Lembrança Eterna de uma Mente sem Brilho


Tristão
10-julho-2008, 1:16
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Meu adversário caiu sob a ponta da minha lança. Seus olhos, lacrimosos, se puderam a me desfiar, ainda que seu corpo, caído, derrotado, não mais me apresentasse desafio algum. Consegui derrotar o cavaleiro, por fim. Ao cerrar dos seus olhos, assolados pela exaustão, vi um homem belo, sublime em seu suplício final, manchado pela marca do fracasso. Ainda sim senti pouca pena daquele corpo retorcido, e segui meu caminho em direção ao meu objetivo.

Dias e noites de passaram, e estranhos sonhos tive. Momentos lúdicos, separados por tumultuosas imagens de luxúria e perdição. Dormi pouco, com medo de fechar os olhos e ser confrontado por imagens tão arrebatadoras e incitantes.

Encontrei ela sem muito alarde. Sabendo seu papel, ela se entregou a mim. Honra e promessas a serem cumpridas. Parti com ela em meu domínio assim que os primeiros brilhos do astro-rei deram seu gracioso sinal de vida.

Nosso caminho não foi periloso. Pelo contrário, o tédio e o marasmo dominaram todo o percurso até as praias de areia rochosa, a dois dias de distância. Paramos ao final do primeiro dia, numa clareira que me pareceu segura o suficiente para passarmos a noite.

Uma árvore, no extremo direito da clareira, me chamou atenção. Suas frutas de coloração viva me puseram a caminhar em sua direção. Não hesitei em colher inúras daquelas pequenas frutinhas, lindas e delicadas, e tive imenso prazer em consumi-las, uma por uma, num banquete silvestre como jamais tivera imaginado. Ela se pôs a provar as pequenas frutas, e quando nos demos conta tinhamos acabado com todas a linha prole da incrível árvore que agora nos olhava acabada, despida de toda sua cor, imaculada em sua nudez e melancolia.

A noite chegou mais cedo do que esperava. O frio chegou mais forte do que pensava. Tive de dividir espaço com ela, alimentando nossos corpos com o calor alheio. Sonhei imagens incríveis. Cores vívidas, corpos se entrelaçando em uma dança de fantástica coesão e sincronia.

Acordei suando, com meu coração tentando bravamente escapar da minha caixa toráxica em vão. Assustado, virei ao meu lado para ver ela, linda sob a luz de uma noite estrelada e de lua cheia, igualmente acordada e ofegante. Olhei em seus olhos e não me contive.

Nos abraçamos e foi a melhor sensação que já tive em toda a minha vida. Perdi meus sentidos. Simplesmente senti e não pensei. Estávamos lá, a sós, completamente entregues, e nunca fui tão completo e feliz. Foram horas de um êxtase inimaginável. O cheio de sua pele, os murmurros de prazer, seus olhos cintilantes. Eros não teria conseguido proeza tão perfeita como a junção de nossos corpos.

Acordei atordoado. Jamais senti algo parecido. Tudo tão perfeito, tão completo, tão incrível. Me veio a minha promessa. Minha dívida. Não podia deixar de cumpri-la. Minha honra, a honra de outrem, tudo estava em jogo. Relutantemente me pus a seguir o caminho previamente traçado. Lágrimas escorriam de meu rosto quando deixei a rochosa praia a caminho do meu destino final.

A tive todas as noites. Ela virou meu maior desejo, meu significado de vida. Ela era tudo o que queria, tudo o que poderia querer. Não havia dúvida alguma em meu coração. Cada batimento era pra ela, por ela. Semanas se passaram, e cada vez mais desejava estar dentro dela. Não se passava um instante no qual não queria fugir, sumir do mundo com minha eterna amada. O amor de toda uma vida.

A entreguei, sã e salva, e por poucos momentos achei que não mais conseguiria respirar. O fechar das portas, ela de um lado e eu de outro, significou na hora o final da minha vida. Caí e, de joelhos, chorei copiosamente. Não podia conter a dor no meu peito.

Na mesma noite esperei por ela no jardim. Chovia levemente, e minha lágrimas escorreram acompanhadas das doces gotas que caiam do céu. Senti um certo conforto na chuva. Parecia que os deuses choravam comigo. Esperei sem tê-la avisado. Esperei pela esperança de encontrá-la. E ela veio a mim. Não sei como, mas ela veio a mim.

Nos escondemos muito bem. Conseguimos ter um ao outro todas as noites, sempre no calar da madrugada. Nunca soube de ninguém que a tivesse visto escapar dos seus aposentos. Tínhamos um lugar secreto, só nosso, sempre disponível para que pudessemos regojizar no deleite de nossos ofegantes corpos. Três anos se passaram, sem que por um dia sequer eu não a tivesse, plena e entregue.

Fazia sol na semana passada. Estava a só, olhando o lago que abraça o território do palácio. Plantações de trigo jocosamente dançavam com o vento, elevando meus espíritos e anunciando um belo dia de primavera. Estreava novas roupas, de cetim com detalhes em couro. Crianças dançavam alegremente ao redor do jardim, trazendo ainda mais jovialidade ao meu espírito.

