gatinho. Atordoado e assustado, miava incessantemente enquanto cataratas de água caíam sobre seu corpo trêmulo. Olhou então pra mim com uma expressão de total desespero, total clemencia.

Não aguentei. O peguei em meus braços, cobri seu corpo com meu roupão da natação e corri pra casa. Lá, arranjei uma caixa de Maguary (meu pai trabalhava na reestruturação da Fleischmann Royal, subsidiária da Souza Cruz, para em breve a ser vendida pra a Nabisco), forrei seus cantos com um cobertor de lã e o coloquei, agora seco, na caixa debaixo de uma lâmpada, para mantê-lo quente.

A chuva fazia um barulho ensurdecedor. Minha mãe me ajudara a fazer a caminha dele, mas em todos os momentos me alertou para o fato de termos a ausência do meu pai em casa. Ele chegava do trabalho em breve, e eu com certeza escutaria muito. Mesmo assim não poderia deixar o Garfield (ele era laranja com traços pretos) na chuva, pedindo ajuda.

Meu pai chegou. Surtou. Exigiu que o bicho fosse embora assim que terminasse a chuva. Disse que não se pegava gatos assim da rua, que eles trazíam doenças.

Mas entendeu o que fiz e disse que tivera sido bonzinho com o bicho. Fiquei surpreso e feliz. Não queria ficar com o Garfield – só tirá-lo da chuva.

Fiquei com o bichinho lá no quarto, debaixo da lâmpada, a noite toda. Não parava de chover torrencialmente. O deixei ao lado da minha cama, e fiz carinho nele enquanto dormia. Adormeci com a minha mão na caixa.

Acordei e fazia sol. Prontamente, antes mesmo de me preparar pra ir pro colégio, levei o Garfield de volta pro lugar onde o achei. Não antes sem dar-lhe uma boa refeição. Não se pode ficar sem o café da manhã, minha mãe sempre dizia.

Voltei pra casa, tomei meu banho, meu café e fui pro colégio. Tudo correu como o esperado. À noite, fui tomar meu outro banho do dia e escovar meus dentes.

Meu cabelo coçava. Achava que tinha piolho. Coçava muito.

Chamei minha mãe quando parte do meu cabelo apareceu entre meus dedos. Quando mais coçava, mais cabelo aparecia. Minha mãe chegou no banheiro e deu um chilique natural. Estava perdendo cabelo!

Fui direto ao dermatologista no Albert Einstein. Coletaram isso, analisaram aquilo. Veio o diagnóstico.

“Você esteve em contato com algum animal recentemente?”, perguntou o dermatologista.

“Sim, ontem trouxe um gatinho da chuva.” Resondi com a voz já esperando o inevitável ‘I told you so’ do meu pai.

“Esse gatinho te deu um sadofiasdofih, que é uma irritação da pele. Por isso você perdeu cabelo nessa área. Você deve ter coçado o cabelo ali depois de brincar com ele.”

Minha mãe olhou pros lados, eu olhei pros lados. Iríamos escutar muito, mas muito quando chegássemos em casa. Saímos com uma receita de remédios e pomadas.

Meu pai falou demais. Merecemos cada palavra. Fiquei careca por algumas semanas.

Nunca mais mexo com gatos de rua.



As aventuras do mini viking – Capítulo 6: Dia chuvoso
21-setembro-2005, 1:10
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Dia chuvoso. Não tinha sido um dia legal. Havia um clima esquisito no ar. A casa estava silenciosa demais.

Acordei cedo, como sempre fazia quando era garoto, e percebi esse ambiente estranho. Não conseguia entender porque, mas algo didn’t fit. Caminhei para o banheiro, escovei meus dentinhos ainda de leite, fiz o que tinha que fazer e fui pra sala ver desenhos.

Nunca o Show da Xuxa. Aprendi minha lição.

Meu irmão ainda dormia. Devia ser um sábado. Afinal, não haviam as cobranças necessárias do dia-a-dia de crianças-preguiçosas-que-precisam-acordar-e-tomar-banho-e-café-
para-ir-ao-colégio.

Olhava pela janela de casa as gotas de chuva escorrendo pela janela. Pensava na minha vida até aquele ponto. Todos os amores, as decepções de uma vida repleta de acontecimentos. Poucos anos que passaram tão rápido, mas deixaram tantas lindas lembranças.

Enquanto ponderava o significado da vida, passava Topo Giggio na televisão. Como gostava daquele desenho. Chorava incessantemente vendo aquele ratinho solitário, tristonho na sua caminha. Pensava em todos os mendigos que via na rua, todas as pessoas necessitadas que não conseguia ajudar. Minha mãe sempre ficava preocupada comigo quando saíamos. Bastava eu ver um mendigo doente na rua pra abrir o berreiro.