A noite chegou, e não soube o que fazer. Não sabia porque estava ali, sentado naquele banco de madeira na margem mais rasa do lago. Abaixo da árvore centenária que abençoava o espelho d’água. Era tão escuro que não consegui sequer ver minha mão. Um leve vento quente soprava e senti meus cabelos esvoaçarem, mesmo que eu não pudesse vê-los. Me pus a pensar no que fazia ali, e por muitas horas não soube porque estava lá, mas também não conseguia sair daquele banco.

Acordei com o primeiros primeiros sinais do dia. Raios enrubesceram o antigo céu escuro, e cobri meus olhos cansados até me acostumar com a claridade. Me levantei, torto e doído, e olhei para o banco no qual tinha dormido. Ainda não entendi, nem entendo, porque eu dormi ali. Caminhei vagarosamente até a entrada da biblioteca, com meus novos trajes estragados por uma noite mal dormida no banco velho e estragado do lago.

Já fazem inúmeros dias que não sei mais o que fazer com as minhas noites. Lembrei dela e de tudo que houve ontem. As memórias vieram a mim quando a avistei de longe, quando descia para o baile de gala. Pisquei algumas vezes quando ela passou por mim, e cordialmente trocamos cumprimentos. Olhamos um para o outro por alguns poucos instantes, e percebi que a conhecia bem e ela a mim. As recoleções vieram como algo esquecido, quase como um sonho lúcido. Tão somente uma reles lembrança de um passado que não reconheço. De alguém que sequer significa mais que uma dívida que paguei com honra e dignidade.

A história de Tristão e Isolda me fez pensar em meu momento atual. Esse sonho lúcido que pareço viver. Ou ter vivido. Ainda não sei.



O casamento, o beijo
5-junho-2008, 9:44
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Sábado foi um dia de descobertas. Tinha uma aposta rolando. Ninguém confiava que iriamos seguir adiante com ele. Ledo engano.

Ju e Pedro são dois extremos de um mundo que sempre nos dá alegres surpresas. Ela é carioca e fez Letras. Ele é paulista (se não for só fala com sotaque escroto) e é economista. Não conheço a história de como eles se conheceram, então me atenho ao fato de serem de dois extremos socio-intelectuais e isso os torna um casal incomum. Quem vier dizer que Economia e Letras são ciências sociais eu mato de porrada. Com um garfo, pra doer mais.

Se casaram naquela igreja de vidro da Lagoa. Quem não conhece, não é do Rio, não sabe de igreja alguma, nunca entrou numa (sorte sua) ou é interminantemente preguiçoso pra pensar e tentar saber se lembra dela, sefu, pois nem o Google Images tem foto dessa joça. Bom, imaginem uma igreja oval com vitrais. Parece bela, né? Afinal, tem a Lagoa de pano de fundo e tal.

Pois é uma igreja que aparenta ser o Maracanã antes da reforma. E olha que a reforma do Maior do Mundo foi uma bela bosta. Azulejos azul claro desbotados, uma tinta igualmente tosca nas paredes, reboco pedindo arrego, se segurando com toda a força divina pra não cair nos fiéis, um orgão que deve ser mais velho que minha recém-falecida vovózinha de 101 anos. Ainda bem que fazia um friozinho, pois os ventiladores instalados nas colunas não funcionavam.

O padre. Velhinho rabugento da porra. Portuga que deve ter vindo pro Brasil a pedido da congregação, se viu preso num dos mais belos lugares do planeta e mesmo assim sente falta da terrinha. Porque fala como se estivesse com a língua presa num vilarejo de Penha Garcia. Queria uma intérprete ao lado dele pra entender metade, só metade, do que ele dizia. E ainda ficava bravo com a falta de améns dessa nossa nova geração herege e pagã. Virava-se para os convidados e um solene ‘amén, gente!’ trazia respostas meia-boca dos presentes.

Fiquei intrigado com tudo o que acontecia que não fazia parte da cerimônia. Como sempre. Jesus – um dos três da igreja – tinha uma túnica que parecia aquela do Galo do Tempo quando fica rosa, sabe? Tinha até uma bandeira do América ao lado dele… bem imagino o barbudo gritando ‘Saaaaaaanguê! Saaaaaaanguê!’.

A solista e a tocadora do órgão (hihihi) pareciam revezar quem estava mais entediada.

James Bond resolveu aparecer na festa. De olhos claros, cabelos loiros e uma gravata borboleta que ninguém botar defeito. Ainda bem que o novo dãbãlou-céven é o Daniel Craig. Senão o cara só seria alguém loiro de olhos claros e gravata borboleta num casamento na Lagoa.

A recepção foi no Jóquei. Quer dizer, no Jockey Club, Salão Placé. Meu RSVP foi esquecido. Bem dernier cri. Dar satisfação anda tão démodé. Adorei as hors d’oeuvre e o single malt que serviram junto com os pastries deliciosos que estavam ao lado do crème brûlée. Très chic. As mesas, lindas com um delicado peau de soie. Só o crème de la crème estava na soirée. Quase fiz um coup d’état quando vi que não tinham café au lait na saída. Deitei-me no chaise longue e dei carte blanche para uma brunette olhar a bête noire, minha agent provocateur e pièce de resistance. Ela ficou toda rouge. Foi um succès fou!

As musiquetas não poderiam ser melhores. Descartados os clássicos d’A Voz. Descartados os funks. Tocou A-Ha. Tocou Oingo Boingo. Porra, sensacional.

Durante uma dessas músicas, ocorreu o beijo. Ele tava demorando pra vir. Tivera sido anunciado há tempos.

Marcelo não conseguiu perder peso. Tentou, tadinho. Mas não deu. Traçou uma meta, se furnicou pra alcançá-la mas, no fim do mês de março, continuava sem conseguir atingir seu objetivo. Resultado, o que tivera dito no começo do mês valia. Ninguém mandou dizer que me tascaria um beijo se não chegasse à sua meta. Perdeu e se viu forçado a pagar.

Tinhamos brincado demais o mês inteiro. Troca de emails, comentários sarcásticos, sacanagens alheias. Tudo na tentativa de deixá-lo ainda mais sem graça e preocupado. Eu estava de boa. Sempre estive. Não considerava a aposta nada demais.

Olha, sempre sou chamado do mais gay da turma, galera, patota. Tenho gosto por muita coisa fresca. Tenho opiniões cercadas de embasamentos que normalmente se retringem às pessoas de tendências homossexuais. Nunca tive problema com isso. Aliás, sinto que nasci com esse parafuso preconceituoso a menos, felizmente. Nunca vi razão nenhuma pra discordar da opção sexual alheia. Nunca achei errado, feio, uma afronta. Entendo perfeitamente o que atrai um homem a outro.

Homens são mais amigos. Menos cheios de merda. Menos mentirosos. Quisera eu ter tesão por homens. Porque acham que homossexuais homens são chamados de gays? Gay, em inglês, quer dizer feliz, alegre. Somos todos deprimidos, oprimidos, frustrados e infelizes. Gays são, por definição ortográfica e gramatical, pessoas felizes e alegres. E não é uma classificação tola, sem sentido. Eles realmente aparentam ser bem mais contentes que nós heteros. Devem saber algo que não sabemos.

Marcelo se fudeu porque brincou com o fogo errado. Fogo de palha apaga rápido. Brincar comigo não. Nunca tive nem nunca terei problema em receber beijos de entes queridos. Pelo contrário. Sou carente, e qualquer forma (não invasiva, né Paul LaFontaine) é bem-vinda. Abraços, beijos, carinhos. Tô dentro.

Ele tava nervoso, tadinho. A primeira vez que qualquer homem deve ser difícil mesmo. Pior que era a minha também, mas estava tranquilo. Estavamos dançando, jovialmente. Marcelo não dança. Fernando menos. Mas tava tocando rock, né. Dá pra mexer o esqueleto um pouco. Gloria Gaynor e The Village People só eu danço. E muito. Um dos momentos mais legais do meu ano foi ter platéia enquanto cantava, em alto e bom som, ‘Como uma Deusa’ no Galeria Café às 4h e pouco. Sensacional.

Quando menos esperava, lá veio ele. Foi rápido, engraçado, nervoso. Parecia que ele tinha 12 anos. Fernando não acreditou. Arregalou os olhos e entrou num estado de euforia como não via desde que esse metaleiro pulou e dançou ao som da Bartucada em Guarapari. Nos abraçamos, gritamos, pulamos, comemoramos. Foi hilário, emocionante, fantástico.

Aí o filho da puta vai e me troca por uma biscate morena. Canalha. Homens são todos iguais mesmo.



Rogério e seu ônibus
24-março-2008, 1:27
Filed under: Contos

Rogério não está bem. Rogério não está feliz. Rogério pensa que a vida seria mais simples. Que tudo se ajeitaria no final.

Mas que final é esse?, indaga Rogério. Seus pensamentos divagam a ponto dele mesmo se esquecer onde está – no ponto de ônibus, em uma cidade que não a dele, esperando não sabe o quê, ao lado de uma senhora de feições tão comuns que parece conhecida. As coisas meio que acontecem com Rogério. Ele nem bem sabe por quê.

Ainda sim ele se põe a pensar nos últimos acontecimentos. No que o levou a esse ponto de ônibus obscuro, no meio do nada. Ele olha para o poste ao lado do ponto, com sua luz incadescente apagando e ligando, randomicamente, e pensa que sua vida está muito próxima disso. Seu amor fugaz, eterno e sublime, sua decepção, profunda e sombria, sua felicidade, repleta de magia, sua deprimencia, completa e tardia.

Os brilhar da luz do poste se extingue. Rogério e a velha se encontram num breu sufocante, temeroso. Rogério olha para os olhos, tão sofridos, calmos e pacatos da senhora e oferece o que lhe sobrou de compaixão.

‘Se a senhora quiser, podemos andar até o ponto seguinte, onde dá pra ver que tem luz. Ali, ó, no final da rua.’ Os olhos de Rogério não conseguem se firmar nos olhos da senhora. Ela apresenta tamanha tranquilidade que desestabiliza Rogério. Sem ter mais o que fazer, ele se volta para o final da rua, onde ainda vislumbra-se alguma luz.

Sombras e barulhos seguem a escuridão. No final da rua, a uns quinhentos metros, vê-se um cachorro, caminhando vagarosamente pelo ponto de ônibus iluminado, cheirando seu assento e rodeando seu sinal. O cão parece olhar para Rogério, e com um uivo de partir a alma de qualquer um se despede, caminhando para o outro lado da rua, dobrando a esquina quase imperceptível e sumindo de sua visão.