Finalmente a casa ganha barulhos. A Dadá tinha saido do quarto. Estava na cozinha preparando algo. Cheirava maravilhosamente bem.

Minha avó depois apareceu. Estranho ela vir num sábado, visto que domingo era a macacada toda da família se infurnando na casa dela pra comer bolinhos, pães de queijo e afins entre sessões de sonecas. Mas não podia dizer que estava triste em vê-la. Só estranhei.

Ela estava toda carinhosa, me botando pra pensar em tudo. Perguntou-me meu dia, minha semana, como estava o colégio, a natação, o judô. Passei um tempão explicando tudo. E o cheiro da cozinha dominava o apartamento. Em breve acabaria o interrogatório e começaria a tão esperada comilança.

Depois de comer até explodir, fui pro meu quarto de brinquedos (sim, eu tinha um quarto que só tinha brinquedos… quem nunca teve, meus pêsames… é sensacional ter um quarto assim). Fiquei lá um tempo, entre meus Legos, meus lápis e o Castelo de Greyskull, inventando histórias, criando prédios, desenhando. Reinventando o mundo.

Mais à tarde reparo na ausência dos meus pais. Eles saíam de vez em quando. Todos os pais precisam disso. Mas engraçado era que não esperava que eles tivessem saído aquele dia.

Dadá disse que eles tinham ido pro hospital. Mamãe não estava se sentindo bem. Naquele momento, tentei entender tudo. Era um pouco complicado, mas tentei do mesmo jeito.
Então mamãe tinha se sentido mal, e papai a levou pro hospital. De manhã. Já estava chegando a noite…

Recebemos uma ligação do papai. Estavam a caminho de casa. Vovó foi pra casa. Dadá sentou conosco pra dizer para não chorarmos. Que tudo estaria bem.

Esperei ansioso a chegada dos dois. Quando chegaram, choramos juntos, abraçados, na sala de estar. Minha mãe perdera nosso caçula.



As aventuras do mini viking: Capítulo 5 – Castelo de Greyskull
14-setembro-2005, 1:09
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Meu pai, como bem expliquei na aventura passada, é uma cara batalhador. Nunca deixou de lutar a vida toda pra nos ajudar. Enquanto se transformava em diretor geral da América Latina de um conglomerado multinacional, lecionava em faculdades, aqui e em Petrópolis, fazia mestrado, doutorado e trabalhava, nessa época, na Souza Cruz. Um louco.

Era muito jovem. Quatro, cinco anos. Morávamos ainda no Grajaú, no apartamento 101 do edifício Tatiana, número 29 da Rua Engenheiro Richard. Meu pai viajou para a Inglaterra: tinha um curso da Souza Cruz (lá British American Tobacco). Achávamos que em breve ele voltaria. Que seria mais um daqueles dias em que ele volta pra casa quando estávamos dormindo e saía para o trabalho quando ainda não tínhamos acordado.

Papai não voltava. Soubemos depois que esse tal de ‘curso’ era algo duradouro. Três meses! Inacreditável! Como respiraríamos sem nosso pai por três meses? Como seria possível não conseguir sentar no seu colo dizer “from the bottom of my heart”!?

Ficávamos atentos, olhando para a porta e para o telefone, à procura de som ou da imagem do nosso pai. Ele diz hoje que tinha medo que esqueceríamos dele. Bobo. Um herói, um deus na terra não se esquece assim. Não importa o quão jovem és.

Entre os telefonemas e as esperas intermináveis, vivíamos nossa vida de pintar com as mãos, correr atrás de nós mesmos no parquinho, no play ou no colégio. Eramos ocupados o bastante para não irmos a loucura com a falta dele. Vira e mexe ganhávamos um boa noite dele. Era tudo para nós.

Quando estávamos aguardando a volta do nosso deus em um mês, um mísero grupo de trinta dias, minha mãe vem com a bomba: “Lindinhos, vou lá me encontrar com seu pai. Vamos passar um tempo sem vocês nos enchendo o saco, gastando nosso precioso tempo. Vamos lembrar de como era bom quando não tínhamos vocês por perto – como éramos mais felizes. Volto junto com seu pai, em um mês, para esse inferno na terra que vocês criam para nós todos os dias”. Vocês podem imaginar como tudo isso soou em minha pobre cabeçinha juvenil. Entrei em parafusos.

Já não bastava metade da sua vida ir embora assim, de bobeira, por causa de algo estranho e estúpido chamado ‘curso’ que não vale nada pra você. Agora vem sua outra metade dizer que vai embora também. Esse mísero grupo de trinta dias agora parecia uma eternidade de dor e sofrimento! Como eles tinham a coragem de fazer isso conosco? COMIGO?