Rogério vira-se para a senhora para lhe convidar a ir ao ponto mas ela não mais está lá. Ao invés do corpo gasto e enrugado da pobre senhora está um livro, com marcação definida. O livro é de capa azul, sem nome, e parece velho. Antigo. Sabio.

Ao abri-lo Rogério sente uma brisa atingir seu rosto. Mal é possível enzergar qualquer coisa, mas seus olhos já se acostumaram com a penumbra e, se ele conseguir se concentrar e olhar fixamente as palavras do livro é possível ler algumas passagens. Poucos parágrafos estão na língua que Rogério escuta desde criança. Nunca quis aprender outra, por achar que nunca precisaria saber. Ele vasculha as folhas, vagarosamente, tentando de alguma forma compreender alguma coisa escrita.

Maldita penumbra, pensa ele. Mal consigo enxergar as letras maiúsculas, quiçá as pequenas. No outro ponto há luz. Levo esse livro até lá.

As primeiras pedras portuguesas, caprichosamente colocadas na calçada do ponto, se desmancham quando Rogério nelas pisa e caem num buraco de extrema profundidade. Rogério pula para trás, para o cimento do ponto de ônibus, e por pouco não se vê caindo no buraco agora deixado na calçada pelo seu passo.

‘Preciso ficar aqui’, diz ele. Ninguém aparenta escutar, mas mesmo assim Rogério insiste. ‘Desculpa, viu? Eu só quero ir pra casa!’. O cachorro reaparece da esquina, olha para Rogério, se desloca calmamente até o encontro do ralo da rua com a calçada e se joga nele, desaparecendo como a chuva de verão que assola a cidade.

Rogério olha para a rua a sua frente. Seu cimento escuro e frio. Os olhos de gato da rua parecem o acompanhar. Seu brilho escondido pela falta de iluminação os tornam ainda mais ofuscantes.

De longe aparece um barulho. Um ruído, quase imperceptível. Rogério logo ouve o som do motor. É um ônibus. Chegara a sua saída. O livro ainda se encontra na mão de Rogério. Sua capa áspera roça contra as mãos delicadas do escritor.

As luzes potentes do ônibus dobram a esquina. Ele passa pelo ponto iluminado no final da rua mas mesmo assim nehuma sombra é vista. Somente as luzes, se movimentando no pavimento negro.

Rogério faz sinal. Ergue seus braços e desafia as luzes a parar. Vê naqueles dois focos brilhantes a esperança de sair da escuridão. De encontrar seu caminho. De chegar ao seu destino final.

As luzes se aproximam. Parecem acelerar. Se tornam ainda mais claras. Um zumbido toma conta dos ouvidos de Rogério. Ele põe as mãos para proteger os ouvidos. Seu livro cai no cimento do ponto. As luzes estão tão perto que é impossível manter os olhos abertos.

Elas estão a metros dele. Gigantes, perfeitas, medonhas. Rogério suspira seu último suspiro. Se curva diante do som e da luz. Se entrega, em posição fetal, ao inevitável.

A ausência de som e luz é eterna.



Red
29-setembro-2006, 11:38
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Ela era ruiva. Sardinhas e tudo. Amiga dele. Todas sempre são.

Lugar barulhento, meio fora do que ele estava acostumado. Tudo bem, pensou ele. Todo lugar novo é um lugar a se conhecer.

A música vagarosamente se alojou em seus ouvidos. Jamais achava que estaria lá, naquele lugar. Lugar lindo, diga-se. Mas de pessoas diferentes. Um povo ainda estranho.

Tinha ido pra lá com amigos da faculdade. Encontrou pessoas do trabalho e pessoas amigas de colégio. Estava muito contente, rodeados de loucos que ele tanto gostava.

Nunca tinha nem pensado nela, a ruiva, dessa maneira. Era sua amiga e nada mais. Mas nesse dia viu as coisas um pouco diferente.

A maioria dos amigos de colégio tinham saído. Ficaram os do trabalho e da faculdade. E a ruiva resolveu ficar. Beleza, pensou ele. Muito legal.

Perdia a linha dançando frenéticamente ao som de Mamonas Assassinas, o grande Sidney Magal, dentre outros, com seus amigos de faculdade. Samba era lá embaixo. Os anos 80 bombavam aqui – e ele se divertia como nunca. Talvez esse tivera sido um dos dias mais divertidos de toda a sua vida.

Ele olhou pra ela. Não sabia se ela ainda namorava. Imaginava que não. Não custava tentar.

A resposta foi um estranho não. Não parecia sim, nem não. Mesmo assim, ele não pensou duas vezes e fez o que queria. Deu certo.

Semanas depois, tudo foi meio pros ares. ‘Você é muito carpe diem’, disse ela.

Mesmo assim ele teve sua ruiva. Chupa, Doni. Chupa, Ina.



Amiga, pra que te quero
27-setembro-2006, 2:39
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Há muito tempo ele não a via. Tinha viajado, perdido noção do tempo, mas mesmo assim ainda a tinha na cabeça. Resolveu ligar um belo dia para ela.

Enquanto no outro lado da linha o telefone tocava, ele pensava no que diria a ela. Faziam meses que não se falavam. Realmente não havia razão para ele ligar assim, de repente, sem motivo. Mesmo assim ele deixava o telefone tocar.

Atendeu uma voz estranha. ‘Alô? Quem fala? Ah, ela não está. Acabei de me mudar pra cá. É, estou divindo esse apê com ela agora. Vim de Macaé, onde meu pai trabalha… qual o seu nome mesmo? Tá, deixo recado que você ligou pra ela. Tenho que ir pra PUC agora. Beijos!’

Bem, valeu a tentativa, pensou ele. Se essa menina realmente deixar recado, e ela não ligar, quer dizer que não valia a pena mesmo. Só me resta esperar.

No dia seguinte, uma sexta-feira, toca o telefone. É ela, que diz ter uma festa em seu apartamento marcada com o pessoal da faculdade. Convida ele para ir também. Ele prontamente aceita o pedido.

Em momento algum é discutido o tempo que se passou para que os dois voltassem a se falar. Estranho tudo isso, pensou ele. Mas, se vou para uma festa na casa dela, tudo está tranquilo.

A festa tivera sido marcada às sete e meia da noite, para todos poderem ir direto do trabalho. Ele fez questão de aparecer um pouco tarde, para não chegar lá com quase ninguém na casa. Afinal, não sabia ele qual seria o ambiente entre os dois.

Chegando prontamente atrasado em sua casa, um apartamento em Botafogo, a ponto de receber uma ligação dela para confirmar sua ida, ele adentra o ambiente repleto de pessoas que não conhecia. Na festa tinha de tudo, de sujeitos engravatados, com colarinho esgarçado e suado, a pseudos, com suas sandálias portuguesas e bolsas de hemp atravessadas no peito. Finalmente ela vem o receber, sorridente e amigável.

Conversa vai, conversa vem. Ele se sente mais confortável ao lado dela depois de alguns minutos. Pensa até em reatar conversas perdidas no tempo, a fim de conquistá-la mais uma vez. Percebe que tem uma mulher, morena com luzes mais claras, um pouco mais baixa que ele, de olhos castanhos penetrantes e corpo um pouco mais cheio que o normal – simplesmente perfeito em todos os sentidos.

Começa a se sentir desconfortável com os olhares dela, cada vez mais longos e insinuantes. Vê que ela, ao conversar com pessoas em seu pequeno grupo de cinco pessoas, fala sem tirar seus olhos dele – a porto de ser chamada atenção e de tirar risos dos cinco, que automaticamente olharam pra ele para ver o que é que ela tanto olhava.

Ela, com quem ainda conversava, repara, finalmente, nos olhares penetrantes da morena. Pergunta se ele a conheçe. Ele diz que não.
‘Essa é a nova moradora daqui. Chegou há três meses de Macaé.’ disse ela, sem aparentar desconforto. ‘Ela é meio louca, fica sempre fora de casa até tarde, mas é gente boa. É no mínimo divertido dividir esse apê com ela.’

Ele pensou logo em mostrar indiferença. ‘Ah, foi essa quem atendeu o telefone. O que ela faz aqui? Quando liguei antes e ela disse que estava de saída pra PUC…’

‘Faz psicologia… ou é sociologia? Vou chamá-la pra conversar conoso. Aposto que ela que te conhecer. Não pára de olhar pra cá.’ E lá foi ela, atrás da morena. Ele ficou lá, sem saber muito o que fazer. Agora não sabia se os olhares eram de curiosidade ou de interesse.

Loucas não demonstram seus sentimentos muito bem. Deve ser isso, pensou ele.

A morena chegou, toda sorridente, para cumprimentá-lo. ‘Olá. Então você é o do telefone. Não ligaria a voz à pessoa de jeito nenhum!’ Aproveita para dar-lhe um abraço também. ‘Amigos da minha amiga são meus amigos! E conheço muito sobre você já.’ Ele sua. ‘Já tivemos altas conversas regadas a vinho aqui!’ Ele procura uma saída, mas vê nenhuma.

Ela interrompe a amiga. ‘Pára com isso, vai. Não é verdade que falamos de você sempre. Mas houve umas noites, no começo, quando ela chegou, que você apareceu nas conversas. Coisas passadas.’ Ela toca no braço dele, num movimento de consolo. Ele só olha pra morena, olhos cintilantes, e descobre fácilmente o que é que as duas conversavam. Aquele olhar não enganaria ninguém. Ou ela era realmente completamente louca.

‘Por falar em vinho, eu quero.’ diz ele, com vontade de virar uma garrada de gran reserva de cabernet sauvigno que vira na mesa ao lado da entrada da cozinha.

‘Pode deixar que eu pego.’ diz ela, indo buscar uma taça na cozinha. Ela tinha um apartamento lindíssimo – pequeno, confortável e muito bem decorado.

A morena quebra o silêncio instaurado pela saída dela. ‘Sabe, escutei coisas bem legais sobre você. Ela ficou uma noite sem parar de falar em ti por horas.’

‘É mesmo? Espero que tenha sido só coisa boa.’ Ele realmente não entende essa morena. Não pode ser tão óbvio assim. Ninguém é tão cara-de-pau.