Minha mãe foi, e minha avó foi morar lá em casa junto com a Dadá, nossa babá/secretária que até hoje, mesmo depois de morarmos por anos e anos em Sampa e no exterior, está aqui em casa de novo. Vovó nos dava (quase) tudo o que pedíamos. “Até que esse mês pode ser melhor que esperava… é só conseguir realmente tudo o que quero da vovs”, pensava.

Um belo dia recebemos uma ligação. “Estamos voltando crianças!”, disse ele, do outro lado do telefone, com aquele lag estranho mas típico da telefonia de outrora, “Saímos daqui de Londres em meia-hora! Estamos chegando em breve! Estejam acordados!”.

“Hmpf, claro, agora ele quer que fiquemos acordados, suuuper felizes para recebê-los. Egoístas.”, pensava. “Meu pai vai querer que pulemos em seu pescoço também. Aposto que está barbudo.”

Acabamos dormindo mesmo. O vôo era longo, mas o fuso permitia que eles chegassem mais cedo. Não entendi direito quando minha avó tentou desenhar um diagrama do avião, dos fusos e tudo mais. Fui dormir.

Acordei um pouco antes da hora deles chegaram. Fui tomar banho, ficar bem cheiroso. Afinal, havia tanto tempo que queria deixar uma boa impressão. Senão bobear ele voltava pra lá com medo da gente.

Toca a campainha. Escuto os barulhos de mala, coisas mil. Ouço as vozes da minha mãe – sempre as mais altas de qualquer recinto. Não ouço as dele. Só falta ele ter preferido ficar lá!

Minha mãe entra, sorridente e entupida de coisas. Cada membro seu segurava umas quinze bolsas – isso sem contar que a Dadá estava tentando manter o equilíbrio segurando doze malas. Nos viu e correu para o abraço.

A felicidade de ver seus pais depois de tanto tempo é algo avassalador. Lá estava ela de novo, linda, sorridente, correndo em nossa direção para um abraço carinhoso. Como é possível evitar algo assim?

A segurei com toda minha força. A entupi de beijos. Trinta dias é muito tempo.

Ouço a voz dele. Mais barulho de coisas. Ele fala com a minha avó, fala com a Dadá. Pergunta como estivemos. Estamos aqui oras! Pergunta pra gente!

Corri pra cozinha para abraçá-lo. No meio de bolsas e malas mil, pulei pra cima dele e não queria nunca mais soltar. Não estava barbudo. Estava igualzinho. Parecia que nunca tivera viajado. Decepção.

Após incontáveis beijos e abraçõs, nos reunimos na sala de televisão.Nos sentaram no chão. Vieram com trocentas bolsas e uma gigantesca mala.

Começaram a nos mostrar o que compraram, para eles e para nós. Muitas roupas, escarfes, casacos. Nada que queria. Tanta coisa inútil que estava ficando entediado. Depois de todo o nosso guarda-roupa atualizado, veio o que não esperava

Meu pai me traz um castelo enorme. Lembrava dele: era o Castelo de Greyskull! Onde He-man e Pacato e Mentor lutavam contra o Esqueleto e a Malígna! Tinha também uma prima dele, com uma música insuportável cantada pela Xuxa… não me lembrava o nome.
Vislumbrei aquele monstruoso brinquedo. Era quase do meu tamanho! Cheio de janelas, torres, portões. Perfeito! Ele fechado já era tudo o que poderia querer!

“Abre o castelo filho”, disse meu pai. “Aqui pelo lado”. Me mostrou uns dois ou três pinos que existiam no lado do castelo e me mostrou que ele abria para mostrar seu interior! Uau, não só era perfeito para brincar por fora, mas dava pra brincar por dentro! Quanta tecnologia!

Lá estava eu, minúsculo viking, abrindo o monumental Castelo de Greyskull que se encontrava perante a minha pequena pessoa. Assim que ouço o último clique dos pinos, meu pai abriu com força o castelo. Mal podia esperar para ver se tinha calabouços, escadas, passagens se-cre-tas!

O castelo se abre. Eu, sempre curioso, quis logo ver o que ele tinha de maravilhoso por dentor. Fui soterrado.

Quando abri o castelo, a turma inteira do He-Man, e possívelmente da She-ra, dos Comandos em Ação, Ursinhos Gumy, qualquer outro desenho que tinha uma linha de bonecos caiu em cima de mim. Eram centenas, milhares de bonecos. Fiquei envolto até a cintura de brinquedos. Vi na expressão do meu pai o que meu rosto dizia: completo torpor.

Se meu pai tivesse viajado mais uns três meses acho que ganhava a Harrods inteira.