‘Ah, foi só coisa boa.’ Ela ri um jocoso riso, jogando cabelo para o lado, claramente flertando com ele. Na frente dela! Jesus!

Cadê meu vinho?, pensa ele. Isso está ficando absurdo.

‘Ela está namorando agora, sabia?’ solta ela, olhando diretamente nos olhos dele.

‘Sério? Não tinha idéia. Com quem?’

‘Lembra um amigo dela, da faculdade, com quem saía sempre? Aquele que namorava uma loirinha, baixinha e meio chata?’

Ele ri. ‘Não lembro muito bem não, mas não faz diferença eu lembrar ou não dele.’

‘Pois então, ele pegou a loirinha se pegando com outro correu pros braços dessa aqui para enxugar as lágrimas. Se entenderam como nunca e estão juntos há dois meses.’

‘Pô, que legal pra ela. Imagino que esteja feliz.’ Ele queria saber aonde estava indo essa conversa. Bem, já entendia, mais ou menos, mas não tinha certeza absoluta a ponto de tentar algo concreto.

‘Está sim. É tão bonito vê-los juntos. Ficam muito bem.’ Ela enrolou então o cabelo na mão esquerda, jogando os cabelos um pouco cacheados pelo ombro até os seios. Lindos seios. Tinha uma camisa verde, sem manga, e parte do sutiã preto ficava à mostra através do decote.

E o vinho que não chega, pensou ele.

Ela finalmente aparece com o vinho. E de mãos dadas com seu namorado. Cabelo preto, mais de um e noventa, magro. Feio como um javali atropelado.

‘Eis seu vinho. Só sobrou o de rótulo branco.’ Justamente o gran reseva. Êba, suspirou ele.

Vinho com propriedades na medida certa. Vernús, gran sereva da vinícula Santa Helena, do Chile. Nota mental: estocar esse vinho em casa quando comprar uma adega daqueles que se vê na Ambient Air.

Como a adega ainda não veio, o vinho continua na memória.

‘Você já conhece?’ ela o demonstra pra ele. Apertam as mãos, amigávelmente, e a conversa continua em amenidades, sempre com piadinhas dele, e risos, alguns claramente por educação, de todos.

Ninguém estava tomando o vinho, então ele fez questão de terminar a garrafa toda, para seu deleite. Ao término da garrafa, a festa já estava chegando ao seu fim. Algumas pessoas já estavam semi-acordadas nos sofás, prestes a cairem no sono, enquanto outras já se dirigiam à dona da festa para agradecer a hospitalidade e irem para suas respectivas casas.

Ela vira pra ele, o interrompendo enquanto contava uma das coisas engraçadas de uma viagem à Europa. ‘Desculpa te interromper. Vou ter que me despedir de todos agora. Fiquem aí conversando. Não quero que vá agora. Chegou muito tarde, então vai ser o último a sair! Não o vejo há tempos, e ainda temos muito a conversar.’ Ela saiu com seu namorado em direção à porta.

Os dois que sobraram ficaram conversando amigavelmente. Entraram em assuntos como política, sociologia (era esse o curso dela, não psicologia), até esportes. Ela gostava muito de vôlei, vindo de Macaé era o esporte que conseguia acompanhar sempre. A cidade tem, ou tinha, não sei, uma equipe forte de vôlei. Ela até tinha participado de algumas seletivas para a equipe júnior do time, mas nas peneiras finais tinha sido desclassificava por ser baixa demais e não jogar bem de líbero.

Em certo momento da conversa, durante uma risada linda e natural, ela o segura no antebraço, talvez para acentuar a risada, talvez não. Ele não tinha certeza. A certeza que teve é que não havia hora melhor de dar o bote, visto que após a risada, ainda com um rosto sorridente e alegre, eles trocaram os olhares mais intencionais da noite.

Ele a beijou com vontade. A morena em momento algum mostrou-se surpresa. O dominou por completo, agarrando-lhe e o levando para a parede da sala. Pouco importante de haviam pessoas ainda na casa, que com total certeza estaríam olhando os dois agora. O que importava era o momento. E que momento.

Depois do fogo inicial, vendo a atenção de todos focada diretamente neles, deram uma segurada na onda e ficaram entre carícias e beijos carinhosos no sofá até que todos os convidados saíssem e só os quatro, agora dois casais, estivessem no apartamento.

Ficaram de papo até seis, sete da manhã do sábado. Riram, brincaram, terminaram o resto das bebidas da casa. Ele ainda achou outra garrafa de Vernús, e fez questão de terminá-la sem parcimônia.

O quarto da morena era meio zoneado. Tinham roupas limpas na cadeira, roupas sujas embaixo da mesma. Sua cama, para alegria geral da nação, era de casal. Tiveram uma noite – manhã, na verdade – perfeita. Se descobriram e se entenderam muito bem. Ao meio-dia ele estava se despedindo da morena e do casal, que estava preparando um macarrão na cozinha. Ele não estava com fome.

Preferiu andar até sua casa. Deixou seu carro ao lado do apartamento. Domingo voltou para buscá-lo. E se encontrou mais uma vez com sua morena.

Passaram-se dois meses. Ela terminou a faculdade, foi para Washington morar na casa de familiares (ou amigos de família, ele nunca lembra) e tentar fazer mestrado em ciências políticas. Hoje se falam raramente, sempre por email.



Stood up, down, left and right
30-março-2006, 11:33
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Pedro e Fernanda. Trabalhavam juntos. Se olhavam como quem não quer nada, assim que passavam um pelo outro nas baias do escritório.

Pedro quis sair com ela. A chamou, e foi prontamente respondido. Há um bom tempinho se viam com certa frequência fora do escritório. Havia uma química no ar.

Pedro já saíra com ela cinco vezes. Se achou no dever de propor algo mais bonito, mais cavalheiro. Dar o golpe final no relacionamento que se desenvolvera nas últimas semanas.

Pedro ligou para o Zazá Bistrô. Marcou reserva. Queria que essa noite fosse a espcial. A noite que definiria tudo.

Pedro ligou para Fernanda. Combinou o encontro. Esperava ansiosmente a dia de ir pegá-la, de poder prover o jantar romântico e especial que tanto planejou e investiu.

Pedro, no tão esperado dia, se preparou e ligou para Fernanda. Queria poder pegá-la em casa, tratá-la como um completo cavalheiro. Fernanda, depois de diversos toque, atendeu.

‘Fernanda? Pedro’, disse ele, ‘estou ligando para confirmar a hora que posso passar aí para te buscar.’

‘Ah, oi Pedro…’ A voz de Fernanda parecia distante, perdida.

‘Então, a reserva do Zazá é às nove. Passo aí que horas? Oito e meia tá bom?’

‘Sabe o que é Pedro. É que hoje tem micareta. Desculpa, mas não vou no jantar. Tá?’

Pedro suspirou… e riu.



Gritantes diferenças
24-outubro-2005, 2:15
Filed under: Contos

Apesar das gritantes diferenças de personalidade, bastou uma troca de olhar. Ele, sempre comedido em ambientes como esse e ela, sempre efusivamente alegre e dançante. A música era uma dessas de praxe. Um hip-hop qualquer que sempre toca nesses lugares. Ele odiava a música com todo fervor. Ela dançava sem parar, cantando a música que sabia de cor e salteado.

Ele se divertia entre amigos. Era aniversário de um deles. Mesa cheia, mais ou menos dez pessoas batendo papo, discutindo política, música, projetos pessoais, futebol. Ela dançava com três amigas da faculdade. Acabara com seu último namorado fazia dois meses. Se sentia pronta para voltar a frequentar lugares como esse.

Enquanto ele discutia a importância de se embalsamar marxistas para servirem de exposição em museus por todo o mundo (na verdade, era sobre o novo meio-campo do Vasco… horroroso como todos os outros que lá jogavam), ele olha para ela em seu vestido verde, desses das pseudo-hippies da Lapa. Sua pele era banquinha. Seus pés perfeitamente descobertos numa sandália aberta. Ele tentava vê-los melhor. Ela pulava demais, não dava.

Voltando do banheiro ele a encontra no bar. Passa por ela, troca mais um olhar e pára ao seu lado. Pede uma água. Ela olha para ele, esperando que pedisse algo mais ‘tradicional’. Ele vira pra ela e diz: “Não bebo”, tentando disfarçar o bafo de Red Bull com whisky que tomara antes de ir fazer número um, “o que você pediu?” A bebida dela era um vermelho com azul misturado que ele nunca vira antes. Ela lhe diz o nome do drink. Algo estranho. Pouco importava. O fato de estar olhando em seus olhos era o suficiente.

Perguntou então qual era o gosto do drink. Ela ofereceu a taça para ele. Mais uma vez, ela reiterou que não bebia. Ela então indaga: “Mas como você quer saber qual é o gosto se não quer beber o drink?” Ela então repara no olhar maroto dele e sorri. Os dois se beijam, despretenciosamente mas apaixonadamente. Trocam carícias ao som de um funk antigo tocando no segundo andar. Ela tenta rebolar ao som que escuta. Ele fica ali, ainda admirando seus cabelos cacheados.

Ele olha pra baixo. Procura as sandálias abertas. Aqui dá pra ver melhor. Repara no cuidado que ela teve com os pés. Não tinha outro jeito a não ser gostar ainda mais dela.

A noite passa, e eles ali, no cantinho, se curtindo ao som das mais variadas músicas. É simplesmente imcompreensível para ele ouvir todos os estilos musicais presentes no mundo compilados em quatro horas no mesmo lugar. Esse é o Rio. Ninguém tem gosto musical. Todos gostam de tudo porque todos gostam de tudo. Falta de personalidade é foda.

Ela descobre um pouco mais sobre ele. Ela conta um pouco mais sobre si. Falam de música, de interesses pessoais, de projetos de vida. Ela termina faculdade de jornalismo em dois anos. Ele não vê nela uma jornalista. Nem ela. Mais um retrato da Geração Diploma.

As amigas estão de saída. Os amigos dele já saíram faz tempo. Ele oferece carona. Ela diz que está de carro e as amigas dependem dela. Trocam telefones e prometem se falar.

Quinta-feira da semana seguinte tentam um encontro de verdade. Vão ver um filme num cinema Estação. Ela precisa acordar cedo no dia seguinte, então o filme é cedo. Ele tem futebol com os amigos, e visto que ela não pode ficar até mais tarde ambos se despedem e ela segue para casa.

Sábado ela o convida para sair para outra boate. Ele tem barzinho com os amigos. Pondera a situação e escolhe, com um certo grau de dúvida, claro, ficar no barzinho. Ouvir música insuportável por cinco horas não é entretenimento para ele. A convida para ir pro barzinho conversar. Ela tem uma prima do Sul que quer conhecer a boate. Combinam de se encontrar na semana seguinte.

Escolhem quarta-feira. Um restaurante japonês em Ipanema. Já é o terceiro encontro (verdadeiramente, é o segundo) entre eles. Ele pergunta como foi a boate. Ela diz não ter gostado muito, mas o que importou foi a diversão da prima. Passam a noite entre sashimis se conhecendo ainda mais. Cada vez se entendem melhor. A diferença de opinião de ambos, porém, é grande. Dá pra ver que não há nada em comum a não ser o prazer do beijo e comida japonesa. Ela até admite não ter gostado muito do filme no Estação. Ela na verdade não gosta muito de cinema.

Ele prontamente pergunta se ela gosta de axé. A resposta, esperada, é sim. Muito. Não perde uma micareta com as amigas. Ele a diz que não suporta axé. Muda então de assunto para não perder o interesse.

Ele a leva em casa, no Leblon, e ela o convida para escutar um cd de axé que tem em casa. Diz que ele vai amar se escutar esse. “Os outros são uma porcaria mesmo”, diz ela, com um sorriso contido. Não há como recusar um convite tão promissor.

Ela mora com o irmão num apartamento de dois quartos deixado pelos pais, agora aposentados, que moram no litoral paulista, onde a mãe dela tem parentes. O apartamento é muito bem cuidado, espaçoso e aconchegante, impressionantemente desprovido de barulho apesar da localização.

Encontram uma química incrível no quarto, ao som de axé. Ele ri enquanto tudo se desenrola. Quer mais um Cole Porter, um Miles Davis, um clichezíssimo Barry White. Axé é brincadeira. Chiclete com Banana ao vivo é ainda mais ridículo. Tenta esquecer os barunhos de ‘chiiiiiiclé-tê, obá, obá’ do som dela. Ele vê que ela se diverte. Cada vez mais adora o sorriso dela. É um daqueles marotos, bobinhos, apaixonantes.

Já são duas da manhã. Ele finalmente consegue, depois de muita tentativa, a única coisa que achara de bom nos álbums dela: o botão de ligar do som. Ficam no silêncio um tempo até cairem no sono. Acordam assustados às seis da manhã. Pelo menos nenhum dos dois se atrasou para o trabalho e para a faculdade.

Continuaram a se ver por um tempo. Se encontram, em média, duas vezes por semanas. Sempre se encontram sozinhos, a dois. Ele não gosta de boates. Ela não gosta de não ir a boates. Ele tenta, incessantemente, levar uns dvds pra casa dela. De ‘Conde de Monte Cristo’ a ‘Procurando Nemo’, são os desenhos que mais agradam. Ele nem pensa em levar um ‘Apocalipse Now’.

As diferenças que o atraíram no início já estão fazendo diferença. Ele começa a ponderar se quer apresentá-la a seus amigos. Quer saber se ela vale a pena. A resposta vem num momento oportuno: show do Chiclete com Banana, esgotado há sei lá quanto tempo, que ela já tinha comprado ingresso e ia com as amigas de qualquer jeito. Uma das amigas tinha torcido o joelho jogando tênis, então tinha um ingresso sobrando. Ela ofereceu, provavelmente achando que seria impossível ele recusar. Pois ele não só recusou como quis conversar com ela.

Cinco semanas depois de tudo começar, se encontraram pela última vez no mesmo restaurante japonês do segundo encontro. Era tudo escondido demais pro gosto dele, e não havia como continuar com alguém de gostos tão distintos. Chega um ponto que você procura algo a mais. Não havia um álbum sequer no quarto dela que ele gostasse. Tá, ele comprou ‘Bloco do Eu Sozinho’ pra ela. Ela escutou uma vez, com ele. Depois foi parar atrás de todos os álbums de axé e hip-hop que ela tinha.

Ela não entendia como ele não via graça em dançar a noite toda ao som de 50 Cent, Ja Rule, Latino, Babado Novo ou o Chiclete. Ele não entendia como ela não conseguia ficar sem isso. Tudo bem que não deram tempo para que os gostos se adaptassem, mas honestamente nenhum dos dois parecia querer realmente tentar. Deixaram tudo como estava, e prometeram permanecer amigos.

Até hoje ele ainda a encontra de vez em quando. A última vez tem três meses. A encontrou num pub com algumas amigas. Um pub. Dançavam ao som de U2 e Counting Crows. Não sabiam as letras, mas era um avanço. Ele perguntou o que ela fazia fora de uma boate. Quinta-feira não era dia de boate, disse ela, e a sua amiga de faculdade não gostava de boates. Ela era loira, alta, e muito, muito bonita. A tentação foi muita. Mas não dava pra ele dar em cima de uma amiga dela. Não assim, na frente dela.

Talvez outro dia, pensou ele.